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Em busca do prazer pela leitura
PublishNews, Pedro Almeida, 22/06/2016
Pedro Almeida escreve sua própria análise do quadro apresentado pela Retratos da Leitura e provoca: 'Agora que temos dados, o que fazer com eles?'

Cena do filme 'O Leitor', com Kate Winslet e David Kross | © Reprodução
Cena do filme 'O Leitor', com Kate Winslet e David Kross | © Reprodução

Passado um mês da divulgação do relatório Retratos da Leitura 2015, decidi escrever também uma análise do quadro da leitura, mas pensando na seguinte premissa: "Sim, agora temos os dados. Mas o que fazer com eles?" Preferi olhar para os não leitores para discutir o que se pode fazer para incluí-los e responder a pergunta: "Como formar gente que gosta de literatura?"

Antes de tratar do tema preciso fazer uma correção. Contrariando o muito do que se disse em artigos, não houve crescimento algum do número total de leitores. Na mesma pesquisa, Retratos da Leitura, realizada em 2007, 55% eram o número de brasileiros leitores; em 2015 esse número foi para 57%, o que significa zero, numa uma margem de erro de dois pontos percentuais. Os dados que alguns utilizaram para indicar crescimento foi na comparação com 2011. Vejamos: eram 55% de leitores em 2007; 50% em 2011 e 57% em 2015. Então não houve crescimento por mais que se tente colar essa imagem de que as políticas foram acertadas. Sem que isso fique bastante claro, vamos patinar nas políticas públicas para os próximos anos.

Eu me prendi em “ler” algumas telas focadas mais em quem não lê, e por quais motivos, para que cada grupo, sejam pais, professores, editores, editoras ou até gestores públicos, possa pensar também em como criar políticas de inclusão dessas pessoas, porque não temos políticas realmente competentes do poder público e não devemos depender apenas dele. É por nossos descendentes, por nosso mercado e mesmo para deixar algum legado que não devemos depender.

Um resumo rápido desse recorte pode ser dito assim: 67% de todos os entrevistados disseram que ninguém os influenciou a gostar de literatura. No total, 62% afirmaram que entendem que a leitura traz conhecimento e crescimento pessoal e profissional, e quase 60% de todas as pessoas tem como principal motivação para pegar num livro o prazer, entretenimento.

Tenho uma premissa comigo apreendida nos primeiros anos atuando como jornalista: se uma sentença está clara, mas muita gente não percebe a mensagem logo de cara, isto quer dizer que ela não está clara o suficiente. Não para a compreensão dos fatos na velocidade que a leitura é realizada hoje.

Se dois terços das pessoas dizem que ninguém os influenciou, isto pode indicar que:

Primeiro: Os adultos não são bons influenciadores. Isto porque seguramente é na infância e adolescência que se adquire o gosto ou hábito de ler. Esse tópico rende um bom debate de ideias e propostas. Desde que a atividade de leitura possa ser mais bem trabalhada em atividades de grupo e por aí vai. Conversei sobre este tópico com Mariana Rolier, editora do grupo Rocco e ela citou o seguinte: "Os adultos não são bons influenciadores porque, primeiro, indicam livros adultos para jovens, principalmente na escola, e/ou, segundo, possuem síndrome de 'tio do gibi: se apropriam do conhecimento e não permitem novas audiências, interpretações e visões, pois a superioridade lhes traz satisfação – cabem aí os pseudointelectuais, escritores decadentes e editores arrogantes, em geral associados à frase 'Este público não é o meu'."

Segundo: Os pais, professores e figuras públicas não transmitem com seus exemplos e vida a mensagem de que chegaram lá por causa do estudo e dos livros. Por mais que acreditemos, não há uma mensagem forte em nossa sociedade do valor da literatura, que fixe tanto nas pessoas que possa provocar uma revolução cultural. As campanhas para a leitura precisam dessa direção. Falar não adianta, como veremos a seguir.

Ao todo, 72% dos entrevistados afirmaram que entendem que a leitura traz conhecimento e crescimento pessoal e profissional. Podemos extrair dessas respostas que temos um caráter utilitário associado à literatura. Todos parecem entender a sua importância e utilidade. Mas o que essa premissa indica? A falta de prazer!

Maggie Simpson em episódio de 'Os Simpsons' | © Reprodução
Maggie Simpson em episódio de 'Os Simpsons' | © Reprodução


Como levar a ideia de prazer à atividade de leitura? Não será transformando-a num big brother ou levando-a um show de hip hop. Construir a ideia de prazer, prazer real, associado ao interesse da infância, não da leitura que orgulham adultos (pais e professores), pode ser um bom caminho.

Sabem aqueles programas de reality shows que ajudam pais a educar crianças? E outros que mostram aos donos como educar cachorros? No fundo, a origem do problema sempre está no comportamento dos adultos. E o princípio vale aqui. Se as crianças não leem, é por causa de alguma estratégia errada promovida pelos adultos. Não vamos culpar as crianças – estamos fazendo algo muito errado.

Vejam como uma coisa está relacionada à outra. Todos reconhecem o valor da leitura para uma vida melhor, mas isto não é suficiente para que elas consigam tempo e interesse para ler. Quantas vezes vemos um adulto que tem plena consciência de onde começa o erro que o leva a repetir equívocos e, mesmo com essa ciência, não muda o próximo passo? Pense naquelas pessoas que não podem com bebida, com gordura ou com cigarro. A ideia da saúde não é suficiente. Se adultos não conseguem mudar, diante de uma mensagem clara do que faz bem para eles no presente, por que devemos esperar que crianças passem a ler ao saber que isto será bom para o seu futuro?

Então, precisamos trocar a mensagem. Não devemos dizer que a leitura não é boa, mas, se preciso, vamos mentir, enganar, fazer o que for necessário – piada, ok? – para convencer as crianças que o valor não está no que elas podem alcançar socialmente com a leitura. Vamos dizer que vai ser divertido, que vão rir, que vão se emocionar como se estivessem numa novela de época de Jane Austen (ou na novela das seis), ou que vão chorar com o drama de um personagem na vida real, ou que vão ter o desafio de desvendar o assassino antes do capítulo seis, ou que vão descobrir como as pessoas públicas mentem nos pequenos sinais, entendendo um pouco de filosofia ou da linguagem do corpo. Enfim, os caminhos podem ser diversos, mas temos de priorizar o prazer.

E por fim, casando com a resposta anterior, se quase 60% de todas as pessoas tem como principal motivação para pegar num livro o prazer, entretenimento, então vamos prestar a atenção nele. O prazer tem de ser o foco para formar leitores.

Mas para isso há um impedimento: cerca de 90% dos não leitores indicam uma dificuldade em ler. Acham complexo, ler cansa, preferem outras atividades ou não encontram tempo. Há duas questões centrais, a meu ver, nestas respostas:

Primeiro, o objetivo. O que se diz comumente para as pessoas que se pode alcançar com a leitura é mais uma frase de efeito que uma imagem concreta do que ela pode promover. As pessoas sabem repetir numa pesquisa sobre o valor dela, mas não acreditam de fato. Pelo menos não o suficiente para investir na atividade, insistir, achar que vale mesmo perder noites, dormir menos, largar a TV ou a ida ao cinema para ver o último lançamento que todo mundo está comentando para ler um livro.

E quem está comentando alguma coisa na imprensa sobre um livro? Quantos fóruns nas redes sociais, nos jornais, nas TVs, portais de notícias e rádios estão discutindo o destino, a escolha feita por um personagem? É preciso encher de literatura a vida das pessoas. Se por um lado precisamos trabalhar na mensagem do prazer (e aqui me refiro a todas as campanhas das entidades do livro, do Minc, MEC etc.), por outro precisamos que os meios de difusão da literatura pautem esses temas e incluam em seus canais espaço que estimulem esses caracteres da literatura.

Segundo, o prazer da leitura. Para muita gente este prazer talvez esteja relacionado não apenas à falta de oferta de gêneros e tipos de livros oferecidos, mas também a uma imensa dificuldade cognitiva. Assim, a atividade não está associada a um prazer. Essa é uma tarefa especialmente da educação. Há algumas décadas a educação deixou de investir no uso da literatura como ferramenta na formação dos estudantes. Estivemos focados mais no estudo da língua. Conversei sobre o assunto com a Mestre em Literatura pela Unicamp, Emília Amaral, que tem mais de uma dezena de livros voltados à formação de novos leitores e que é uma das maiores especialistas no assunto, porque tem um trabalho focado na ferramenta prática. Ela me contou o que aconteceu com o ensino de literatura e eu resumo aqui: “A partir dos anos de 1970, desenvolveu-se um processo sócio-histórico-cultural por muitos denominado 'pós-modernismo'. Sua principal marca consistiu na busca de anulação das diferenças, no sentido de democratizar a sociedade, abrindo espaço para os excluídos. Estes, os excluídos, chegaram ao centro do debate, trazendo suas linguagens, hábitos, culturas. A instituição escolar, por exemplo, relativizou a norma-padrão da linguagem.”

Se para a inclusão de pessoas esse mecanismo trouxe algo positivo, para o estudo da literatura, não. Esse relativismo fez com que o estudo da literatura passasse a acontecer sob forma de citações, extratos, fragmentos, pois o foco principal do estudo agora era a linguagem. E, por consequência, ela, a literatura como obra, como estudo do texto completo, pouco a pouco foi perdendo a importância no ensino até quase desaparecer.

Como podemos formar leitores que praticamente lêem apenas trechos de obras?

Aqui eliminou-se o prazer pela história. Focamos os alunos na análise de palavras e contextos culturais a partir de extratos. Donde pode-se imaginar que o problema está na base. Salvo raríssimos professores, por iniciativa própria, por esforço pessoal, os demais seguem essa premissa que excluiu o prazer pela literatura das salas de aula. Basta ver nas questões dos vestibulares, na parte de literatura, onde está tudo ligado à linguagem ou à crítica social. Ninguém fala de beleza, das paisagens, das emoções ou do prazer. Se queremos mais leitores, esta é uma discussão que precisa ser feita.

Hoje vou pedir aos leitores algo mais. Claro, as críticas e comentários são muito bem-vindos, pois com eles posso saber o que pensam outras pessoas e corrigir meus equívocos. Mas gostaria que os leitores pudessem aproveitar esse espaço de comentários para citar cases, histórias de sucesso na formação dos leitores e dar sugestões. Assim, todos aprendemos uns com os outros.

P.S.: Quem quiser ver as telas em que me baseei e as somatórias para os números aqui apresentados basta acessar o meu blog.

Pedro Almeida é jornalista profissional e professor de literatura, com curso de extensão em Marketing pela Universidade de Berkeley. Autor de diversos livros, dentre eles alguns ligados aos animais, uma de suas paixões. Atua no mercado editorial há 26 anos. Foi publisher em editoras como Ediouro, Novo Conceito, LeYa e Saraiva. E como editor associado para Arx; Caramelo e Planeta. É professor de MBA Publishing desde 2014 e desde 2019 é presidente do Conselho Curador do Prêmio Jabuti. Em 2013 iniciou uma nova etapa de sua carreira, lançando a própria editora: Faro Editorial.

Sua coluna traz exemplos recolhidos do cinema, de séries de TV que ajudam a entender como funciona o mercado editorial na prática. Como é o trabalho de um ghost writer? O que está em jogo na hora de contratar um original? Como transformar um autor em um best-seller? Muitas dessas questões tão corriqueiras para um editor são o pano de fundo de alguns filmes que já passaram pelas nossas vidas. Quem quer trabalhar no mercado editorial encontrará nesses filmes algumas lições importantes. Quem já trabalha terá com quem “dividir o isolamento”, um dos estigmas dos editores de livros. Pedro Almeida coleciona alguns exemplos e vai comentá-los uma vez por mês.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews

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