Pedro Almeida fala sobre a importância de 'apontar para o novo' em seu discurso no Jabuti
PublishNews, Pedro Almeida, 29/11/2019
Curador da 61ª edição do prêmio falou ainda sobre a responsabilidade do Jabuti de promover a cultura e sobre a importância da homenagem à Conceição Evaristo

Pedro Almeida | © Estudio wtf
Pedro Almeida | © Estudio wtf
Íntegra do discurso de Pedro Almeida na cerimônia de entrega do Prêmio Jabuti 2019

Para mim, é uma honra enorme presidir o Prêmio que já distinguiu os maiores artesãos da palavra neste país e ter a oportunidade de contribuir para torná-lo mais abrangente, mais representativo.

Tenho consciência de que um prêmio com tal envergadura pode e deve promover a cultura de variadas formas.

Nosso desejo, porque falo também em nome do conselho curador, é que, a cada edição, o Prêmio Jabuti se torne uma grande condecoração da cultura, atravessando as fronteiras do mercado editorial e se fazendo presente junto às leitoras e aos leitores.

Sua expressão deve refletir a melhor produção editorial, a leitura, o pensamento e o espírito do tempo.

Para tudo isso não se perder em palavras, fizemos uma série de atualizações nesta sexagésima primeira edição. São movimentos sutis, que já podem ser percebidos nos resultados, na divulgação do júri, na cerimônia, na participação de mais editoras, na promoção de autores.

Tivemos a felicidade de ver, neste ano, o número de inscrições crescer em relação a 2018, num ano em que houve uma grande redução do número de lançamentos. Estes números revelam a confiança dos escritores e das editoras no prêmio, o que aumenta nossa responsabilidade de devolver essa confiança com mais resultados.

Contamos, nesta edição, com um corpo de jurados de sonho. Profissionais de currículos respeitados, excelente formação e, especialmente, respeitada experiência prática, sintonizada ao presente.

Ampliamos a inclusão de jurados oriundos de todas as regiões do país, porque este é um Prêmio da Cultura Nacional, que deseja um equilíbrio entre o fundamento, a arte, a leitura e buscando revelar e ressaltar sempre os grandes talentos brasileiros.

Outra questão que nos importa é apontar para o novo, tecido todos os dias em nossas editoras, para as novas formas, novos olhares, novas criações. Isso não significa desprezar o clássico.

Pelo contrário: para nós, novo é aquilo que não foi visto, o novo livro, a nova expressão, os novos movimentos. Somente apontando para o futuro, podemos ter uma produção literária mais sólida, relevante, que seja reconhecida e assumida pelos leitores.

Nesta edição, quero destacar meus quatro apoiadores especiais, os membros do conselho que me acompanham: Camile Mendrot; Cassius Medauar; Mariana Mendes e Marcos Marcionilo, todos editores com ampla experiência em diversos nichos do mercado editorial. Formam um grande time e trouxeram enorme vitalidade para o Jabuti 2019. E a responsável por fazer tudo acontecer, Evelina Fyskatoris, com sua equipe: Camila Silva e Gledson Nascimento.

Agradeço a confiança de todos os diretores da Câmara Brasileira do Livro pelo apoio constante às propostas mais inovadoras, nas pessoas do presidente Vítor Tavares e de toda a diretoria da Câmara, e de Hubert Alquieres, junto à Comissão deste prêmio, que avalizou nossas iniciativas e aparou as arestas das novas propostas.

Hoje haverá um grande livro premiado em cada categoria. Mas todos aqui estão premiados.

Esta sexagésima primeira edição da Cerimônia traz algumas reflexões. E elas estão nos detalhes. É interessante observar quando foi a última vez em que um autor brasileiro, negro, foi homenageado por uma premiação literária nacional, enquanto vivo. Busco em minha memória e não consigo pensar em alguém além de Machado de Assis. E isto aconteceu há mais de cem anos. E, assim, passamos um século em branco. É algo sobre o que precisamos refletir.

Separei um trecho do poema de Conceição Evaristo, porque há muitos que não conhecem a forma, as imagens que ela evoca sobre tudo o que nosso país perdeu de conhecer por muitas décadas.

Da calma e do silêncio

Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

Hoje é dia de celebrar Conceição Evaristo, que representa aqui não apenas a si mesma, não obstante ser tão gigante, e também os grandes autores negros do passado e do presente, porque só conectando todas as peças da cultura e gente brasileiras é que podemos avançar enquanto nação.

Quero pedir a primeira salva de palmas desta noite. Um viva a Conceição Evaristo!

[29/11/2019 08:00:00]