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À espera de um milagre
PublishNews, 15/01/2015
Em sua coluna de hoje, Pedro foi buscar inspiração nos filmes 'Dançando no escuro' e 'Detachment'

Para o tema de hoje proponho um retorno às Humanidades e vou me apoiar em dois filmes: Dançando no escuro (2000), de Lars Von Trier, com a cantora Bjork e Catherine Deneuve; e Detachment (Indiferença), que foi traduzido como O (professor) substituto, 2011, de Tony Kaye, com Adrian Brody, James Caan, Lucy Liu entre outros ótimos atores.

Penso que de uma ou outra forma, quase todo mundo se pergunta como passamos a viver num mundo em que dados e “aparências” valem mais que a palavra. Há um conceito antigo que se perdeu e nossa sociedade: A Palavra (com P maiúsculo mesmo) de alguém era como honra, tinha valor, carregava o crédito de uma vida. Servia para fechar negócios, assumir dívidas e ou compromissos. Então, isso foi se perdendo pouco a pouco até que contratos com multas, índices e juros tomaram o lugar da honra, e isso foi, pelo que me lembro, o início da nossa grande decadência.

Dançando no escuro conta a história de uma moça muito simples, com uma doença hereditária que irá levá-la a cegueira, ainda jovem. Para evitar que seu filho tenha o mesmo destino, ela junta todo o dinheiro de uma vida a fim de pagar por uma cirurgia preventiva. No entanto, muita coisa acontece e acaba acusada de assassinato. Todos percebem que ela nunca teria condições de cometer o crime, mas como estão apoiados em evidencias aceitas pelo sistema judicial (era quem estava no local com malandro morto, restava como culpada). E ficamos todos boquiabertos, irritados, tristes ao final do filme porque reconhecemos que tudo o que acontece ali na ficção é um reflexo de um sistema falido de julgamento binário, burocrático e que se repete o tempo todo em nossas vidas.

Nas últimas décadas de grande avanço tecnológico temos substituído inescrupulosamente a razão por dados, a verdade por uma cadeia linear de provas, aceitando como efeitos colaterais todas as injustiças que se cometem para fazer o sistema de dados funcionar. E se isso acontece nas empresas fundadas sobre as áreas de Humanas, como editoras, escolas, universidades, pode-se imaginar o que ocorre com as demais. O que tenho visto é que aceitamos subjugar as Ciências Humanas às Exatas cotidianamente por diversos motivos e maneiras. Vejamos:

Sobre os dados e estatísticas, já aprendemos que podem ser manipulados para tantos lados que você pode obter respostas opostas tendo os mesmos números em mãos. Agora mesmo leio que a escola pública, onde estudou o aluno que tirou o 1º lugar do ENEM 2014, ficou quase na posição 600 dentro do ranking total de escolas. Poderia exaltar a escola ou puni-la, bastando nos fixar nas extremidades desses dados. Numa análise que diriam superficial, sem fazer entrevistas, mas apoiado no conhecimento de Humanas, eu poderia supor, quase com absoluta certeza, que o mérito não foi da escola, mas do aluno. Mas é provável que você, mesmo concordando comigo, ainda prefira que se instaure uma auditoria da Price Waterhouse ou da Deloitte para que se possa dar uma opinião ou mesmo tomar uma decisão a respeito. E onde isso acaba? Somos assolados por tanta informação todos os minutos que depois de um tempo esquecemos desse fato, de ter pedido a confirmação dos dados, da análise, da auditoria, e o tema perde a necessidade e permanece indefinido.

Confiamos tantos em dados, índices e estatísticas que nos esquecemos de que eles são utilizados o tempo todo para nos fazer consumir, desejar, tomar um partido, enfim, nunca estão imunes de alguma intervenção.

É que confundimos dados com Matemática, e esta armadilha nos faz pensar que são exatos. Mas dados, mesmo quando verdadeiros, são burros. Pode-se justificar atos de toda a espécie, mas sobretudo tirar do ser humano a capacidade de analisar, de decidir, de discutir. A ferramenta mais imoral de um discurso pode ser um dado não verificado posto numa discussão como fato, já revelava Schopenhauer numa das 38 estratégias para vencer qualquer debate.

Como o foco deste artigo é o mercado editorial, vou trazer alguns exemplos desta área, mas que qualquer pessoa poderá enxergar também em outras áreas de atuação. Este mercado, que é fundado sobre áreas de humanas: letras, história, filosofia, artes, psicologia, línguas e literaturas tem se rendido a processos burocráticos, planilhas, índices, de tal forma que a arte, a humanidade desse segmento, acaba muitas vezes desprezada em benefício de um automatismo administrativo.

Não estou me referindo aqui aos processos administrativos, sistemas de controles de toda ordem para lidar com a gestão do negócio, mas criticando quando estes sistemas são priorizados em aspectos puramente artísticos, filosóficos, editoriais, por exemplo. Exemplos: departamentos como Jurídico e Financeiro atuam em editoras, livrarias e distribuidoras muitas vezes criando empecilhos para processo quando criam contratos sem maleabilidade; sistemas de comercialização e documentação fiscal sem flexibilidade; ou a mudança de acordos no meio do caminho sobre relações de confiança, entre autor e editora: é aquela parte que não se resolve por contrato. De tanto observar a repetição dessas cenas, tive de forjar um princípio em minha cabeça, que ouvi pela primeira vez do editor Quartim de Moraes, para demonstrar aos demais setores como reestabelecer o conceito dentro de uma empresa editorial: manter o objetivo em foco e qualquer coisa, por mínima que seja, que venha atrapalhar esta finalidade, deve ser reconduzida ao seu lugar.

Em uma editora, o objetivo maior é o livro; em uma empresa de calçados, o calçado; em um restaurante, comida e atendimento, não o sistema de gestão, de contratos, de pagamentos. Numa livraria, quem importa é o público que a procura. O conceito não é novo, mas raramente é posto em prática. Lembro que na Livraria Cultura, onde trabalhei décadas atrás, qualquer funcionário, não importando se fosse um gerente de operações ou assistente de marketing, ao ser interpelado por um cliente sobre um livro se tornava imediatamente um vendedor, um atendente. No entanto, o que se formou nos dias atuais são setores, dentro de empresas, que buscam se tornar importantes em si, em detrimento de toda a finalidade da companhia. E a isso credito essa supervalorização dos sistemas, dos processos.

Esse conceito surgiu visando trazer uma organização para a gestão de empresas mas me parece que creditamos as burocracias um valor exagerado. E nesse campo, vejo que um dos motivos é que, como são subjetivas as decisões ligadas às questões artísticas, humanas, subjetivas (dão trabalho e precisa-se refletir), tomar uma decisão por aspectos esquemáticos nos livram da culpa, pois as responsabilidades podem ser diluídas. Os equívocos baseados em planilhas geram uma investigação que, na maioria das vezes, vai revelar alguma série de procedimentos errados e uma falta de autonomia, e não podendo responsabilizar o sistema burocrático, ninguém será responsabilizado (e mantido). Essa burocracia atua, por exemplo, no ambiente universitário, de modo cruel. Quem não se recorda de ter professores, com mestrados e doutorados brilhantes mas incapazes de transmitir conhecimento? É que o MEC obriga as universidades a terem 1/3 de seus professores com mestrado e doutorado. Não seria mais adequado exigir que soubessem ensinar? De novo, o poder máximo da Educação pautando suas decisões por números burros. Não foi por acaso que uma pesquisa da revista Nature revelou semana passada que nossa produção científica é das mais medíocres do mundo.

Lembro de ter ido a uma reunião com um autor que representei e iríamos fechar uma série de livros numa editora. Para a reunião foi convidado um profissional de marketing. Cada um falou um pouco, e quando ele abriu a boca para opinar sobre o conteúdo do projeto disse apenas: “Já vejo a chamada na Folha de São Paulo: ‘Grupo tal agora em 2.0’”. Enfim, ele não estava nem interessado no projeto, mas em criar um entorno para o seu trabalho, que certamente demandaria muitos recursos, bem como uma cara campanha. E isso acontece o tempo todo. Acontece porque continuamos a ouvir propostas como essas e consideramos relevantes, porque certamente seria uma notícia que iria circular, porque teria muito mais gente da área de cultura interessada em falar do tal projeto 2.0, que de um projeto altamente educativo e cultural bem realizado.

Perdemos o sentido para o que é o realmente importante: um título ou uma didática? Uma chamada de marketing ou um produto de qualidade? Índices ou aproveitamento? Vendemos nossas almas a um mundo de dados cegos e que elegemos como guia para tudo. É que fechamos os olhos para o “jogo de cena” que se faz, e depois reclamamos dele.

Penso que o mundo seria um pouco melhor se parássemos de dar tanta atenção aos números, aos dados, às tecnologias. Valorizamos tanto isso que frequentemente somos manipulados. Num livro em que trabalhei para a Editora Saraiva, uma biografia sobre Henry Ford, um jornalista equiparava Ford a Steve Jobs. O autor discordou. E demonstrou que a criação do carro trouxe aspectos muito mais revolucionários, porque com ele veio a ideia de encurtar distancias (e tudo isso tem a ver com o processo de globalização, acesso à informação, turismo e consumo). Isso revolucionou desde o acesso a alimentos de todo o mundo à ideia de que podemos comprar um casaco da China ou ter acesso rápido a medicamentos para tratar do ebola. Algo muito superior que um aparelho que nos tirou toda a atenção do mundo real e criou em nossa sociedade uma dependência por informação, jogos, acessos e contatos por redes sociais. Comparar um com outro não tem qualquer ponto de equilíbrio, e imagino que, no futuro breve, vamos descobrir o buraco que nos enfiamos ao adotar o smartphone, que vem formando gerações cada vez mais incapazes de trânsito social.

Veja este curto link, do filme O substituto. Uma cena que tem a ver com a reflexão que proponho aqui. O filme conta a história de um professor substituto tendo de lidar com uma classe muito difícil. Perto dele, o Mentes perigosas estrelado por Michelle Pfeifer se torna uma bobagem. Na cena aqui, o professor aproveita o xingamento que um menino faz (e o palavrão não foi legendado) para demonstrar como nossa Cultura reafirma mentiras, que nós sabemos que são mentiras, mas aceitamos.

Que em 2015 valorizemos mais as Ciências Humanas. Que possamos reassumir a discussão todas as coisas sob um aspecto que leve em conta o que sentimos de fato, e não seguindo um roteiro. Senão estaremos nos tornando reféns dos nossos processos robóticos, escravos das máquinas, algo “profetizado” por Isaac Asimov na sua série de contos condensada no livro, Eu, robô. #maishumanasmenosexatas

Se tiver interesse em assistir ao segundo filme completo, o que recomendo, não encontrei onde comprar, mas é fácil encontrar links em todos os idiomas no YouTube. Se quiser comentar, escreva em meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com

Pedro Almeida é jornalista e professor de literatura, com curso de Marketing pela Universidade de Berkeley. Autor de diversos livros, dentre eles alguns ligados aos animais, uma de suas paixões, trabalha no mercado editorial há 20 anos. Foi publisher em editoras como Ediouro, Novo Conceito, LeYa e Lafonte. Atualmente inicia uma nova etapa de sua carreira, lançando a própria editora: Faro Editorial.

Sua coluna traz exemplos recolhidos do cinema que ajudam a entender como funciona o mercado editorial na prática. Como é o trabalho de um ghost writer? O que está em jogo na hora de contratar um original? Como transformar um autor em um best-seller? Muitas dessas questões tão corriqueiras para um editor são o pano de fundo de alguns filmes que já passaram pelas nossas vidas. Quem quer trabalhar no mercado editorial encontrará nesses filmes algumas lições importantes. Quem já trabalha terá com quem “dividir o isolamento”, um dos estigmas dos editores de livros. Pedro Almeida coleciona alguns exemplos e vai comentá-los uma vez por mês.

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