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De prêmios e vencedores
PublishNews, Henrique Rodrigues, 15/09/2026
Em sua coluna, Henrique Rodrigues comenta sobre a importância de concursos e a responsabilidade de lidar com eles

Definitivamente, os prêmios literários fazem parte da minha vida profissional. Vou para lá, para cá e o assunto acaba caindo novamente no meu colo. Ainda que seja escritor no melhor estilo bombril, produzindo livros a torto e a esquerdo, parece que a turma da área me tacou a etiqueta “o cara dos prêmios sem medo”. Então tá.

Por esses dias, saiu na Folha de S. Paulo a vitória que tive na justiça contra meu ex-empregador, revelando o assédio a perseguição que sofri no caso da fatídica noite na Flip de 2023. É até engraçado como fingem que não aconteceu o que aconteceu, sobretudo quando uma diretora disse, sem saber o que isso representava também em termos simbólicos, que o escritor Airton Souza e eu deveríamos ter saído presos do evento. Tristes tempos. Mas, sinceramente, ficar calado é concordar com equívocos e absurdos de poderosos. Tudo tem limite.

Na Bienal do Livro de São Paulo, participei de uma mesa sobre premiações literárias na programação principal. Estive com Manuel da Costa Pinto, que falou do Oceanos, importantíssimo na área. E a Bethânia Pires Amaro, autora genial que vem vencendo muitas premiações e, ironicamente, foi descoberta pelo prêmio no qual eu trabalhava. Quando o mediador Rodrigo Casarin, para dar o contexto, mencionou a notícia da Folha, a salva de palmas que veio da plateia me encheu o coração. Esse abraço do público e de profissionais sérios da área me deu e ainda me dá muita força.

Daí o Prêmio Caminhos de Literatura, que está em sua terceira edição e vem conquistando um bom espaço na área. Quem vencer ganha aquilo que considero importante para inéditos: a publicação por três editoras bacanudas em três continentes (Dublinense no Brasil, Kacimbo em Angola e Grupo Infinito Particular em Portugal) e a possibilidade de iniciar uma carreira na área, algo difícil e que não tem receita, apesar do que tantos picaretas vendem nas redes sociais. Se o/a assinante do PublishNews for ou conhecer algum/a romancista inédito, é conferir o site e se inscrever. Aliás, as inscrições terminam nesta terça-feira, 15/09, às 15h. Neste ano temos apoio da Estante Virtual, em cujo teatro, lá de São Paulo, vamos fazer a premiação em dezembro.

Há pouco tempo tivemos o resultado da terceira edição do Prêmio Pallas de Literatura, voltado para promover autores autodeclarados negros, e do qual sou curador. A editora carioca, que tem meio século de trabalho sério com foco na cultura afro-brasileira, está apostando também em descobrir novos nomes. Resolvemos mudar para a categoria Conto nessa edição, selecionando “A pombagira do fim do mundo e outros contos”, do Ademar Barbosa Jr, um sacerdote umbandista de Piracicaba. Vale lembrar que é um autor mais velho, acima dos 50, que o “mercado” veria com desconfiança para começar uma carreira literária num cenário que vê novos autores como sinônimo de autores novos.

Quando colocamos no ar um concurso para revelar novos autores, precisamos ter responsabilidade com as pessoas que acreditam no projeto. De um lado, nossos parceiros, que nos dão credibilidade, algo que não se compra, mas se conquista com seriedade e tempo. Do outro, com quem se inscreve: estamos lidando com muitas horas de trabalho, pesquisa, escrita, reescrita, e expectativas numa área tão concorrida. Nessas mais de duas décadas lidando com esses formatos, acompanhei de perto a vida de pessoas mudando radicalmente apenas por ter vencido um concurso literário. Ajudar nesse processo, com toda a luta e fazendo o que é certo, é também um tipo de prêmio que a gente vence.

Henrique Rodrigues é diretor do Instituto Caminhos da Palavra, voltado para a promoção do livro, leitura e escrita. Com mais de duas décadas de experiência na área, é coordenador geral do Prêmio Caminhos de Literatura e curador do Prêmio Pallas de Literatura. Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, formou-se em Letras pela Uerj, cursou especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ, coordenador pedagógico do programa Oi Kabum! e gestor de projetos literários no Sesc Nacional. Publicou 24 livros, entre poesia, infantil, conto, crônica, juvenil e romance, tendo sido finalista do Prêmio Jabuti duas vezes. É patrono de duas salas de leitura das escolas públicas onde estudou. www.caminhosdapalavra.com.br

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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