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Pela paz entre os homens-livro
PublishNews, Paulo Tedesco, 23/10/2023
Em novo artigo, Paulo Tedesco faz um paralelo entre homens e livros e a sociedade como uma grande biblioteca e sobre como ela merece ser lida com maior profundidade e nas entrelinhas

Gosto de pensar em Marx, que disse “para mudar o mundo é preciso ser radical, e no caso da humanidade, o homem é a própria raiz.” Ele, por óbvio não usou essas palavras, mas são bem conhecidas. E o que nos resta então, passando por Marx, é o entendimento do que é homem, e o que é humanidade. Logo, precisamos discutir o que é o homem.

Homens, para mim, são livros, homens-livro, e a humanidade uma biblioteca tão gigante que encontramos seu ponto de acesso em qualquer parte do globo. Espraiada em cavernas, ilhas, oceanos, florestas e até no espaço sideral. O problema é que alguns livros radicalizaram e decidiram atear fogo em outros. E o pior, esses radicais, acreditaram que eliminando um, estariam assim aliviando a leitura de outros...

E haveria por que incendiar-se? Ainda que sejamos feitos do pouco perene papel? Pela linha radical, sim, o fim do mundo estaria sempre ao virar da esquina. Então, incendiemos uns aos outros? Mas se o incêndio queimará a todos e, ao fim, não restará inimigos tampouco amigos, do que valeria a atitude radical?

A famosa política de terra arrasada: metralhar, bombardear indiscriminadamente, pertence à doentia radicalidade, ao fracasso do homem-livro, da humanidade-biblioteca.

Mas essa biblioteca, global e terráquea, merece mais do que um pensamento raso e criminoso. Merece ser lida não de cabeça para baixo ou só a introdução e sem virar as páginas, ou ainda sob o furor apaixonado de quem não entende subtextos, sequer sutilezas. Se até uma boa e longa equação matemática tem lá suas incríveis sutilezas, porque uma leitura apressada mereceria atenção?

É preciso um pensamento consequente. É preciso livros consequentes. É preciso visão humana e literária sobre o homem e sobre a sociedade. Ora, alimentar radicalismos em detrimento do diálogo, à paciência, a quem interessa?

Se queremos atear fogo, que brinquemos em local apropriado e distantes de quem acha tudo isso uma besteira. Se queremos um ringue, que lutemos onde tenhamos as consequências sobre nós mesmos, e não em nossas crianças e nossos velhos. Não há espaço para mais absurdos nem brincadeiras de quem só sabe ler pela ótica do horror e do extermínio.

Antes, leiamos pela paz. Só ela nos permite a reflexão e a saída razoável para impasses. De minha parte, sigo desejando que tudo se acalme e que os livros parem de ser destroçados, porque outros livros radicais não acreditam no diálogo, ou se acreditam, preferem lançar bombas e asfixiar bibliotecas porque assim provam sua virilidade dominadora e financeira, ou seria outra a explicação?

Se as raízes são os próprios homens-livros, então permitamos os corredores humanitários e retornemos para dentro dos prédios públicos, sem precisar jogar bomba na biblioteca vizinha. Devolvamos territórios a quem diz pertencer, ou cheguemos a acordos civilizados e sem tropelias de ocupação desses territórios, porque mover livros de um lado a outro é sempre trabalhoso e toma tempo, muito tempo. Homens-livros, afinal, rápido criam raízes e para removê-los com carinho, será sempre necessário bons e reforçados esforços.

Que leiamos em paz.

Paulo Tedesco é escritor, editor e consultor em projetos editoriais. Desenvolveu o primeiro curso em EAD de Processos Editorais na PUCRS. Coordena o www.editoraconsultoreditorial.com (livraria, editora e cursos). É autor, entre outros, do Livros Um Guia para Autores pelo Consultor Editorial, prêmio AGES2015, categoria especial. Pode ser acompanhado pelo Facebook, Twitter, Instagram e LinkedIn.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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