Publicidade
Publicidade
Uma misteriosa mensagem, vinda do outro lado do mundo...
PublishNews, Leonardo Garzaro, 03/08/2023
Em nova coluna, Leonardo Garzaro conta sua experiência com editores chineses e lembra como é importante bater em muitas portas antes que alguma se abra

Foi em maio deste ano que recebi um curioso e-mail da sra. Wu Bei, de quem eu nunca ouvira falar. Segundo a mensagem, uma comitiva com 19 editores chineses estaria em São Paulo em julho para uma missão comercial. Os editores me convidavam para um seminário, cujo objetivo era estreitar as relações comerciais do mercado livreiro entre Brasil e China. Ainda, diziam-se interessados em conhecer os autores da Rua do Sabão, apresentar autores chineses e estabelecer parcerias e relações comerciais de longo prazo. Tudo isso acompanhado de café, pão de queijo e doces em um hotel.

Eu, como bom brasileiro, logo pensei que era golpe. Lembrei imediatamente daquele e-mail, que todos já receberam, no qual o príncipe saudita perseguido procura uma pessoa de coração puro em quem possa confiar uma herança de milhões de dólares. E também dos falsos encontros do Tinder, do golpe do carro clonado, do SMS que alerta para os pontos no cartão prestes a expirar. Do anúncio de emprego bem remunerado sem sair de casa, do golpe do saque do FGTS, do WhatsApp clonado de um amigo. Me imaginei acordando em uma estrada, amarrado, a 50 km de São Paulo, com dores de cabeça após ter ingerido um “Boa Noite, Cinderela”, as contas bancárias negativas após uma dezena de transferências via pix. Eu, inocente, explicaria para o delegado: “Achei que eram editores chineses querendo publicar meus livros”, afirmação que arrancaria uma risada dos investigadores.

Os e-mails prosseguiram, um mês após o outro: estavam acertando a documentação para a entrada no Brasil, estavam escolhendo hotéis, estavam procurando por um tradutor. Haviam decidido aproveitar a viagem e passar no Peru — para quem vem da China, de fato, o Peru é logo ali. Questionaram se eu me importaria que um outro editor participasse. Eu? Claro que não. Era ainda mais estranho suspeitar que viriam da China apenas para falar comigo. Sugeri que a reunião fosse na sede da CBL, mas eles insistiram em usar o salão do hotel onde estariam hospedados. Finalmente, o tradutor contratado, o sr. Yann, me ligou, confirmando num português arrastado que estava tudo certo e pedindo que eu não me atrasasse. Esta última afirmação foi a mais estranha: será que haviam lido a coluna no PublishNews no qual contei que fiquei preso no elevador e me atrasei para as reuniões na feira de Londres?

No dia marcado, cheguei ao hotel Intercity, em Moema, cinco minutos antes do horário combinado. Viva! Com o trânsito de São Paulo, chegar um pouco antes de um encontro é sempre motivo para comemorar. Em geral, os paulistanos chegam 30 minutos antes, ou 30 minutos depois. É mais fácil pousar na Lua do que entender a dinâmica do trânsito da cidade. Estava lá também o Evandro Carvalho, professor da FGV e editor da revista China Hoje. Prazer em conhecer!

Subimos para o mezanino, onde uma placa azul anunciava o “Seminar on Overseas Distribution & Copyright of Chinese Books”. Ufa, não era sequestro! As mesas estavam organizadas em forma de U, dez editores de cada lado, no centro eu, o Evandro, o tradutor e a sra. Wu Bei, a quem eu finalmente conheci. Esperei para ver se apertavam as mãos, porque, nos encontros internacionais, nunca sabemos ao certo quem aperta e quem não aperta mãos. Apertaram. Me ofereceram água e uma cadeira. Peguei meu computador. Tudo ia bem!

Logo começaram a discutir em chinês, uns argumentando para cá, outros para lá. Eu apenas esperava para ver onde aquilo ia dar. O tradutor explicou: como alguns tinham a agenda apertada, queriam tirar fotos antes da reunião. Por mim, tudo bem! Me posicionaram debaixo da placa do encontro, e, grupo após grupo, os editores se alinharam ao meu lado e do Evandro. Dezenas de fotos foram tiradas, pelo fotógrafo oficial e pelos celulares, enquanto os editores trocavam piadas em mandariam que ninguém traduzia. Nunca me senti uma atração turística: me dividi entre o incômodo e a diversão pelo inusitado.

Finalmente nos direcionaram para nossos lugares e a reunião começou. Ninguém usava o inglês. Mandarim para cá, português para lá, falei sobre minha editora, escutei o Evandro falar sobre seus muitos projetos, e, um após o outro, cada um dos editores chineses explicou a que vinham, o que publicavam, o que buscavam nos negócios com o Brasil. Os números eram impressionantes: uma editora focada em petróleo falou em tiragens de dois milhões de livros, uma editora focada em agricultura explicou que um título sobre a história do arroz vendeu 15 milhões de cópias.

Terminava uma rodada, eu e o Evandro respondíamos, e, mandarim para cá, português para lá, iniciava-se outra na qual cada um dos dezenove editores iria tecer suas considerações. Em duas horas, todos nos entendemos. O curioso era que, em uma sala com mais de 20 falantes de mandarim e apenas dois brasileiros, muitas vezes a linguagem explodia e uns começavam a conversar com os outros, rapidamente, sem que o tradutor tivesse tempo de converter ou explicar. De repente era mandariam, mandarim, mandariam, todos gargalhavam e a reunião simplesmente seguia. O melhor momento foi quando um editor da província de Guizhou, no sudoeste da China, mencionou “Miao” na resposta, no meio de uma frase. Então, um outro editor disse Miao, e outro Miao, e todos riram repetindo a palavra. Miao, miao, miao. Risos, risos, risos. Eu com cara de besta. Semanas depois, pesquisei e descobri estavam falando de uma etnia. Na hora, me perguntei se era uma piadinha sobre gatos.

Almoçamos juntos, trocamos cartões de visitas, me despedi e desejei uma boa estada no Brasil e um bom voo de volta. Recebi de presente um chá de jasmim. A sra. Wu Bei, que havia me contatado por e-mail, meses antes, me acompanhou até a porta. Aproveitei para perguntar por que, afinal, tinham me convidado, de onde haviam me conhecido? Ela respondeu que recebeu meu cartão na London Book Fair. Lembrei que, em Londres, eu havia entrado num estande coletivo de editores chineses, distribuído cartões e partido com a certeza de que ninguém dera a mínima. Não foi o caso. Pelo visto, dei sorte e o cartão caiu nas mãos certas. É curioso como, algumas vezes, longas reuniões e diversas trocas de mensagens não dão em nada e, em outras, simplesmente deixar um cartão produz ótimos resultados.

No mercado editorial, os mercados sempre parecem de difícil acesso: os autores e agentes batem na porta das editoras, os editores procuram as livrarias, as livrarias buscam as distribuidoras, e uns estão sempre a reclamar da falta de resposta dos outros. A melhor conclusão a que posso chegar é que é preciso bater em muitas portas, em muitas e muitas portas, incansavelmente: com o tempo, algumas se abrirão.

Leonardo Garzaro é escritor, editor e jornalista. Paulista, nascido em 1983, fundou diferentes editoras independentes e editou dezenas de livros. Seu primeiro romance, o infantojuvenil O sorriso do leão, teve os direitos vendidos para editoras de seis países, com traduções para o inglês, espanhol, turco e árabe. Alguns de seus contos foram publicados na premiada revista norte-americana Literal Latin Voices. É consultor de literatura brasileira das editoras Interzona, da Argentina; Arlequin Ediciones, do México; e Corredor Sur, do Equador. Lançou em 2022 O guardião de nomes, que foi elencado como um dos melhores romances de 2022 pelo Suplemento Literário Pernambuco.

Publicidade

A Alta Novel é um selo novo que transita entre vários segmentos e busca unir diferentes gêneros com publicações que inspirem leitores de diferentes idades, mostrando um compromisso com qualidade e diversidade. Conheça nossos livros clicando aqui!

Leia também
A editora havia sido inaugurada poucos antes quando um agente me trouxe a proposta: Que tal publicar o livro do rei do TikTok?
Ao saber que 20 artistas se reúnem para desenhar uma livraria, em um sábado pela manhã, sinto uma enorme esperança
O editor argentino Luciano Paez Souza se diz um afortunado por ter nascido não em um berço de ouro, mas sim em um berço de livros; ao conhecer a sua história, é difícil discordar
Segundo a ANL, o Brasil tem 2.972 livrarias, 1.167 em São Paulo. Esta é a história de uma delas
Seria difícil explicar para meu amigo Sherif Bakr, que veio do Egito para o Rio, com escala em Doha, que eu não conseguiria ir até o Rio
Publicidade

Mais de 13 mil pessoas recebem todos os dias a newsletter do PublishNews em suas caixas postais. Desta forma, elas estão sempre atualizadas com as últimas notícias do mercado editorial. Disparamos o informativo sempre antes do meio-dia e, graças ao nosso trabalho de edição e curadoria, você não precisa mais do que 10 minutos para ficar por dentro das novidades. E o melhor: É gratuito! Não perca tempo, clique aqui e assine agora mesmo a newsletter do PublishNews.

Outras colunas
Editoras dos selos Verus e Harlequin conversaram sobre as mudanças nas editoras, as características dos gêneros literários, sobre a negociação com os autores e autoras e outros assuntos
Todas as sextas-feiras você confere uma tira dos passarinhos Hector e Afonso
Tivemos o prazer de ler um livro carnavalizado e carnavalizando! E há quem diga que a literatura nacional naufragou...
Seção publieditorial do PublishNews traz lançamentos da Editora Vista Chinesa, Uiclap e um livro independente
Escrito por Marina Hadlich, 'Até essa comédia se tornar romântica' é uma história divertida e com uma personagem que ultrapassa as páginas e conversa diretamente com o leitor
A literatura é um capítulo da cultura, este é o seu significado. Tratá-la como um significante referido a uma estrutura, de qualquer tipo, leva um beco sem saída.
Joel Rufino
Historiador e escritor brasileiro (1941-2015)
Publicidade

Você está buscando um emprego no mercado editorial? O PublishNews oferece um banco de vagas abertas em diversas empresas da cadeia do livro. E se você quiser anunciar uma vaga em sua empresa, entre em contato.

Procurar

Precisando de um capista, de um diagramador ou de uma gráfica? Ou de um conversor de e-books? Seja o que for, você poderá encontrar no nosso Guia de Fornecedores. E para anunciar sua empresa, entre em contato.

Procurar

O PublishNews nasceu como uma newsletter. E esta continua sendo nossa principal ferramenta de comunicação. Quer receber diariamente todas as notícias do mundo do livro resumidas em um parágrafo?

Assinar