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O bule de ouro
PublishNews, Leonardo Garzaro, 29/05/2023
Em sua coluna, Leo Garzaro fala da sua primeira experiência na Feira do Livro de Abu Dhabi

Foi em Londres que eu contei para o Carlo Carrenho que também estaria na feira do livro de Abu Dhabi. Estávamos no estande do Brasil, entre uma reunião e outra, eu em busca de editoras interessadas em literatura brasileira, Carlo pronto para mais uma reunião sobre plataformas, audiobooks e catálogos com milhares de títulos sendo transmitidos de um país para o outro. Ele confirmou que também estaria por lá, e se interessou em saber quem havia me convidado. Expliquei meu contato com o pessoal do Arabic Language Center, e contei que viajaria de classe executiva pela primeira vez na vida, surpreso com o convite incluir discretamente essa informação. Carlo então comentou que eu conheceria o famoso bule de ouro.

É claro que eu não sabia do que ele estava falando. Aliás, em geral, quando converso com o Carlo Carrenho, não faço a menor ideia do que ele está falando. Nosso primeiro encontro foi na feira de Frankfurt. Eu perguntei para ele o que estava achando da feira, o que equivale a “oi, sumida” ou “você vem sempre aqui?” entre editores. Depois, disse que a tendência para o próximo ano editorial pareciam ser livros de bruxas, uma espécie de true-crime com Ronald Hutton, pelo que tinha visto nos estandes da Penguin e da Hachette. Carlo então comentou que a tendência editorial é indiferente para ele: o Brasil é um enorme consumidor de podcasts, mas muito tímido em audiobooks. A Suécia, onde vive, havia feito o mesmo caminho, e audiobooks se tornaram um fenômeno por lá. Enquanto isso, e-books estão estagnados. Ele estava na feira dando consultorias, conectando produtores de conteúdo e editoras às plataformas. Me senti besta, falando de bruxas e fadas enquanto Carlo me respondia com informações de transmissão de dados ou checadores de qualidade de produtos digitais. Foi assim nosso primeiro encontro, que deu a tônica de todos os outros.

O bule de ouro, pelo que o Carlo me explicou, é um diferencial da business class da Emirates Airlines. Segundo ele, uma vez no ar, o comissário de bordo abre um cofre e de lá retira o tesouro. Então, serve aos passageiros o café, passado na hora, usando o tal bule dourado. Empolgado com a viagem que se aproximava, contei para toda a família sobre isso. Pediram para que eu tirasse fotos. Contei também que o convite incluía um motorista, o que os parentes adoraram, pois foram poupados do famoso “me leva até o aeroporto?”. O que eu não disse é que pretendia, uma vez que não precisaria de carona, me desobrigar do “traz uma lembrancinha de Dubai!”. Não ter que comprar imãs de geladeira e miniaturas da mesquita pareciam uma boa.

Não foram esses apenas os preparativos da viagem. Antes de uma feira do livro, centenas de editores trocam mensagens para agendar reuniões, interessados em saber quem estará por lá. Há um grande grupo do qual a Rua do Sabão participa, o Publishers Without Borders, no qual as reuniões (e festas!) são combinadas com um mês de antecedência. Foi por lá que eu soube que meus amigos e editores egípcios, Ranya e Sherif Bakr, estariam na feira, o que seria uma oportunidade de fechar alguns negócios. Também agendei uma reunião com a Silvia Vassena, agente de Milão. E me antecipei e avisei todos os editores conhecidos do Oriente Médio que eu estava a caminho: seria uma oportunidade para encontrar pela primeira vez o Hatem Alshehri, da Arábia Saudita, e o Sturt Debar, editor independente britânico, ambos interessados em construir um catálogo de literatura brasileira. Uma feira do livro começa muito antes do dia em que os portões se abrem.

Cheguei na feira do livro com um dia de antecedência, o que foi ótimo para me adaptar ao fuso e ainda conhecer alguns pontos turísticos. Conheci o Louvre de Abu Dhabi e a grande Mesquita (que tem um shopping em baixo — é genial!). Encontrei o Carlo Carrenho e tentamos uma viagem rápida até Omã, apenas para conhecer a capital, mas não daria tempo. Havia um concierge, atencioso e solicito, o Hassem, que ficou encantado ao descobrir que havíamos nascido no mesmo dia. O curioso é que ele era apaixonado por horóscopo, e toda hora queria puxar assunto para falar que éramos taurinos e dos nossos ascendentes. Me senti em casa: equivalia a conversar com minhas tias no Brasil! Aliás, independente da conversa astrológica, ocasionalmente me questionam porque faço tantos negócios em Sharjah e Abu Dhabi: uma importante razão é que, enquanto em Londres e Frankfurt é preciso sempre explicar tudo para a imigração, encontrar hotel, se localizar na feira, tudo por conta própria, no Oriente Médio a recepção é impecável. É um ambiente negocial muito melhor.

A feira, claro, estava linda. Múltiplas entradas, uma enorme área de circulação. Apresentações culturais nos corredores, com danças típicas. Muitos expositores, praticamente nenhum espaço desocupado. Palestras em três áreas, simultaneamente, porém sem que o som de um lugar atrapalhasse o do outro. Uma grande área para a imprensa e outra para os editores, com almoço, para que não fosse preciso sair da feira em busca de uma refeição. Uma centena de pessoas trabalhando na organização. Cumpri com tranquilidade o cronograma de reuniões, encontrei todos os editores com quem havia combinado, abri novas portas para a venda de direitos de autores brasileiros na Alemanha, Irã, China e Emirados Árabes. Consegui oficializar um apoio comercial à edição de literatura árabe no Brasil. Voltei para casa satisfeito.

E o bule de ouro? Quando cheguei, foi a primeira coisa que a família perguntou, logo após receberem os chaveirinhos, imãs de geladeiras e outros cacarecos (não tem jeito...). Pois é, nem sinal. Devem ter desativado a mordomia. No longo voo de volta, com quinze horas de duração, pensava justamente nisso: quem vê de fora os editores envolvidos no projeto do Brazilian Publishers, viajando para lá e para cá, fazendo reuniões em múltiplos idiomas, pode ter a impressão de que estamos em um conto das arábias, em um “negócio da China”, bebendo café em um bule de ouro. Não, isso não existe. Porém, aqui e ali, de feira em feira, vamos construindo relacionamentos e nossos projetos editoriais. Sem mágica.

Leonardo Garzaro é escritor, editor e jornalista. Paulista, nascido em 1983, fundou diferentes editoras independentes e editou dezenas de livros. Seu primeiro romance, o infantojuvenil O sorriso do leão, teve os direitos vendidos para editoras de seis países, com traduções para o inglês, espanhol, turco e árabe. Alguns de seus contos foram publicados na premiada revista norte-americana Literal Latin Voices. É consultor de literatura brasileira das editoras Interzona, da Argentina; Arlequin Ediciones, do México; e Corredor Sur, do Equador. Lançou em 2022 O guardião de nomes, que foi elencado como um dos melhores romances de 2022 pelo Suplemento Literário Pernambuco.

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