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A sorte dos rejeitados
PublishNews, Leonardo Garzaro, 27/03/2024
Aos autores consagrados, só posso dizer: desistam. Uma vez publicado, um livro não mais pertence ao autor

Em 1917, pouco após completar a Escola Normal, Cecília Meireles lançou sua primeira obra, Espectros. Influenciada pelos parnasianos, a poeta passou por temas como mitologia e religião, dando voz a personagens históricos. Sansão e Dalila, Cleópatra e Maria Antonieta estão retratados em seus sonetos. Acredita-se que a edição tenha sido financiada pela própria autora, então com 17 anos. O livro ia na contramão do que era publicado na época, e, principalmente, do Modernismo, que despontava na Europa e que em breve ganharia corpo no Brasil. Nos ciclos artísticos, já se discutiam as ideias que tomariam forma na Semana da Arte Moderna de 1922.

Apesar da crítica literária ter afirmado à época que o livro prenunciava um belo futuro para a autora, enquanto viveu, Cecília Meireles fez o que pode para que a obra desaparecesse. Jamais a reeditou. Excluiu-a de sua antologia poética. A família, inclusive, jamais havia visto um exemplar. Suspeitava-se que ele não existia. A única prova concreta de sua materialidade era uma resenha publicada no jornal O Imparcial, assinada pelo crítico literário João Ribeiro. Brincava-se que Espectros era o título ideal para uma obra desaparecida. Na década de 1970, um dos escritores da geração de 1945 localizou o livro na biblioteca Mário de Andrade, copiou à mão o nome dos poemas e foi para casa. No dia seguinte, voltou à biblioteca para copiar o restante. Não conseguiu: o livro havia desaparecido. Nunca se soube se aquele exemplar foi roubado ou perdido. Cumprindo o desejo póstumo de Cecília Meireles, na virada para o século XX, o livro permanecia um mistério.

Contudo, quais páginas têm o privilégio de desaparecer? Se os Manuscritos do Mar Morto foram localizados 1500 anos após a sua redação, como poderia um livro do século XX, e do qual foram produzidas pelo menos duzentas cópias, simplesmente desaparecer? Em 2001, preparando a edição comemorativa do centenário da autora para a Nova Fronteira, o bibliófilo Antonio Carlos Secchin localizou o exemplar. Para encontrá-lo, contatou por meses e meses os muitos livreiros que conhecia, perguntando sobre a obra, escutando uma invariável negativa como resposta. De súbito, um assombro. Um deles localizou o livro. Encantada, a família da autora concordou com a reedição da obra. Para a infelicidade da poeta, a edição que celebra seu centenário começa justamente com os Espectros.

O esforço de Cecília Meireles não é um caso isolado. Certa vez, o mesmo Antonio Carlos Secchin visitava um interessado em vender a biblioteca do falecido pai. Tratava-se de um apartamento forrado de livros: os herdeiros queriam se livrar da coleção para liberar o imóvel. Talvez não tivessem notado que os livros valiam mais do que o apartamento. Em uma pilha, jogada no chão, estava um caderno de ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade. Oficialmente, a estreia literária de Drummond é em 1930, com a publicação de Alguma poesia. Ali estava um original datilografado em 1926 pelo próprio Drummond! O poeta de Itabira o entregou para um amigo, que não gostou do conteúdo. Desgostoso, Drummond o recuperou, fez anotações na margem, e até a sua morte não o publicou. Quando o livro foi descoberto, a editora Cosac Naify fez uma linda edição da obra, na qual é possível desdobrar a página e encontrar os comentários à mão do autor. O poeta publicado comentando o poeta inédito. O poeta consagrado comentando o jovem poeta. Um tesouro perdido e encontrado.

Jorge Luis Borges também tentou rearranjar sua antologia. Na década de 1920, o argentino publicou três obras ligadas às vanguardas europeias. Contudo, após se consagrar, aqueles livros não cabiam na imagem etérea que Borges pretendia para si. Assim, o autor proibiu sua reedição. Negava que existissem. Conta-se que Borges estava em Estocolmo quando um jovem estudante se aproximou e mencionou o Fervor de Buenos Aires. Borges retrucou que jamais havia escrito aquele livro. O outro se confundia. O estudante não se deu por vencido. Retornou no dia seguinte e disse que a biblioteca da universidade continha um exemplar do livro, e que, sim, Borges o havia escrito. Restou ao autor se lamentar com a Kodama, que o acompanhava: Maria, estamos perdidos! Fui descoberto!

Neste ano, chegaram ao mercado editorial brasileiro dois títulos cujos autores tentaram manter fora dos olhos do público. Em agosto nos vemos, de Gabriel Garcia Marquez, estava no arquivo pessoal do ganhador do Nobel de Literatura de 1982. Antes de morrer, o escritor colombiano afirmou aos filhos que o livro não funcionava e deveria ser destruído. No prefácio, Rodrigo e Gonzalo García confessam a traição, justificando-a em nome da literatura. Os filhos da coruja, de Graciliano Ramos, também ganha uma nova edição. O Velho Graça deixou claro que não permitia a publicação de sua poesia. A família respeitou seu desejo, porém, com a entrada de seus livros em domínio público, a edição está liberada. E o Mickey que se cuide!

Os autores são sempre tentados a reescrever a própria antologia. Contudo, a natureza primeira de um livro é ser preservado. É transmitir conhecimento. É esta a base da cultura escrita. Falamos de cinco mil anos de tradição! Portanto, aos autores consagrados, só posso dizer: desistam. Uma vez publicado, um livro não mais pertence ao autor. Os jovens escritores, inéditos, recusados por editoras, podem ter esperança. Se tiverem sorte, não serão publicados antes do terceiro ou quarto romance. Assim, serão poupados do esforço inútil de eliminar suas primeiras letras.

Leonardo Garzaro é escritor, editor e jornalista. Paulista, nascido em 1983, fundou diferentes editoras independentes e editou dezenas de livros. Seu primeiro romance, o infantojuvenil O sorriso do leão, teve os direitos vendidos para editoras de seis países, com traduções para o inglês, espanhol, turco e árabe. Alguns de seus contos foram publicados na premiada revista norte-americana Literal Latin Voices. É consultor de literatura brasileira das editoras Interzona, da Argentina; Arlequin Ediciones, do México; e Corredor Sur, do Equador. Lançou em 2022 O guardião de nomes, que foi elencado como um dos melhores romances de 2022 pelo Suplemento Literário Pernambuco.

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