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A moça da limpeza na plateia da Flip
PublishNews, Henrique Rodrigues, 30/11/2022
Em sua coluna, Henrique Rodrigues avalia a 20ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty

E lá se foi esse acontecimento que já recebeu as mais diferentes alcunhas, sendo que micareta literária é a de que mais gosto. Para quem não se lembra, o formato inaugurou um novo modo de realização de eventos ligados ao livro e leitura, dando aos artistas da palavra um lugar de destaque num ambiente mais informal e, como o nome diz, festivo. O interessante é que, mesmo tendo gerado dezenas (centenas?) de outros eventos começados com FLI, os formatos tradicionais como as bienais de livro continuam firmes e fortes, o que é bom no todo. Quanto mais literatura, melhor.

Por outro lado, faltam no país programas de leitura com atividades mais sistemáticas, voltadas para o dia a dia: clubes de leitura, visitas de autores a escolas, agentes de leitura promovendo pequenos saraus nos mais diferentes lugares, estímulo à construção e manutenção de bibliotecas públicas... Enfim, todo aquele feijão com arroz de que precisamos para a sobrevivência saudável de um sistema literário. Esses formatos existem, mas apenas como projetos pontuais e não como ações de escala resultado de políticas públicas. As festas são legais, mas e entre elas? Aguardemos o novo governo, esperançosamente.

Pelo que constatei junto a conhecidos, sou dos poucos que foram a todas as edições presenciais da Flip. Talvez por ser a primeira presencial depois de dois anos, pairava um sentimento feliz de reencontros. Algumas pessoas eu não via há mais de uma década, e o “se lembra quando...” foi quase sempre indicativo de risadas autoirônicas dos que já se encontram na categoria dos seminovos.

Não posso falar de reencontros sem mencionar o Delfin, designer dos mais respeitados no país e amigo querido daqueles que, ao longo de anos, só encontrava na Flip. Nessas ocasiões, com toda a naturalidade, continuávamos o papo que havia sido interrompido há um ano. Dessa vez, ele trouxe até uma história da qual havia me esquecido. Fui o primeiro comprador das Edições K, livros independentes que Delfin sua trupe vendia na Praça da Matriz. Empolgado, desandei a divulgar as obras a todos os passantes, sendo friamente ignorado por um casal. “Hoje não!”, respondeu Ciro Gomes, acompanhado de Patrícia Pilar. (Na época, essas celebridades adoravam passear na Flip divando – quem não se lembra do Gugu Literato?). Vendo o quadro político de hoje com o cearense fora do jogo, creio que Deus estava olhando aquela recusa de Ciro aos jovens escribas.

Numa pousada em que fiquei, havia de um lado aqueles quadros chiques de madames e princesas. Ao lado, um painel na parede em que uma mulher negra carregava um cesto na cabeça. O abajur era de um homem negro carregando umas gaiolas e arapucas. Haverá uma reclamação oficial ao estabelecimento. Até quando esse ranço da escravidão via babação imperial vai permanecer na cidade que abriga uma festa literária pautada pelo discurso da liberdade? O importante dos debates é que o conteúdo seja aplicável nas nossas vidas, não?

Nessa esteira, não posso me esquecer da Sara (cujo nome real fica resguardado), que fazia limpeza no nosso espaço do Sesc durante a mesa do Itamar Vieira Jr. com o Marcelo Labes. Enquanto ela se esticava para tentar assistir, nossa colega, a dedicada bibliotecária Adriana Dutra correu e comprou um exemplar de Torto arado. Conduzida até o camarim, recebeu autógrafo, abraço e carinho do seu autor preferido. Depois nos disse, às lágrimas, que tinha sido moradora de rua e terminava os estudos só agora. Que tenhamos mais ídolos como Itamar, e que todas as moças da limpeza tenham direito a ser plateia (e quiçá palestrantes) na Flip e na vida.

Aliás, enquanto falei sobre Machado de Assis e sua afrodescendência na Casa Malê, conversei com os professores presentes sobre um crime silencioso que vem acontecendo: as salas de leitura das escolas públicas de vários lugares do país estão desaparecendo. Se antes eram considerados lugar de castigo ou para jogar os professores que estavam mais esgotados, esses espaços fundamentais agora estão se tornando apenas um depósito ou reles corredorzinho com estantes. Como vamos ter um “país de leitores” se o primeiro espaço a que crianças pobres têm acesso a livros (como foi o meu caso) estão deixando de existir?

Por falar em Malê, que beleza a editora receber dois Jabutis, hein? Assistia pelo celular à cerimônia de entrega para Eliana Alves Cruz e Marcelo Moutinho, ambos muito merecidos. Não pude deixar de me lembrar da primeira edição, enquanto bebíamos no Coupê, então apenas um boteco na Praça da Matriz, antes de a gourmetização chegar. Marcelo e eu perguntávamos se, no futuro, teríamos algum espaço naquela festa. Acompanhei os 20 anos de amadurecimento desse grande escritor, de maneira que a estatuazinha não é causa, mas consequência.

Uma surpresa boa foi ver o querido Rafael Gallo, revelado pelo Prêmio Sesc, vencendo o José Saramago. Como já faríamos uma mesa sobre o centenário do português, incluímos ele na atividade, que somou pacas à também vencedora Andrea Del Fuego e Ricardo Viel, da Fundação José Saramago. Foi um grande momento, mesmo porque o Ensaio sobre a cegueira foi o livro que mais me chacoalhou até hoje.

Nesses retornos com clima de esperança e recomeço, achei muito bom editoras como a Record voltarem a ter um espaço. O interessante da Flip é a sua diversidade em vários aspectos, e ver desde as editoras pequenas, médias e grandes lá é justo e democrático.

Em coquetéis, vernissages e convescotes da Flip todo mundo tem nome e sobrenome, seguido da área de atuação. Na hora das apresentações: Fulano de Tal — escritor, Beltrana de Tal — Poeta, Cicrana de Tal — editora. Parece um filme do Woody Allen. Mas a verdade é que a maioria não decora o nome de ninguém, e em outro encontro passa por aquele constrangimento na hora de apresentar a outra pessoa: “Esse aqui é o... hmm, ahh, enfim...”.

Preciso dizer: vários jornalistas reclamaram porque tiveram de cobrir Annie Ernaux na hora do jogo do Brasil, momento no qual pensavam que teriam um refresco. Se um dia tivermos um/a Nobel brasileiro/a e for convidado/a a participar de um evento noutro país, vamos atropelar abruptamente algo tão importante para a cultura local?

É por essas e outras que, para mim, o grande nome desta Flip foi a pernambucana Cida Pedrosa, cuja candidatura à presidência daqui a uns anos inventei e começo a espalhar, como faço aqui. E Marcelino Freire para ministro da Cultura. Aliás, o que mais me emocionou no evento foi ver as Mulheres de Repente fazendo aquela linda mesa de glosa no Sesc, direto do Sertão do Pajeú para o fundo dos nossos corações. Encerro como dizem os pernambucanos no início de cada frase: pronto!

Henrique Rodrigues nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, em 1975. É curador de programações literárias e consultor para projetos e programas de formação de leitores. Formou-se em Letras pela Uerj, cursou especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ, coordenador pedagógico do programa Oi Kabum! e gestor de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 24 livros, entre poesia, infantis, juvenis. www.henriquerodrigues.net

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

Tags: Flip 2022
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