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O escritor (ainda) almoça
PublishNews, Henrique Rodrigues, 14/06/2022
Em sua coluna, Henrique Rodrigues questiona a prática de artistas serem convidados a trabalhar de graça

Que estamos vivendo uma das maiores crises no setor cultural não é novidade. Que vivemos sob censura sobre livros praticada por governantes e até pais pouco afeitos à leitura já é fato conhecido. Que a pandemia, mesmo trazendo bons números para a venda de livros no geral, não se reverteu em dinheiro na mão dos muitos escritores também já sabemos. Mas então por que diabos ainda me surpreendo quando artistas são convidados para realizar o seu ofício sem receber nada em troca?

Fiz essa pergunta ao me deparar com o Edital para “Lançamentos de Livros e Sessões de Autógrafos” da Feira do Livro de Brasília (FeLiB), divulgado outro dia aqui mesmo no PublishNews e já com prazo encerrado para inscrições. O que de início me pareceu uma convocatória para ocupação de espaços por autores que quisessem autografar seus livros ficou complicado quando cheguei nos pormenores. Consta que a seleção “não prevê o custeio de cachês, deslocamento, estadia e alimentação de escritores(as), quadrinistas, cordelistas e ilustradores(as)”. Ou seja, a Feira estaria apenas cedendo um espaço, de forma organizada, para que autores ocupassem dois espaços lançando seus livros.

Logo abaixo há uma cláusula segundo a qual cada contemplado precisa levar um banner, com um tamanho especificado. Material de divulgação geralmente é produzido pelo evento, mas vamos lá. Os escribas, ainda mais os que se autopublicam, geralmente fazem um bannerzinho para o lançamento, então vai que era de 0,80 por 1 metro e já serviria?

Mas o que me encafifou mesmo foi outro item: “O autor(a) selecionado(a) deverá, como contrapartida, convidar um(a) mediador(a) para lhe acompanhar durante a sessão. Ele terá a função de lhe apresentar, fazer perguntas, controlar o tempo e, eventualmente, receber as perguntas do público”. Posso estar enganado, mas creio que isso já se configure um bate-papo, encontro com autor ou quaisquer outros nomes que designam esse formato de atividade. Ou seja, trata-se de uma prestação de serviço cultural que, constituindo a programação do evento, deve(ria) ser remunerada.

E o termo “contrapartida” está bem equivocado ali. Contrapartida de quê? Ter recebido um espaço para trabalhar sem receber num evento realizado com verbas públicas? Mas vamos lá.

Aos escritores selecionados também caberá, além de levar material de divulgação e um mediador, ter consigo “um colaborador para o Espaço do Autor que possa se responsabilizar pelo transporte e venda do livro que será lançado/autografado durante o seu horário”. Desejo sorte aos 130 selecionados para, de repente, conseguirem um profissional que possa, ao mesmo tempo, ser mediador e vendedor de livros – e, assim, não precisarem contratar ou levar dois ajudantes que também topem trabalhar de graça.

Não quero ser injusto aqui com a Feira de Brasília. Há uns anos participei do evento (a memória falha mas me parece que teve cachê), numa mesa com outros escritores. Neste ano, foi feita a FeLiB Itinerante, em que diversos escritores participaram de atividades em escolas públicas, com direito à aquisição de livros. Tal formato, vale dizer, é tão eficaz em tantos aspectos que deveria fazer parte de uma política pública de estímulo à leitura, independentemente dos eventos. A participação de escritores, ilustradores, contadores de histórias e demais artistas da palavra soma muito no processo de letramento literário da galera.

Um dos autores que participou dessa primeira etapa, mas também estranhou o edital de lançamentos/debates, foi Tino Freitas, aguerrido combatente da leitura no Planalto Central. Para ele, esse formato “deixa de perceber o escritor como um agente cultural, um dos pilares desse tipo de evento”. Isso porque, em vez de ser feita uma curadoria de programação compondo uma grade coesa e variada dentro de uma programação, essa forma acaba por desvalorizar o escritor. “Ele não conta com o apoio do evento na verdade, mas apenas empresta seu nome, investimento e tempo para criar conteúdo num evento para o qual deveria ser a grande estrela”, afirma Tino.

A ideia de o escritor se contentar com o velho “espaço para divulgação” é antiga e vem sendo muito questionada, especialmente por artistas que já têm mais tempo de estrada. Há alguns anos escrevi aqui sobre o assunto, e pouco mudou. Na verdade, como tudo no setor cultural, parece ter degringolado mais ainda.

Por coincidência, durante a escrita desta coluna recebi convite para uma festa literária em outra cidade, o qual recusei. A frase “não há remuneração para autores” parecia normal quanto o fato de aceitarmos tranquilamente os cachês de centenas de milhares de reais que cantores vêm recebendo das prefeituras país adentro. Enquanto a gente continuar achando que está tudo bem em trabalhar de graça, a desvalorização moral e financeira dos profissionais da literatura não vai diminuir tão cedo.

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa Oi Kabum!. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 20 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance O próximo da fila (Record), publicado também na França. Site do autor: www.henriquerodrigues.net

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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