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Está chegando a hora de retomar os eventos literários presenciais? Ainda não.
PublishNews, Henrique Rodrigues, 18/08/2021
Em sua coluna, Henrique Rodrigues analisa as notícias de reaberturas de festivais e feiras durante a pandemia e conclui: 'considero entre prematuro e arriscado'

Depois de a Festa Literária de Paraty (Flip) desistir de um formato “híbrido” e anunciar sua edição novamente on-line para fins de novembro, agora a Bienal do Livro do Rio divulga que irá retornar com atividades presenciais para o início de dezembro. Parece que o pessoal está olhando mais para os números do Excel do que o de mortos e contaminados pela covid-19.

Por esses dias, foi revelado pelo governo do Rio de Janeiro que a cidade é o epicentro da variante Delta, que é muitas vezes mais transmissível que a cepa original. O prefeito já voltou atrás naquele informe sobre a liberação de espaços, em que criaria inclusive um feriado no dia 2 de setembro, algo como o "dia da retomada". Enquanto a vacinação avança, os números de contaminados vêm aumentando na cidade. “Isso é basicamente fruto da variante Delta. E me leva a reafirmar algo que eu pessoalmente talvez tenha comunicado mal”, disse Eduardo Paes. Bom senso, alcaide, obrigado!

Depois de muito tempo trabalhando de casa, retornamos ao presencial mês passado. Ainda não podemos nos aproximar uns dos outros, as reuniões presenciais se dão on-line (sim, como quem fala ao telefone com alguém que está a poucos metros, no seu campo de visão), tudo ainda em transição e meio esquisito, mas a ideia de proteção da saúde é o principal. Estamos no meio da pandemia ainda.

Nos projetos que coordenamos nacionalmente, não é possível desconsiderar o cenário, tampouco fazer projeções otimistas para atividades daqui a alguns meses. Lembremo-nos de como foi no ano passado, quando nos últimos meses parecia que a pandemia iria arrefecer e o que veio foi algo bem pior. Por isso, adaptamos para o ambiente on-line todas as atividades presenciais de circulação de escritores e artistas em geral.

Os vencedores do Prêmio Sesc de Literatura, que circulam por mais de 20 cidades ao longo do ano, estão fazendo encontros pela internet com clubes de leitura, cujos componentes receberam cerca de mil exemplares dos seus livros. O Arte da Palavra – Rede Sesc de Leituras, único (infelizmente) circuito literário nacional, teve suas centenas de atividades, envolvendo encontros com autores, apresentações de poetas e contadores de histórias, além de oficinas, transferidas também para as telas. E todos recebendo devidamente seus cachês. Já os maiores festivais promovidos pelo Sesc, por conta do pressuposto óbvio da aglomeração, foram cancelados neste ano.

A realização de lives em vez de ações presenciais não é o ideal, porque há muita perda nesse processo. Em várias localidades, o acesso à internet ainda é precário, e justamente são comunidades que precisam não só receber, mas também mostrar as suas vozes literárias. Existe também o problema da falta de foco típica do mundo da internet e das redes sociais, que parece requerer uma postura superficial e vertiginosa das pessoas, preconizando mais visualizações e clicadas do que o aprofundamento dos debates. Por outro lado, o alcance de público pode ser maior e melhor se for feito um trabalho prévio com professores, bibliotecários e outros mediadores de leitura devidamente orientados. Em suma, entre o ideal e o possível, vamos na segunda opção.

A gente sabe que a literatura é uma arte profundamente solitária, e os eventos são uma grande chance de encontro entre público, artistas e profissionais da área. Como escritor, sinto uma tremenda falta de ter aquele contato olho no olho com todo esse pessoal. E sabemos que a área da Cultura é a primeira a fechar e a última a reabrir, dado que, estupidamente, não é considerada uma atividade fundamental na nossa sociedade. Nem quero mencionar como o nosso segmento é tratado pelo governo federal, pois vocês sabem e dá nervoso só de pensar.

Fiz esse longo nariz de cera (mais para Pinóquio depois da mentirinha) para trazer uma reflexão que me veio à cuca quando li essas notícias sobre Bienal e Flip. São dois dos principais eventos de livro e leitura no país. Como sou frequentador assíduo de ambos nesses anos, seja atrás do balcão ou do lado de fora, considero entre prematuro e arriscado anunciar qualquer programação que envolva aglomeração de pessoas quando temos um cenário incerto. Vale lembrar que esses projetos grandes têm uma longa e trabalhosa etapa de pré-produção em si e com as empresas parceiras, fornecedores etc.

A Casa Azul, além de enfim ter atentado para o modelo de curadoria coletiva, que é o melhor formato para garantir a pluralidade da seleção de nomes (escrevi isso em outra coluna), acerta em não ceder ao modelo presencial. Não consigo nem imaginar ao certo o que seja uma Flip híbrida. As pessoas migram para Paraty em peso durante aqueles dias de realização, o que é o grande barato daquela festa. Como limitar a entrada de pessoas na cidade e nos espaços? Quem está de fora olha no telão? Como controlar o lindo fuzuê que se cria nas ruas estreitas da cidade, especialmente à noite? Como evitar o abraço do reencontro de profissionais que só se veem nessas ocasiões, restritos agora aos soquinhos ou àquelas constrangedoras cotoveladas à meia distância?

No caso da Bienal do Livro, ainda que tenha prometido várias medidas para conter o distanciamento do público, não me parece algo que venha a dar certo. Considerando que a última edição em 2019 recebeu mais de 600 mil pessoas, sendo mais da metade formada por jovens, e batendo com o calendário de vacinação da cidade, a conclusão é que, no melhor cenário, a galerinha tenha recebido apenas uma primeira dose de vacina. Segundo a notícia, iriam restringir o público à metade, exigindo comprovante de vacinação e afastando as pessoas nos pavilhões do Riocentro. Seria então o caso de distanciar 300 mil pessoas? Eu me lembro logo da visão frequente que se tem da sala dos autores: um oceano de jovens correndo de um lado para o outro para ter contato com seus autores preferidos. É algo bem difícil de evitar quando falamos de dezenas de milhares de pessoas com o mesmo objetivo.

Sinceramente, não me vejo na Bienal assim, tampouco permitiria que meus filhos fossem lá, mesmo eu tendo tomado as duas doses da vacina e eles uma. Nesse contexto, não deve contar o nosso caso individual, mas o coletivo. E olhando o todo, creio que não estamos preparados, e o que poderia acontecer nesse caso seria chegarmos às festas de fim de ano com uma curva ascendente de contaminados, seja de participantes, seja das equipes envolvidas. Com todo o prejuízo que decorra disso, deveríamos considerar o ano de 2021 voltado para erradicar a pandemia.

Confesso que gostaria muito de estar errado, de reler este artigo daqui a uns meses e ver que exagerei, que é o meu medo da doença como diabético que sou, ou que de fato a vacinação tenha feito a curva de mortos e contaminados descer ladeira abaixo quase em noventa graus. Mas por ora, vendo tantas pessoas famosas ou não famosas ainda morrendo de covid, penso que a prudência é mais válida para garantir a saúde de todos. Enquanto isso, vamos lendo em casa, papeando on-line e evitando aglomerações. É o que dá para fazer, pois acontecimentos culturais precisam ser contagiantes apenas no sentido figurado. Talvez seja hora de guardar recursos e energias para uma retomada segura em 2022, com todos os encontros e abraços – e sorrisos visíveis novamente, sem máscaras. E, quando voltarmos, que os eventos mencionados incluam no Excel o pagamento de cachê aos autores, só para não esquecer.

[Nota do editor: nesta mesma edição, o PN traz um artigo escrito por Rogério Robalinho, coordenador da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, que faz o contraponto às teses de Henrique Rodrigues. Clique aqui para lê-lo]

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa Oi Kabum!. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 23 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance O próximo da fila (Record), publicado também na França. Site do autor: www.henriquerodrigues.net

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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