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A liberdade literária contra a ditadura da seriedade
PublishNews, Henrique Rodrigues, 15/04/2019
Em sua coluna, Henrique Rodrigues alerta para o perigo da censura na produção literária recente

Há poucos anos, quando muitas editoras dependiam de editais do governo para sobreviver, começou a surgir um questionamento dentre autores, especialmente na literatura infantojuvenil, sobre o conteúdo desejado para os livros. O que inicialmente se referia a formatos e tamanhos passou a se dar também no texto, uma vez que tal palavra poderia comprometer a inscrição e eliminar a obra. Ou o autor alterava o conteúdo, ou o livro poderia nem ser publicado, visto que mirava unicamente na venda em escala.

Mais recentemente, algumas situações em relação aos textos passaram a ganhar espaço na mídia, especialmente naqueles lidos em escolas. O escritor José Mauro Brant teve 98 mil exemplares do seu livro Enquanto o sono não vem, adotado pelo PNLD, recolhidos a partir de reclamação de alguns pais e professores. O livro, composto por contos da tradição oral brasileira, traz um em que o rei pretende se casar com a filha, que se nega e por isso é isolada numa torre. “O Brasil vive uma crise de inteligência”, disse o autor ao El País. Brant, ator e contador de histórias bastante reconhecido na área, é um profissional com décadas de estrada.

Em pouco tempo, outros livros de autores também conhecidos caíram na mesma peneira. Um de Leo Cunha foi atacado em Atibaia, município paulista, porque contém dois ou três palavrões. Ricardo Azevedo teve uma obra vetada numa escola porque uma orientadora acreditou que termos como “burraldo” e “paspalhão” poderiam ser aprendidos pelos alunos e usados em bullying. Kiusam de Oliveira quase teve um texto proibido numa escola porque ele conta a história de princesas africanas – inclusive descumprindo a Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da cultura e história africana e afro-brasileira. Já Ana Maria Machado, vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen, um tipo de Nobel da literatura infantojuvenil, foi acusada de fazer apologia ao suicídio porque num dos seus livros o personagem engasga com um pedaço de maçã como forma de entrar no mundo da imaginação.

O que todos esses casos têm em comum é a origem da censura, provocada por um pensamento restrito e, ao que parece, pouca ou nenhuma familiaridade com quaisquer práticas leitoras de alguns pais, professores e outras pessoas, cuja opinião encontra eco no governo ou em escolas e instituições. Ou seja, indivíduos que não conseguem estabelecer uma relação mínima com o universo simbólico da palavra escrita determinam o que pode e o que não pode fazer parte da formação cultural de várias outras pessoas. O argumento é, muitas vezes, escorado por orientações de igrejas neopentecostais, cujos representantes também ocupam atualmente cargos políticos.

Há algumas semanas, fiquei estarrecido ao descobrir que um professor da rede pública do Rio de Janeiro foi afastado pela Secretaria de Educação porque usou uma charge em sala de aula, para ensinar sobre ironia. A charge mostrava Bolsonaro e Trump abraçados. Em vários momentos da história o humor e a política entraram em choque, com diferentes tipos de manifestações. A política, bem como a religião, representa o poder manifesto da seriedade, que é o grande objeto do riso - aliás, o oposto do riso é o sério, não a tristeza, mesmo porque, como disse o Millôr Fernandes, entre o riso e o choro só existe o nariz.

Trabalhei na Secretaria de Educação como superintendente pedagógico em 2009. Foi por alguns meses, mas no pouco tempo, no meio daquele caos, deu para entender porque a educação pública não funciona. No entanto, dentre todos os problemas, não havia esse tipo de censura explícita e oficial contra um conteúdo de aula.

Sem dúvida, o professor Marcos Antônio Tavares da Silva lançou mão de sua autonomia de cátedra (garantida pela Constituição de 88) para tratar de um assunto atual, utilizando a charge como exemplo da ironia, que é um recurso de expressão artística. Apontar como objeto do riso pessoas poderosas é também um recurso bastante usado há séculos. E utilizar charge em sala de aula é absolutamente normal.

Esses episódios tornam o nosso ambiente cultural muito similar ao do período da Ditadura. Mas o que causa maior preocupação é que agora, diferentemente de algumas décadas, há um tipo de adesão sinistra por boa parte da população ao pensamento obscuro, envolto por um manto de falsa proteção da “família”. Circulou recentemente um vídeo da ministra Damares Alves acusando livros infantis de ensinarem bruxarias para as crianças.

Vale lembrar que tal caça às bruxas da literatura infantojuvenil não acontecia dessa forma nem no período ditatorial. Em entrevista ao Estadão, Ruth Rocha se lembra como suas obras passavam despercebidas pela censura: “Não viram o que eu estava dizendo. Na verdade, eles não olharam história infantil, só vigiavam a música popular.” Daí que artistas de várias áreas, como Ziraldo, Sylvia Orthof e a própria Ana Maria Machado, tenham se voltado à literatura infantil, espaço onde era possível expressar as ideias literárias sem o jugo da mão censora. A revista Recreio foi um marco dessa busca pela liberdade: a Ditadura não tinha olhos para a potência alegórica – e naturalmente “subversiva” – dessa literatura.

A falta de uma educação para a leitura, favorecida pelo alcance das redes sociais, nos levou a um ponto em que a ignorância se dissemina rápida e amplamente, criando um tipo novo de aparelho repressor com orientação oficial e impulso de boa parte da população, que concorda com a censura. Todos que trabalham(os) pela literatura precisam(os) levar em conta esse aspecto.

Crianças e jovens, cujas mentes são mais abertas para o maravilhamento da literatura, são uma grande esperança para que esse quadro se dissolva. Ainda sem as máscaras da seriedade e do falso moralismo, precisam de acesso e de mediação para que a experiência da leitura literária seja um campo de liberdade para o enfrentamento da vida, com todos os seus risos e lágrimas. Como afirma o escritor e pesquisador Ilan Brenman no livro A condenação de Emília: “A literatura infantojuvenil de qualidade não garante a felicidade e nem a conquista de bens materiais, mas possibilita que nossa mente se torne mais flexível e livre, capaz de compreender a complexidade do mundo visível e invisível”.

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa Oi Kabum!. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 13 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance O próximo da fila (Record), publicado também na França. Site do autor: www.henriquerodrigues.net

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