Publicidade
Publicidade
Futuro dos leitores, leitores do futuro
PublishNews, Henrique Rodrigues, 25/09/2018
Em sua coluna, Henrique Rodrigues observa o que as novas gerações ensinam sobre o mundo e os livros

Quando eu era criança, ficava um pouco assustado quando os adultos me viam estudando em casa, ou mesmo na rua com o uniforme da escola, e diziam: “olhaí, esse é o futuro do país”. Era algo pesado demais para a nossa galerinha, cuja maior preocupação era tirar uma nota decente e passar de ano. Ao entrar na adolescência, imaginava que essas mesmas pessoas haviam recebido comentários similares quando mais jovens, e questionava por que, tendo crescido, eles jogavam a responsabilidade para os próximos da fila. Hoje entendo que é o ciclo natural da esperança.

Por esses dias aprendi muito com jovens, que têm cada vez mais a nos ensinar, em vários aspectos. Circulou um vídeo (abaixo) de uma entrevista com o Gustavo Gomes Silva dos Santos, de 10 anos, após uma sessão de narração de contos africanos no projeto “Leituraço”, promovido nas escolas de São Paulo. Foi espantosa a síntese e as associações que o menino fez das histórias com suas próprias raízes africanas, o atual momento político e o respeito ao próximo. Em suma, o vídeo, de 2014 mas parece feito para hoje, é um tipo de realização do resultado ideal para todos que trabalham com formação de leitores.

Outra situação aconteceu em Itaperuna, durante a primeira edição da festa literária da cidade no norte fluminense. Dividi uma mesa com duas escritoras, em que falávamos para diversas turmas de jovens. Nesses eventos, a timidez inicial da plateia vai gradativamente cedendo espaço para a curiosidade, até se transformar numa grande troca de ideias. Em dado momento, a pergunta de uma menina que devia ter uns 17 anos: “Como influenciar o próximo positivamente sem ser chato ou agressivo?” É de uma lucidez para deixar envergonhados os milhares de militantes belicosos de redes sociais.

Não é de hoje que essa chamada geração Z, ou millennials - ou qualquer outra definição "powerpôintica" – vêm quebrando várias expectativas sobre seu comportamento e visão de mundo. Especificamente na área dos livros, lembro-me bem de quando, lá por 1997, quando estava na faculdade e os adventos digitais começavam a se popularizar, surgia o alerta apocalíptico: “essa tal internet vai acabar com os livros”. E quem nascia naquela época se tornou o grupo que hoje vai às bienais com malas, cria seus próprios canais de discussão sobre livros, torna-se booktuber (que até assusta os profissionais mais velhos, que há pouco davam todas as cartas no mundo editorial), e lê mais que outras faixas etárias aqueles mesmos volumes impressos e pesados da qual os jovens das gerações anteriores tinham horror. E uma característica interessante nesse processo é que eles leem sem fazer a distinção preconceituosa segundo a qual “esse aqui é um livro de qualidade estética, e agora estou absorvendo pura arte” versus “isso aqui é um produto raso de entretenimento fruto do deus-mercado”. Meu moleque de 16 anos leu espontaneamente nesses meses Jorge Amado, Kafka e um romance num feiticeiro, o Witcher - tudo sem rotular e, o melhor, sem ser rotulado. Como diz o flanelinha, deixa solto, dotô.

E esse cenário pode ser observado em todo o país. Coordenamos um circuito literário nacional do Sesc, o Arte da Palavra, que leva escritores, contadores de histórias, rappers, cordelistas e oficineiros de um canto a outro, e a recepção dos jovens tem sido muito acima do esperado. Segundo nossos acompanhamentos internos, além do próprio relato dos artistas envolvidos, a galera tem abraçado muito a possibilidade de dialogar sobre literatura. Num desses depoimentos, há ainda a ciência dessa troca, como na fala de uma garota do Crato/Ceará dirigida à dupla Melanie Peter e Daniel Galera: “Não adianta vocês serem escritores e estarem trancados dentro de um quarto enlouquecidos com o livro, vocês precisam desses momentos. A partir daqui vão sair com mais ideias, e vocês vão ter o toque: ‘Poxa, a minha escrita tocou uma pessoa de forma diferente’.” Ainda que o processo de escrita seja em si uma experiência solitária, a jovem entendeu que o processo literário é uma via de mão dupla.

Por falar em via, vamos às ruas. Ontem, voltando para casa, dei um livro para o garoto que pede dinheiro no sinal. Carrego sempre livros para crianças e jovens no carro, e descobri que felizmente muitos colegas da área estão fazendo o mesmo. Acostumados às negativas dos vidros fechados, os moleques se surpreendem quando recebem o livro: quase sempre correm para calçada e começam a folhear os volumes. Outro dia o garoto desandou a pular e dançar, feito um sátiro, revelando como o objeto cultural mais importante e acessível precisa fazer parte da vida dessa galera – ajudando-os, se os governos fizerem o seu dever básico e cumprirem a lei, a sair das ruas.

E vamos em frente. Como disse o saudoso Millôr, cuja visão de mundo faz muita falta hoje em dia: “O futuro chega com tal rapidez que começo a desconfiar que agora já está atrás de mim”. Mais do que nunca, precisamos ouvir e entender um pouco mais as novas gerações. Se há não muito tempo o adolescente era só um meio termos entre a criança e o adulto, sem direito a dar um pio, a situação está bem diferente. Em 2013 foi sancionado o Estatuto da Juventude, que garante os diversos deveres em relação a esse público.

Mas em vez de citar lei, prefiro encerrar com uma frase do pequeno grande Gustavo, cujo depoimento nos diz e nos orienta tanto: “Ninguém pode viver isolado, todo mundo tem que estar num conjunto, numa equipe bem grande.”

Henrique Rodrigues é diretor do Instituto Caminhos da Palavra, voltado para a promoção do livro, leitura e escrita. Com mais de duas décadas de experiência na área, é coordenador geral do Prêmio Caminhos de Literatura e curador do Prêmio Pallas de Literatura. Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, formou-se em Letras pela Uerj, cursou especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ, coordenador pedagógico do programa Oi Kabum! e gestor de projetos literários no Sesc Nacional. Publicou 24 livros, entre poesia, infantil, conto, crônica, juvenil e romance, tendo sido finalista do Prêmio Jabuti duas vezes. É patrono de duas salas de leitura das escolas públicas onde estudou. www.caminhosdapalavra.com.br

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

Publicidade
Leia também
Em sua coluna, Henrique Rodrigues propõe que projetos literários tenham caráter mais formativo diante da queda no número de leitores no país
Em sua coluna, Henrique Rodrigues analisa alguns fatos da área do livro e leitura ocorridos em 2025
Em sua coluna, Henrique Rodrigues reflete sobre censura, (de)formação de leitores e os desafios de longo prazo na área
Em sua coluna, Henrique Rodrigues faz balanço dos eventos em Paraty e Salvador
Em sua coluna, Henrique Rodrigues enumera situações com pessoas “esquecidas” pelo setor de livros
Publicidade

Mais de 13 mil pessoas recebem todos os dias a newsletter do PublishNews em suas caixas postais. Desta forma, elas estão sempre atualizadas com as últimas notícias do mercado editorial. Disparamos o informativo sempre antes do meio-dia e, graças ao nosso trabalho de edição e curadoria, você não precisa mais do que 10 minutos para ficar por dentro das novidades. E o melhor: É gratuito! Não perca tempo, clique aqui e assine agora mesmo a newsletter do PublishNews.

Outras colunas
Na conversa, falamos sobre a evolução do mangá no Brasil, sua importância como porta de entrada para novos leitores e as diferenças em relação a outros tipos de quadrinhos
Toda semana, uma nova tirinha
"Quando me tornei avó, algo curioso aconteceu: minha atenção foi capturada, novamente, pelos livros infantis e infantojuvenis. Como mãe, já estive nesse mesmo lugar, mas agora é diferente!"
O filme permanece mesmo depois da última cena, daqueles que a gente não quer ir embora da sala de cinema e fica ali até que todos saiam
Minhas obsessões literárias... fazer um livro que seja lido vorazmente. Que concorra com o cinema, com a televisão, com os livros sobre anjos, e ganhe.
Marcelo Ferroni
Escritor brasileiro

Você está buscando um emprego no mercado editorial? O PublishNews oferece um banco de vagas abertas em diversas empresas da cadeia do livro. E se você quiser anunciar uma vaga em sua empresa, entre em contato.

Procurar

Precisando de um capista, de um diagramador ou de uma gráfica? Ou de um conversor de e-books? Seja o que for, você poderá encontrar no nosso Guia de Fornecedores. E para anunciar sua empresa, entre em contato.

Procurar

O PublishNews nasceu como uma newsletter. E esta continua sendo nossa principal ferramenta de comunicação. Quer receber diariamente todas as notícias do mundo do livro resumidas em um parágrafo?

Assinar