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O que você sabe sobre a formação de leitores pode estar errado
PublishNews, Pedro Almeida, 21/08/2018
Em sua coluna, Pedro Almeida lança um novo olhar sobre a formação de leitores e elenca dez dicas para torná-la mais atrativa aos jovens

Multidão visita a Bienal do Livro de SP
Multidão visita a Bienal do Livro de SP
Terminada a 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, muita gente da indústria editorial sentiu que voltou a respirar. O evento renovou o ânimo do setor. Não bateu o recorde de público, mas bateu os recordes de vendas. E isso trouxe muita esperança ao mercado.

Com um país mergulhado em crise, editoras sem receber pagamentos por vários meses, e edições esgotadas por falta de reimpressões, ver o tanto de gente que frequentou a feira em seu último sábado teve um efeito positivo e pode ser capaz de nos fazer enxergar novas soluções.

Eram jovens em sua grande maioria. Não foram por excursões escolares, mas por interesse individual. A bienal encontrou o ponto mais alto de conversa com seu público. Antes, havia uma disforia, um desencontro entre a massa dos seus frequentadores e grande parte das palestras e eventos ali realizados. Nessa edição, ela priorizou o público frequentador. E, elaborar uma programação voltada ao público que a frequenta, foi a decisão mais óbvia e inteligente dos últimos anos.

Falar para o público certo

Muitas pessoas, ativistas da educação e cultura realizam inúmeros projetos focados na formação de leitores, mas não alcançam os melhores resultados, e não entendem o motivo. Ou pior, conformam-se com eventos vazios, para os mesmos amigos de sempre, e acabam por criar a ideia de que “cultura é difícil, para poucos, e blábláblá”.

Eu tenho me dedicado a estudar o fenômeno, as tendências de leituras, as faixas de leitores, os resultados das pesquisas, mas uma ponta da questão sempre esteve fora do meu alcance: a parcela dos influenciadores formada por professores e bibliotecários. Eles são fundamentais para que o processo de formar leitores tenha mais êxito. Mas toda a orientação precisa melhorar.

Num dos debates realizados na Bienal, focado em fanfics e leituras de livros na plataforma digital Wattpad, uma professora, que estava na plateia acompanhando a filha, teceu comentários muito interessantes. Disse que não entendia porque aqueles livros, escritos por autores jovens e focados em leitores jovens, não eram apresentados aos professores. Que ela só estava lá porque a filha apresentou os livros.

Perguntei como ela escolhe os livros utilizados em sala de aula. Eram distribuídos gratuitamente pelas editoras. Perguntei quais eram os autores que ela trabalhava em sala. Normalmente, os clássicos. E ela achava importante que esses novos livros e autores fossem distribuídos gratuitamente aos professores.

Finalmente compreendi o problema.

Todo mundo que trabalha com literatura entende a necessidade de formar leitores. É bom para a cultura, para a educação, para a cidadania, para o desenvolvimento das ciências e tecnologias. Então, estamos falamos de algo considerado como de enorme importância a todos, e que merece nossos esforços para realmente melhorarmos os resultados. E se o esforço necessário exigir que abramos mão dos nossos gostos e apostar em outros livros, diferente dos que utilizaram conosco quando tentavam formar leitores?

Então dei uma resposta, aqui melhorada, à professora, a quem agradeço a oportunidade de expor uma parte do problema.

Senhora, esses livros e autores de que falamos não são produzidos por editoras de livros didáticos e paradidáticos, que destinam 30% da tiragem para doação e mantêm equipes de divulgação em escolas em todos os estados, financiadas pelas vendas de governos. Estes livros que a senhora recebe são os indicados por escolas, por programas de leitura, que raramente entendem o que realmente funciona em termos de formação de leitores. Os livros que os jovens estão interessados não entram em compras governamentais. Se a senhora esperar receber esses livros de graça, nada irá mudar. Continuará fracassando na tentativa de formar leitores, oferecendo Guimarães Rosa ou Carlos Drummond de Andrade em sala de aula. Observe os livros de autores nacionais que seus alunos estão lendo. Convide o/a autor/a para ir à escola. Compre ou peça emprestado para ler. E, se gostar, adote em sala de aula. Você vai observar o interesse por literatura aumentar de forma absurda. Não há segredos.

E terá transformado a experiência de leitura nas salas de aula em algo divertido, que é o que deve ser, especialmente quando falamos na formação de leitores em atividades de grupo.

Se hoje temos leitores na faixa dos 30 anos de idade foi basicamente graças a Harry Potter e não ao que foi ensinado nas salas de aulas. Se estes leitores vão ler obras mais literárias, mais clássicos quando estiverem lá pelos 40/50, não deve ser nossa preocupação.

Há, sim, muitas formas de tornar a leitura em uma atividade divertida para jovens em formação. Fiz uma lista, a partir da minha experiência como editor, como leitor e como professor de MBA Publishing. Conheço editores, de trabalhos que orientei, que fizeram inovações em livros escolares e tiveram um efeito incrível nos alunos. Vejo a cada dia, com um trabalho de formiguinha mas, crescente, autores que começaram a palestrar em escolas terem seus livros adotados para um trabalho de leitura. E a adesão dos alunos é incrível.

Há um conceito de senso comum, amplamente disseminado em nossa sociedade, que pensa que só existem dois tipos de livros: os literários e os que não estão enquadrados nesse grupo são inadequados para os jovens. Certa vez, conversando com um grupo de especialistas em literatura, ao dizer que os prêmios literários precisavam adicionar categorias como a ficção comercial, duas pessoas comentaram que precisavam estudar como incluir livros como o do padre Marcelo Rossi, que nunca poderia ser caracterizada como ficção. Exceto eu, ninguém do grupo achou o comentário estranho. Há ainda em nosso meio uma ignorância acerca da literatura de gênero. É como se pudéssemos dividir entre literários e o resto.

Pensando nisso, fiz abaixo um roteiro com 10 tópicos para que mais pessoas possam refletir sobre como pensar a formação de leitores com novos olhares. Ele pode ser usado com um check list ou guia, pois estamos tão acostumados a pensar a atividade sempre do mesmo jeito que um guia pode auxiliar-nos a fazer diferente. E pode ser melhorado com a experiência de cada um.

  1. Selecionar livros de autores escritos há menos de 20 anos. Temos uma indústria editorial que ignora bastante a literatura de gênero, motivo que faz com que nossa produção de literatura comercial, publicada por editoras, tenha sido maior apenas nas últimas três décadas. E boa parte da que foi publicada há mais de 20 anos perdeu a contemporaneidade, algo extremamente necessário para o interesse dos novos leitores. Lembre-se: a criança de hoje já não acha Harry Potter tão sensacional quanto a criança dos anos 2000.
  2. Não criticar as leituras dos alunos / jovens. O correto é nunca criticar nenhuma leitura de qualquer pessoa. Essa hierarquização de valor de leituras só seria aceitável se fôssemos um país de leitores. Somos o oposto disso.
  3. Como descobri-los? Esses livros de que estamos tratando aqui provavelmente não conversam com a geração dos adultos. Procure nas prateleiras das livrarias e nas livrarias on-line os autores nacionais bem avaliados pelos leitores.
  4. Não tente tornar a leitura uma atividade educativa, de conteúdo moral, ideológico. Afinal devemos formar leitores, antes de querer formar críticos. Priorize a diversão, o entretenimento. Se quiser alcançar as duas coisas ao mesmo tempo provavelmente perderá o prazer da atividade.
  5. Convide autores nacionais locais a visitar as escolas durante todo o ano. Seguramente há um autor nacional que escreve para jovens bem próximo de sua região. Não conhece? Pergunte nas livrarias locais, certamente alguns já fizeram lançamentos lá. Eventos geek e nerd são bons indicadores de livros e autores.
  6. Sugira novos títulos e autores para a biblioteca de sua escola. Peça dicas aos alunos.
  7. Promova uma semana de literatura a cada semestre. Vale incluir no evento outras atividades afins: cinema, cosplay, postagens em Instagram, história, música...
  8. Não caia na armadilha da simplificação de sentido. Levar literatura para jovens que não leem não quer dizer levar literatura marginal, das ruas, poesia de protesto, de hip hop ou funk. Volte ao item 4. Priorize a diversão. Você busca formar leitores, não um ativista político.
  9. Não caia na armadilha de inverter a ordem das coisas. Levar as ruas para sala de aula não vai formar leitores. Alguns professores, pensando em acessar o universo dos alunos, já utilizaram letra da Valesca Popozuda ou da Tati Quebra-barraco em questões de interpretação de texto. Há milhares de obras entre a prosa de Graciliano Ramos e uma letra de funk. Descubra. Há um universo de obras entre esses extremos, muito vasto em gêneros e níveis de leitura, que movimenta a maior parte dos leitores e você precisa conhecer.
  10. Conseguiu formar novos leitores? Vá ampliando o leque de títulos, apresentando nomes nacionais mais literários e até oferecendo a oportunidade de cada aluno / grupo ler um livro diferente, dentre aqueles que selecionou. Você não está formando pessoas de humanas, mas de exatas e biológicas também. Um aluno com inclinação para tecnologia irá gostar mais de fantasia; aqueles ligados em letras clássicas e pedagogia tendem a gostar de poesia e prosa poética; uma aluna inclinada a biológicas pode gostar de ficção científica, policiais, suspense, aventura. Oferecer apenas romances literários irá transformar sua aula num tédio para as pessoas que não tem interesse por humanas. E terá contribuído para a redução do número de leitores.

Crie leitores para o mundo!

Críticas, sugestões, ampliação do tema? Escreva logo abaixo. A ideia foi apenas dar um pontapé inicial.

Pedro Almeida é jornalista e professor de literatura, com curso de Marketing pela Universidade de Berkeley. Autor de diversos livros, dentre eles alguns ligados aos animais, uma de suas paixões, trabalha no mercado editorial há 20 anos. Foi publisher em editoras como Ediouro, Novo Conceito, LeYa e Lafonte. Atualmente inicia uma nova etapa de sua carreira, lançando a própria editora: Faro Editorial.

Sua coluna traz exemplos recolhidos do cinema que ajudam a entender como funciona o mercado editorial na prática. Como é o trabalho de um ghost writer? O que está em jogo na hora de contratar um original? Como transformar um autor em um best-seller? Muitas dessas questões tão corriqueiras para um editor são o pano de fundo de alguns filmes que já passaram pelas nossas vidas. Quem quer trabalhar no mercado editorial encontrará nesses filmes algumas lições importantes. Quem já trabalha terá com quem “dividir o isolamento”, um dos estigmas dos editores de livros. Pedro Almeida coleciona alguns exemplos e vai comentá-los uma vez por mês.

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