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Grandes navegações, mercados e culturas: intercâmbio Brasil-Espanha
PublishNews, Bernardo Gurbanov, 19/12/2017
Em sua coluna Bernardo Gurbanov faz um panorama da relação entre Brasil e Espanha, trazendo inclusive números e dados importantes dentro desse cenário

O estudo dos ventos, as viagens de Marco Polo e a cartografia florentina do Século XV impulsionaram as viagens empreendidas pelo navegador e explorador italiano Cristóvão Colombo e pelos portugueses Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral à procura de rotas alternativas rumo ao distante Oriente.

Ocorre que não foram apenas os estudos acadêmicos que trouxeram para América os primeiros marinheiros transatlânticos.

O reino de Castela e Aragão, assim como o de Portugal, tinham, de fato, reais motivos.

Foi a procura por rotas alternativas para reduzir custos na importação das especiarias e da seda procedentes da Ásia e por tanto poderosos interesses econômicos que impulsionaram as expedições da época.

A curiosidade científica, a expansão do comercio e a satisfação de necessidades socioeconômicas continuam vigentes no Século XXI, centúria em curso na qual as comunicações tornaram-se instantâneas e o acesso ao conhecimento e aos bens de consumo materiais e imateriais encontra mais uma vez um facilitador no avanço da tecnologia.

Assim como a invenção da bússola no Século IX foi instrumento fundamental para o posterior início das grandes navegações, a imprensa de tipos móveis criada por Gutenberg deu impulso a uma revolução na transmissão do conhecimento e na democratização do seu acesso.

O túnel do tempo e algumas das formulações de Roger Chartier sobre a história do livro e da escrita nos transportam para a investigação de outro salto tecnológico com o advento do texto eletrônico, a leitura em telas de computador e demais dispositivos da era digital.

Os mercados hoje

Na atual cartografia mundial, diferentemente daquela do Século XV, a América aparece em toda sua extensão geográfica e potencial econômico.

A adesão da Espanha à Comunidade Econômica Europeia, em 1985, somada ao ciclo de crescimento que a sucedeu, estimulou um fortalecimento salutar de sua economia a partir da produção de conhecimento, tecnologia, bens em geral e de bens culturais em particular.

Com sólidas bases estruturais, consegue aos poucos superar a crise mundial iniciada em 2008 e retoma seu ciclo de expansão nesta reta final da década iniciada em 2010. 

Num mundo hiperconectado, a Espanha assim como o Brasil, tal como corresponde a todo estado moderno, continuam atentos às possibilidades de internacionalização dos bens e serviços produzidos nos seus respectivos territórios.

Em ambos os países, o poder público com oscilações marcadas pelo vai-e-vem das tempestades políticas, desenvolve ações de estímulo às exportações destinando verbas importantes para que as indústrias criativas, dentre elas a indústria editorial, afirmem sua presença internacional gerando divisas e contribuindo para o fortalecimento das respectivas identidades culturais.

No campo da produção literária, provavelmente Federico García Lorca, pela Espanha, e Jorge Amado, pelo Brasil, foram os autores mais representativos de ambas culturas durante o Século XX.

Ambos revelaram para o mundo a alma de cada um dos seus povos.

De um lado, o poeta andaluz com suas peças dramáticas, microscópios de uma sociedade à época machista e autoritária.

Do outro, o baiano com seus personagens alegres, espontâneos e transgressores, típicos da terra do homem cordial.

O que dizer então de Carlos Ruiz Zafón e Rubem Fonseca, consagrados mundialmente. De María Dueñas ou de Clarice Lispector. De Machado de Assis ou Miguel de Unamuno.

No entanto, nesta segunda década do século, basta uma atenta leitura de alguns indicadores para notar que ainda resta um longo caminho para percorrer no que diz respeito da conexão entre estas culturas.

Na Espanha, as traduções de livros respondem por um 13,4% da produção local sendo apenas 0,9% as traduções do português e 51,7 % as do inglês, segundo a Panorámica de la edición española de libros, documento realizado pelo Ministério da Educação, Cultura e Esportes da Espanha em 2015.

No Brasil somente 73 obras de autores espanhóis traduzidas para o português foram registradas pela FFLCH/USP.

Neste âmbito de mútuo intercâmbio, atuam do lado espanhol a Subdirección General de Promoción del Libro, la Lectura y las Letras Españolas do citado ministério assim como o ICEX –Instituto de Comércio Exterior do Ministerio de Comércio, indústria y competitividad.

Esses órgãos apoiam a presença de autores espanhóis em feiras internacionais, universidades estrangeiras, associações de hispanistas, e em centros do Instituto Cervantes; concedem subvenções para a tradução e edição de obras de autores espanhóis, sejam elas científicas ou literárias, a qualquer língua estrangeira; apoiam a promoção exterior do Setor do Livro espanhol através de subvenções e da presença de autores em Feiras Internacionais do Livro; colaboram com o Centro Regional para el Fomento del Libro en América Latina y en el Caribe (CERLALC) – UNESCO; promovem a internacionalização de empresas espanholas e desenvolvem o portal multilíngue News Spanish Boooks, agora também em português

Do lado brasileiro, a modo de espelho, identificamos as ações da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro com o programa de incentivo às traduções de autores brasileiros, da comissão de feiras internacionais no Ministério das Relações Exteriores e da agência APEX de estímulo às exportações em parceria com a Câmara Brasileira do Livro mediante o projeto Brazilian Publishers visando a internacionalização da produção local.

Espanha é o quinto produtor de livros da Europa e oitavo do mundo, com 79.397 ISBNs inscritos em 2015, e tem registrado um crescente nível de concentração na oferta: 12 editoras privadas publicaram mais de 700 títulos e 1.460 editoras publicaram quatro ou menos títulos/ano.

Segundo a publicação Comercio interior del libro da Federación de Gremios de Editores de España, que inclui os dados sobre remuneração de direitos autorais, se comparada a situação de 2015 com a de anos anteriores pode-se constatar o aumento do índice de concentração da produção: em 2013, 5,7 % dos editores publicaram 62,8 % dos livros; em 2014, 4,7 % dos editores lançaram 57,1 % dos livros, e em 2015, 59,6 % dos livros foram publicados pelo 4,4 % dos editores.

Ainda analisando a Panorámica de la edición española, os dados de 2016 apontam para um crescimento da ordem de 48,2 % nas traduções do português para o castelhano com 1.113 títulos contemplados.

Cabe resgatar aqui uma informação importante oferecida pelo mesmo documento. Em 2015 um total de 242 novas editoras de pequeno porte iniciaram suas atividades na Espanha revelando dessa forma o potencial empreendedor das industrias culturais.

Dados mais relevantes

O total da produção editorial aumentou 8,3% respeito do ano anterior (passou de 79.397 em 2015 para 86.000), a edição de livros em suporte papel aumentou 6,4% (60.763 livros editados em 2016, perante os 57.117 do ano anterior); a edição em outros suportes aumentou 13,3% (25.237 suportes em 2016, perante os 22.280 de 2015).

O número de ISBN inscritos de acordo com o tipo de edição aumentou 14,9% na edição de caráter público e 7,7% na edição privada, representando em 2016 um 9,6% e 90,4% sobre o total da produção editorial respectivamente.

Por subsetores de edição, se registram aumentos em: livros de ciência e tecnologia (26,0%), livro infantil e juvenil (17,7%), em outros (16,8%), criação literária (11,2%) e livros de ciências sociais e humanidades (4,1%); os descensos se registram em: livros de texto (3,5%) e livros de tempo livre (2,5%).

A edição eletrônica teve um aumento de 13,3%, a respeito do ano anterior, e representa 29,3% dos ISBN inscritos no ano. Os e-books ou livros digitais aumentam 13,5% e representam 93,7% da edição em outros suportes e 27,5% do total da produção.

Foram editados em línguas espanholas 91,4% dos livros, destacando a edição em castelhano (85,5%), seguida da edição em catalão (10,0%), em euskera (2,1%), em galego (1,5%) e valenciano (0,8%).

As traduções representam 16,1% da produção, destacando o inglês (50,7% da obra traduzida). 

As comunidades autônomas da Catalunha e Madri representam 60,7% do total da produção, com uma participação de 32,4% para Madri, y de 28,3% para Catalunha. A seguir aparece Andaluzia (14,5%) e a Comunidade Valenciana (8,4%).

Com referência à produção privada, 26,4% foi editado por 92 empresas editoriais, que representam 3,0% das que tiveram atividade em 2016.

No que diz respeito a exportações de exemplares produzidos na Espanha, Brasil encontra-se em nono lugar em faturamento com 10.953.000 euros.

O saldo da balança comercial, 324,39 milhões de euros, voltou a ser positivo, como é tradicional dado o carácter exportador do livro espanhol, a pesar de ter diminuído 1,42% com relação ao ano de 2014.

A essas quantidades temos que somar a venda de direitos que, em 2015, foi a 70,6 milhões de euros, um 6,3% a mais em relação com 2014.

No Brasil, por sua parte, foram traduzidos 5918 títulos em 2014 e 4781 em 2015 sendo 310 e 183 do espanhol respectivamente, totalizando 878.362 exemplares em 2014 e 556.935 em 2015.

Conclusão

O potencial que ambas economias apresentam continua vigente e numa análise de médio prazo vislumbra-se a retomada de um moderado, moderadíssimo eu diria, crescimento em terras de Cervantes e Gregório de Matos.

O intercâmbio cultural e as oportunidades de negócios caminham de mãos dadas.

A saída da maior recessão da história brasileira e a reorganização da sua estrutura produtiva, a profunda revisão das relações entre o público e o privado somadas à tênue recuperação da economia espanhola (tensões na Catalunha incluídas) constituem a médio e longo prazo a fortaleza indispensável para o planejamento de futuras e mútuas expansões comerciais, industriais e culturais.

Sendo a tarefa do editor desenvolvida numa jornada também de médio e longo prazo, nada melhor que estarmos atentos às ferramentas que possam facilitar o acesso à informação para um melhor planejamento e tomada de decisões.

É neste sentido que as fontes de pesquisa citadas e as respectivas análises de dados vem a contribuir com o fluxo dos negócios e a geração de oportunidades de um ecossistema que ainda tem um enorme campo para ser explorado. As livrarias brasileiras e espanholas agradecem.

Bernardo Gurbanov é presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL) e proprietário da Editora Letraviva. Para conhecer mais sobre sua história livreira e de vida, leia aqui mesmo no PublishNews matéria A saga dos livreiros Gurbanov na Argentina e descubra porque ele é nosso argentino brasileiro predileto.

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