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Diferentes inteligências, diferentes literaturas & a cultura da erudição
PublishNews, 14/08/2014
Há um mundo de leitores e interesses que não são atendidos com a existência de um conceito de qualidade na Literatura

Semanas atrás, enquanto ministrava um curso para formação de publishers, abrimos uma discussão a respeito de como formar de leitores. Um participante, que atua numa ONG que cria e organiza bibliotecas populares, persistiu numa questão bastante recorrente no mercado editorial: “O que garante que uma criança, jovem ou adulto que lê uma obra de puro entretenimento vá evoluir para uma literatura de melhor qualidade?”.

Nesse momento se acendeu uma luz vermelha imaginária na sala. Era para mim como se todos estivessem imóveis e eu assistindo a uma cena da inquisição. Foram segundos, mas lembrei naquela hora as repetidas vezes em que ouvi a mesma questão, sob a crença de que há um percurso necessário para se fazer com a Literatura, de que há um tipo de evolução, de que ler livros cada vez mais complexos é um ótimo caminho. Não é! E vou mostrar porquê.

Duas situações podem exemplificar bem isso. A primeira delas recebi dias atrás, num vídeo que vale muito a pena assistir e tomou o lugar hoje do filme que costumo comentar. Acontecia um importante Congresso de Ciência nos EUA, com a presença de grandes nomes. O principal deles, Neil DeGrasse, um cientista negro, que responde a seguinte pergunta feita com cinismo: Por quê há tão poucas mulheres na ciência? Assista.

Agora saiba que quem fez a pergunta foi Larry Summers, ex-Presidente da Harvard University e Secretário do tesouro no Governo Clinton (e também do Obama). Me diga agora se toda a cultura, todos os livros que essa pessoa leu serviu para alguma coisa? A pergunta de Larry, que presidiu uma das mais importantes universidades do mundo, representa um argumento simplista numa defesa que apenas reforça a sua classe: a de homem, branco e de elite. Poderia dizer que, provavelmente, seu pensamento é racista, misógino e deve acreditar na supremacia de um grupo sobre o outro, como algum tipo de seleção da natureza, sem levar em conta outros aspectos sociais. Mas tipos como esse, em que a larga cultura não cria um pensamento abrangente, há muitos.

A segunda situação foi aqui mesmo no Brasil. Recentemente, um filósofo muito conhecido, que figura nas listas de mais vendidos soltou a frase: “ Sempre achei que mulheres feias deveriam ser proibidas pela saúde pública!” Quando li, fui atrás da informação para ver se não era falsa, se não era algum tipo de trolagem. Mas não era. Foi feita de modo jocoso, e seu autor teve a coragem de defendê-la. Não tenho dúvidas de que este senhor é muito culto. Leu os grandes clássicos, mas me parece preso a um tipo de conceituação de relações sociais bem equivocada ou desigual. Sempre que ouço barbaridades assim me pergunto: De que adianta tanta cultura se não faz bom uso? Uma pessoa simples teria muito mais respeito pelos outros.

Vejam que estamos lidando com o “topo do topo” da pirâmide cultural. Imagine o meio.

Exemplos assim existem aos montes. As pessoas, todas, exercem suas opiniões com base em sua fonte de informação, interesse, experiência. E raramente se abrem para ouvir uma opinião que contradiga a sua. Sair de seu próprio meio cultural, estudar o outro lado, me parece um exercício inteligente que todos deveriam experimentar e cabe em qualquer situação.

Que evolução a literatura sofisticada promove?

Esse senso de que existe um processo evolutivo na obtenção de cultura literária não tem um valor para o mundo. Tem um valor para si próprio. Uma literatura sofisticada, por exemplo, pode servir para o leitor dialogar com suas próprias digressões pessoais, lidar com nossas questões filosóficas, deliciar-se na vivência e beleza promovida pela pena do autor, experimentar outros ares, olhares e espaços. O que isso promove diretamente para o mundo em termos de avanços? NADA! Queremos avanços ou algo que promova a evolução humana, então devemos investir em pesquisas nas Ciências: Física, Química, Biologia... E as Sociais, claro. A progressão numa literatura mais literária não vai promover nenhum mundo melhor, nenhuma pessoa melhor do que ela mesma queira ser, mesmo lendo ao pé da letra, a Bíblia, o Alcorão ou livros agnósticos.

Formar leitores sem interferir no que irão ler

Então, quando ouço essa ideia persistente, de que só se deve investir na formação de leitores utilizando literaturas e autores que o mercado gosta de desprezar se houver uma garantia de que a pessoa, depois, partirá para literaturas mais “nobres”, fico pensando como o senso comum consolidou essa ideia autoritária amplamente difundida entre nós.

Se a evolução produz mentalidades como as desses dois senhores, melhor a ignorância. E não se trata de discordar de opinião política sobre a postura deles, mas sobre a visão segregacionista que eles mantêm, cada um a seu modo, instrumentalizados por larga cultura.

Há, claro, muita gente culturalmente ignorante, perversa e corrupta pelo mundo. A educação, a formação cultural, sem dúvidas, é o caminho das grandes civilizações. Os avanços em ciências e tecnologias acontecem concomitantemente com o desenvolvimento da língua, linguagem e seus processos. No entanto, o que precisa ser feito para promover a Literatura é dar o acesso, a experiência primária. O que vai acontecer depois disso não é controlado, dirigido e nem deve ser uma preocupação fortemente direcionada porque só irá atrair quem estiver intimamente alinhado a ela.

Como uma pessoa que já tem acesso à literatura experimenta um livro ou autor? Recomendação! Algo que leu ou ouviu sobre tal autor e ele mesmo procura. Se ficar encantado, lê tudo. Caso contrário, vai atrás de outro. Promover a Literatura para quem já gosta é importante, mas se a pessoa já gosta de ler podemos dizer que apostar apenas nisso é como chover no molhado. E não é exatamente isso o que nossa cultura de livros faz? Falar, divulgar e valorizar livros e obras mais literárias que não atendem a um público pouco-leitor? Criar novos leitores, não apenas crianças, mas adultos que não leem, me parece ser uma tarefa mais importante. Especialmente, porque aumenta a massa de leitores, e terá certamente reflexo na educação, na profissionalização e na cidadania. Quão seria melhor que nosso processo de Educação fosse feito pela Literatura.

Motivações que tornam uma pessoa próxima dos livros

Uma pessoa começa a gostar de ler depois que é apresentada aos livros, e tem uma oferta com liberdade para escolher aquilo com o que mais se identifica. Há leitores que buscam aventura, outros, respostas para questões filosóficas da vida. Uns, conselhos, outros gostam das curiosidades. Ainda não conheço estudos que identifiquem a grande variedade de motivações que tornam alguém leitor. Há, no entanto, um aspecto de nossa cultura de leitura, que identifica como relevante apenas a erudição do texto lido. Canso de ouvir gente que lê sempre, mas quando pergunto o que está lendo tenta citar um clássico (que efetivamente não o leu ou leu sem gostar, porque você percebe que fala do livro sem brilho ou sem profundidade) ou fala em tom baixo, com uma frase como que se desculpando por gostar de O pequeno príncipe ou o romance best-seller do momento. O que esta cultura da erudição promove? Vergonha de seu hábito de leitura e isso não é motivador. Uma importante pesquisa recente indicou que o principal motivo apontado pelos leitores como a vantagem dos e-readers era que ninguém sabia de fato o que eles estavam lendo quando o faziam em público.

Diferentes inteligências, diferentes interesses, diferentes literaturas.

É importante observar que há um mundo de leitores e interesses que não são atendidos pela simples existência de um conceito de qualidade na Literatura, a tal da erudição. O mundo já reconhece a existência de novo diferentes tipos de inteligências. Veja a ilustração abaixo:


Há séculos encaixamos as pessoas nas vocações para as mais diferentes áreas, ainda contidas nas designações humanas, exatas, biológicas e suas derivações. No entanto, na Literatura ainda mantemos um conceito de valor que abarca apenas uma das mais de 15 áreas dentro das ciências humanas. Se observarmos, esse conceito de valor literário inclui efetivamente a Linguística, acrescentando, dependendo do caso, a Filosofia e a História.

Outra classificação, esta mais recente, sofre da mesma falta de reflexão. Um mesmo livro pode ser encaixado como obra de não ficção ou de autoajuda, dependendo da época em que foi escrito. Vários livros de Filosofia, são considerados Não ficção, se forem clássicos, como Sócrates, Schopenhauer (como A arte de ter razão), etc. Mas se o mesmo tema de Filosofia for escrito por um autor hoje, será considerado autoajuda. É hora de começarmos a pensar diferente. Esses conceitos estão obsoletos e não fazem nenhum sentido. Pode parecer outro assunto o que estou dizendo, mas faz muita diferença para um autor, leitor e crítico lidar com um segmento ou outro. Por um certamente há respeito, por outro, nem sempre. E o motivo é ignorância, porque são a mesma coisa.

A Educação pela Literatura

Promover literatura para quem não tem o hábito cria um novo leitor que pode ser leitor para sempre. Se ele vai continuar a ler; ampliar o interesse por textos mais literários, ninguém sabe e nem deveria ser uma preocupação central. E se você concordar que uma pessoa com pensamento mais complexo, sofisticado e culto não é mais feliz ou humana que outras, porque esse pensamento de “evoluir” na leitura? Vamos deixar as pessoas serem felizes lendo por décadas Nora Roberts e Mary Higgins Clark. E sempre haverá os que preferem a poesia parnasiana, os ensaios de Eric Hobsbawm. O que vai acontecer com estes? Seguindo sua própria inclinação e interesses, provavelmente lerão o que podemos chamar no bom sentido mais do mesmo - autores semelhantes aos que já gostam em linha de pensamento, seja de entretenimento, arte ou filosofia. Se olhar desse ponto de vista, o mais do mesmo, independe se trata-se de uma obra política com orientação marxista ou o romance romântico.

Sempre que se levantam propostas sobre priorização do trabalho para criar novos leitores algumas pessoas com larga formação se sentem pessoalmente ofendidas, como se priorizar um público fosse uma crítica pessoal à formação mais culta. Não se trata disso. A formação cultural de maior envergadura e o gosto por textos de arte não precisam de grandes defensores, elas são o topo de sua arte. Fomentar o surgimento de leitores é o caminho para fazer crescer também esse topo e, para isso, vale repensar meios, formas e conteúdo. O que proponho aqui, caro leitor, é um diálogo com suas crenças. Penso que é preciso estar disposto a ver e a aprender a todo momento, sair do lugar confortável do mundo culto em que nós nos encontramos hoje e dar o direito de outros grupos, antes sem condições até de ler, a ler o que querem. Leitura é sempre boa e nossa Educação seria muito melhor se promovida por uma leitura sem controle.

Se quiser escrever algum comentário, será um prazer recebê-lo, pois aprendo sempre com visões de áreas diversas. Escreva em meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com

Pedro Almeida é jornalista profissional e professor de literatura, com curso de extensão em Marketing pela Universidade de Berkeley. Autor de diversos livros, dentre eles alguns ligados aos animais, uma de suas paixões. Atua no mercado editorial há 26 anos. Foi publisher em editoras como Ediouro, Novo Conceito, LeYa e Saraiva. E como editor associado para Arx; Caramelo e Planeta. É professor de MBA Publishing desde 2014 e desde 2019 é presidente do Conselho Curador do Prêmio Jabuti. Em 2013 iniciou uma nova etapa de sua carreira, lançando a própria editora: Faro Editorial.

Sua coluna traz exemplos recolhidos do cinema, de séries de TV que ajudam a entender como funciona o mercado editorial na prática. Como é o trabalho de um ghost writer? O que está em jogo na hora de contratar um original? Como transformar um autor em um best-seller? Muitas dessas questões tão corriqueiras para um editor são o pano de fundo de alguns filmes que já passaram pelas nossas vidas. Quem quer trabalhar no mercado editorial encontrará nesses filmes algumas lições importantes. Quem já trabalha terá com quem “dividir o isolamento”, um dos estigmas dos editores de livros. Pedro Almeida coleciona alguns exemplos e vai comentá-los uma vez por mês.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews

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