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O Brasil não é o país do e-reaader
Publishnews, Carlo Carrenho, 13/04/2014
Carlo Carrenho explica o porque o Brasil não será um país de leitores digitais dedicados, mas sim dos aparelhos eletrônicos multifuncionais.

Em um momento em que se discute a desoneração de e-readers dedicados no Congresso e em que o mercado de livros digitais no Brasil, embora pequeno, encontra-se em franca expansão, uma pergunta se torna bastante relevante: Qual o mercado brasileiro potencial para e-readers dedicados? Em outras palavras, quantos Kindles, Kobos e outros leitores genéricos poderiam ser vendidos no Brasil?

Acredito que o potencial do mercado brasileiro para estes aparelhos seja muito menor do que poderia parecer em um primeiro momento. Não que o consumidor brasileiro tenha um interesse limitado em livros digitais, claro que não. O que ocorre é que no Brasil há poucos "grandes leitores" - ou "heavy readers", como se diz em inglês. Infelizmente, estamos longe dos índices de leitura dos países desenvolvidos e a parcela da população brasileira que, por exemplo, lê mais de 10 livros por ano é muito baixa. Este fato naturalmente já exerceria uma pressão negativa sobre a demanda de e-readers dedicados, mas ainda há um agravante: o brasileiro é fascinado por tecnologia. Veja por exemplo as vendas de tablets e smartphones no Brasil nos gráficos abaixo:

Em um primeiro momento, pode parecer que este potencial por produtos de tecnologia tenha um impacto positivo na demanda de e-readers dedicados, e de certa forma até tem, na medida que o consumidor brasileiro aceita bem novidades tecnológicas. Mas, neste caso, há um certo paradoxo e, enquanto a leitura digital sempre será favorecida, isto não significa que Kindles, Kobos e afins com tecnologia e-ink, ou seja, leitores dedicados, desfrutem do mesmo favorecimento.

Na verdade, fica muito claro nos gráficos acima que o mercado brasileiro possui uma demanda enorme por tablets. Portanto, não seria exagero dizer que a grande maioria dos  brasileiros com interesse em tecnologia (incluindo-se aí os adeptos do livro digital) comprou ou quer comprar um tablet com todas as suas multifuncionalidades. Na maioria das vezes, portanto, a compra de um e-reader dedicado seria considerada apenas após a compra de um tablet, e ocuparia um papel de um segundo aparelho. É claro que há exceções, gente tão fascinada pela leitura que é capaz de ter um ou mais e-readers dedicados e não comprar um tablet. Aliás, há inúmeras vantagens em se ler em um e-reader dedicado como eu já abordei na coluna "O iPad é tão bom que perde para o Kindle" nos idos de 2010. No entanto, como já dissemos, temos poucos "grandes leitores" no Brasil, e o e-reader dedicado será majoritariamente um segundo aparelho depois do tablet.

A decisão de compra de um e-reader dedicado, portanto, passará quase sempre por duas perguntas: (1) Eu preciso e estou disposto a comprar um outro aparelho só para leitura?; e (2) Eu quero ficar carregando dois aparelhos por aí? E a resposta para ambas as perguntas está diretamente relacionada a um fator: a quantidade de livros que este consumidor lê. Para quem lê a média nacional de 4 livros por ano, incluindo-se aí livros pela metade e livros para a escola (segundo a pesquisa Retratos da Leitura / 2011), nunca valerá a pena a compra de um aparelho exclusivo para a leitura, seja ele um segundo aparelho ou não. Esta decisão também vai depender da condição econômica do consumidor. Se ele pertencer à classe A, talvez já considere que valha a pena comprar um Kindle ou um Kobo se estiver lendo 5 ou 6 livros inteiros por ano. Já uma pessoa da classe C tlavez só investisse em um segundo aparelho se fosse ler 9 ou 10 livros, por exemplo.

Infelizmente, a pesquisa Retratos da Leitura não distribui o universo de leitores em quantidade de livros lidos por ano, mas apenas aponta o número daqueles considerados leitores (que lerem pelo menos 1 livro ainda que incompleto nos últimos 3 meses) por classe social. Não temos, portanto, o número de "grandes leitores" no Brasil, mas com base no número de leitores podemos arriscar algumas estimativas para chegar ao tamanho potencial do mercado brasileiro de e-readers dedicados. Vejamos o gráfico abaixo com dados da pesquisa Retratos da Leitura:

Temos, portanto, 2,3 milhões de leitores na classe A, 25,6 milhões na classe B e 46,2 milhões na classe C. Eu estimo que não mais de 15% dos leitores da classe A poderiam ser considerados "grandes leitores" o suficiente para que, considerando suas curvas de potência de consumo, optassem pela compra de um e-reader dedicado que quase sempre seria um segundo aparelho, depois de um tablet. Já na classe B, acho que este índice não passa de 10%, considerando a pior condição socioeconômica e uma distribuição dos leitores por quantidade de livros lidos que tende a ser inferior. Na classe C, pelos mesmos motivos, o número não deve passar de 5%. Claro que esses índices não passam de chutes ou, como dizem os ingleses elegantemente, "educated guesses". Mas quem discordar destes índices pode fazer seu próprio chute e aproveitar a lógica e os dados de pesquisa aqui para chegar a suas próprias conclusões. Mas, enfim, utilizando-se os índices que propus, chegamos a seguinte tabela:

Com base nesta estimativa, o mercado potencial de consumidores de e-readers dedicados, seria de aproximadamente 5,2 milhões de pessoas. Isto equivale a 5,9% dos 88,2 milhões de leitores no Brasil. Ou seja, 5,2 milhões de pessoas leem livros em número suficiente para que a aquisição de um e-reader dedicado tenha racionalidade econômica considerando-se sua classe socioeconômica e o fato de que o e-reader provavelmente será um segundo aparelho de leitura.

Mas vale lembrar que isto é potencial, ou seja, não serão 100% destas pessoas que vão adquirir um Kindle ou Kobo. Entre elas, há aqueles que nunca lerão livros digitais ou que lerão ambos os formatos de forma que não consumirão e-books em número suficiente para justificar uma compra. Além disso, há aqueles que nunca aceitarão a ideia de carregar mais de um aparelho. É difícil fazer qualquer estimativa de quanto deste mercado potencial será efetivamente convertido em  vendas quando o mercado de leitura digital estiver amadurecido no futuro. Além disso, até que isto aconteça, os índices de leitura podem melhorar ou o preço dos e-readers baixar, aumentando a penetração dos "grandes leitores" com potencial para a compra de um e-reader dedicado. No entanto, para os próximos três anos, enquanto a leitura digital ainda se consolida e os mercados europeu e norte-americano parecem ter atingido um platô do crescimento digital, acho difícil que mais de 20% deste mercado potencial seja atingido. Ou seja, minha estimativa é que a base de e-readers instalada no Brasil ao final de 2016 não passe de um milhão de aparelhos.

E qual é esta base hoje? Difícil saber. O jornalista Thiago Prado estimou que a Amazon vendeu 60 mil Kindles no Brasil em 2013. Em seguida a coluna Radar apontou a venda de 20 mil Kobos pela Livraria Cultura no ano passado. Ainda teríamos de considerar os Kindles que entraram nas malas dos turistas brasileiros e outros aparelhos. Mas, mesmo assim, acho uma boa estimativa uma base de 100 mil e-readers dedicados no Brasil ao final de 2014. Ou seja, imaginar que a base de tais aparelhos chegue a um milhão em três anos ainda exige uma boa dose de fé. Mas vale lembrar que em 2010 foram vendidos apenas 110 mil tablets no Brasil, a três anos depois, em 2013, a venda chegou a quase 8 milhões.

Não podemos esquecer nesta discussão que a demanda por e-readers dedicados vem diminuindo nos mercados atuais, como mostra este artigo do PublishNews.

De qualquer forma, é inegável e os números corroboram que o Brasil é o país do tablet e do smartphone e não do e-reader dedicado. Afinal, enquanto o mercado potencial de e-readers não pode ser estimado em muito mais de cinco milhões de aparelhos, só em 2014 serão vendidos mais de 10,7 milhões de tablets e 47 milhões de smartphones no Brasil.

Com base nisto, talvez a Amazon e Kobo deveriam apostar mais na leitura digital por meio de seus aplicativos para iOS e Android no Brasil - especialmente para o Android, que possui um market share de aproximadamente 90% do mercado brasileiro de tablets e smartphones. No entanto, os aparelhos Kindle e Kobo fazem parte do cerne da estratégia de conquista de mercado destas empresas e é difícil imaginá-las abandonando seus leitores dedicados para estimular seus leitores a ler em tablets dos concorrentes Google e Apple. Por enquanto, o que ambas as empresas fizeram, foi entrar no mercado de tablet com o Kindle Fire e o Kobo Arc, tentando garantir seu lugar ao sol, caso o e-reader dedicado sofra uma morte precoce. E o Kindle Fire nem está disponível no Brasil.

Portanto, não será tão cedo que veremos uma publicidade com o slogan: "Kindle, o melhor aplicativo de leitura para seu iPad." Mas é preciso que o mercado tenha consciência de que o Brasil não é o país do e-reader, mas sim do tablet e o smartphone.


Carlo Carrenho é o fundador do PublishNews. Formado em Economia pela FEA-USP, especializou-se em Edição de Livros e Revistas no Radcliffe Publishing Course, em Cambridge (EUA). Atualmente é advisor da Ubook, Meta Brasil e da BR75. Como especialista no mercado de livros, já foi convidado para dar palestras e participar de mesas em países como EUA, Alemanha, China, África do Sul, Inglaterra e Emirados Árabes, entre outros.

É co-coordenador do curso MBA Book Publishing, da Casa Educação em São Paulo, depois de coordenar por diversos anos o curso de pós-graduação da FGV-RJ sobre o negócio do livro. Sempre atento aos novos modelos de negócio e às mudanças tecnológicas, Carlo possui um de seus focos na questão dos livros digitais e segue com afinco o que acontece no setor digital no Brasil, tanto que é autor do capítulo brasileiro do livro Global eBook: a report on market trends and developments.

Carlo é paulista, morou no Rio, e atualmente vive em Estocolmo. É cristão, mas estudou em escola judaica. É brasileiro, mas ama a Suécia. Enfim, sua vida tende à contradição. Talvez por isso ele torça para o Flamengo e adore o seriado Blue Bloods.

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