
Parece que o áudio está consolidando sua participação no mercado editorial do Brasil. No mundo, já é uma realidade. Creio que retratei esse ciclo nos últimos anos. Relendo minhas colunas no PublishNews, desde 2018 com o “Papel, tela, fone de ouvido”, passando por “ A voz do livro, o livro da voz” e “A voz, o clone”, em 2021, “O retrato da voz”, de 2022, e, de 2024 a 2026, “Tempo de leitura”, “Vox Dei”, “Bilac e o rap”, “Fotografia, voz e tecnologia”, penso ter retratado esse trajeto.
Nesse período, comecei a questionar detalhes do audiolivro, como os contratos, a narração, a mudança de hábito do olhar para a escuta, os aparelhos de leitura, a criação da voz artificial. Hoje, a voz sintética já traz variação de gênero, sotaque, entonação, idade, emoção. Temos uma história.
Em 19/07/2018, escrevi que “agora os fones de ouvido sem fio do iPhone 7 surgem como ‘longa auris’ de uma geração. Portanto, os contratos de e-books podem ter novo componente, o de licença de uso de voz de locutor. No campo das infrações, a reprodução de uma voz imitando o timbre de alguém famoso pode ser uma ofensa ao direito de personalidade, só que em vez de cópia de imagem teremos cópia fraudada de voz, o que pode gerar direito a indenização. Vai ter muita gente de orelha quente; ouvintes e escritores, e muita gente de orelha em pé; advogados e editores.”
Em 28/06/2021, destaquei: “As estatísticas apontam crescimento do consumo de audiolivros, podcasts e e-books, no mundo e no Brasil. Os motivos são vários: as gerações multitarefas justificam o título enquanto ouvem um livro, a possibilidade de aceleração a voz da narração (e encurtar o tempo de escuta), a praticidade dos fones de ouvido que permitem ouvir o conteúdo em qualquer lugar, e não ser necessário espaço para guardar uma biblioteca de audiobooks ou e-books. Portanto, novas cláusulas vão surgindo, seguindo os novos modelos do mercado editorial. Achei curioso constar de contrato de edição que a leitura deve ser sequencial, sem emoção, não dramatizada. Parece que a audionovela vem aí.”
No artigo publicado em 13/07/2021, surge a preocupação com o lado negativo da inovação: “A nova tecnologia pode, num mundo em que o reconhecimento vocal serve como fator de identificação humana, comprometer a segurança de conversas telefônicas, diálogos por aparelhos, autorização de operações financeiras, abertura de fechaduras eletrônicas e muito mais.”
Em 10/02/2022, imaginei uma novidade, a citação vocal do biografado, na sua biografia em áudio. “Assim, é possível que o audiolivro conte determinada passagem a respeito de um biografado, ou de um personagem, e esta seja complementada por uma citação em áudio original do protagonista. Do mesmo modo que a fotografia ilustra o texto escrito, a citação, a transcrição de trecho com voz original realça a narrativa, dá outro patamar sonoro, é um “retrato auditivo”."
Já no artigo publicado em 19/11/2024, identifiquei uma nova métrica para a leitura: “Essa medida temporal de leitura, ao invés de páginas, faz parte da mudança de suporte da obra literária, do papel para o e-reader ou aparelho de áudio, com a curiosidade, por exemplo, de uma citação de trecho da obra publicada em formato de áudio ter que ser feita em tempo padrão de narração do livro, já que a velocidade da voz pode ser acelerada. O fato é que as novas tecnologias trazem como unidade de medida de leitura, além das páginas do livro, o tempo de consumo das obras. Pode parecer incômodo aos cubicularistas, mas é uma realidade do setor, que traz novos desafios e hábitos, e facilita a difusão do conhecimento.”
Em 06/03/2025, voltei a atenção para a transmissão da Voz dos Papas pelo Vaticano. “Mas destaco aqui a possibilidade – que me agrada como curioso sobre línguas – de ouvir as notícias do Vaticano em latim (!), no link “a semana do papa”, a “Hebdômada Papae”. Hebdômada vem do grego semana, sete dias; hebdomadário, jornal semanal... Esses arquivos constituem mais um sinal do crescimento da voz como meio transmissor de conteúdo, fato que só foi possível no início do séc. XX, com o registro sonoro das expressões vocais humanas, viabilizado pela eletricidade.”
Em 14/11/2025, variei no tema. “Tive o prazer de ver, ao longo da novela Vale Tudo, protagonistas lendo livros em posição de clara exibição das capas, cenas que no dia seguinte fizeram disparar as vendas das obras cuja leitura era mostrada na tela. Ótima forma de uso de merchandising em prol da difusão do hábito literário no país. A exibição, com prévia consulta ao titular, do audiovisual Ora direis ouvir estrelas, que o grupo “parnarappers” divulga no Instagram, apresentando o célebre poema de Olavo Bilac em ritmo de rap, com encenação no estilo contemporâneo. Trata-se de original e meritória criação do publicitário Gabriel Gil, que veicula, em estilo de rap, poemas brasileiros do século 19. Como cativar novos leitores?”.
E bem mais perto do que temos hoje, em 15/01/2026, escrevi sobre a “tecnologia TTS (text to speech, isto é do texto para a fala). Aparelhos ou aplicativos convertem rapidamente o texto escrito em áudio falado, e a cada dia a inteligência artificial aprimora a oferta de produtos, como Natural Reader, ReadAloud, Listening.com, Eleven Labs, e vários outros, disponíveis de forma crescente. A questão é, ou deixa de ser: a etapa de produção do audiolivro se dará de forma automática, ocorrendo com o produto final o mesmo que ocorreu com as fotos?”
É isso. Em oito anos, as editoras brasileiras partiram da curiosidade cautelosa em relação ao audiolivro para uma prática bem disseminada hoje: o lançamento do audiolivro emparelhado com o livro impresso. Isso se reflete nos contratos, que tratam também de tipo e tom de voz, cadência da leitura, fidelidade ao texto original. Como será a edição princeps de um audiobook? A tecnologia das vozes sintéticas evoluiu muito, incorporando o hábito de ditados, ordem a assistentes virtuais, e valorizando os narradores humanos.
Em debate na London Book Fair desse ano, discutiu-se a diferença (?) entre leitores e ouvintes (listeners and readers). Viu-se que está se estreitando esse gap, pois o audiolivro está crescendo e prazerosamente sendo acolhido nos espaços do livro impresso, como instrumento complementar do hábito da leitura.
O fato é que, sem querer, fui descrevendo nas colunas o surgimento dessa suave e intensa invasão, a mudança da desconfiança para a atenção, e agora para um germe de medido entusiasmo. Ainda temos a tradução automática de discursos, e a reprodução de voz natural, a partir de pequena execução.
Hábito, tecnologia, evolução, leitura, novos leitores, conhecimento, emoções. Num momento em que o segundo quarto de século traz uma possível — e terrível — guerra mundial e uma volta em torno da Lua, a Terra dá sinais de que o ser humano criativo, curioso tem seu crescente lugar na sociedade. Quem sabe ouvindo estrelas!
Gustavo Martins de Almeida é carioca, advogado e professor. Tem pós-doutorado pela USP. Atua na área cível e de direito autoral. É também advogado do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e conselheiro do MAM-RIO. Em sua coluna, Gustavo Martins de Almeida aborda os reflexos jurídicos das novas formas e hábitos de transmissão de informações e de conhecimento. De forma coloquial, pretende esclarecer o mercado editorial acerca dos direitos que o afetam e expor a repercussão decorrente das sucessivas e relevantes inovações tecnológicas e de comportamento. Seu e-mail é gmapublish@gmail.com.
** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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