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E o Cid Moreira
PublishNews, Paulo Tedesco, 24/01/2022
Em nova coluna, Paulo Tedesco fala sobre os diversos sotaques no jornalismo, no audiovisual e na escrita

Lembro-me dos debates e críticas necessárias, lá nos 1980/90, à “cidmoreirização” de praticamente todos os telejornais locais e nacionais em TV aberta. Sim, Cid Moreira era quem abria o Jornal Nacional da poderosa, dominadora, e carioca Rede Globo de televisão. Se fosse retransmissora da Globo, ou mesmo telejornal ou documentário de outra emissora, o jornalista tinha que imitar o Cid Moreira em tudo. Sendo que as mulheres dificilmente guardavam assento nos jornais, exceto nos de variedades, como Fantástico e telejornais matutinos.

A audiência massiva da líder incontestável de audiência, no único tipo de televisão, a televisão aberta e captada por antenas externas e internas, chegava a também “carioquizar” o resto país com um suposto sotaque da zona sul carioca, fazendo com que puxar o “r” e o “s” fosse algo bonito e repetido. E não, esse sotaque não era necessariamente de todo morador do Rio, mas uma variante dos sotaques que se distinguia, mais exclusivamente, na zona sul da cidade como Ipanema, Copacabana, Leblon, Leme e outros.

As poderosas telenovelas Globais também propagavam o “falar carioca”, fazendo com seus diretores e preparadores de artistas proibissem outros sotaques de outras regiões. Falar na grande Globo com sotaque pernambucano, baiano, paulistano, gaúcho da fronteira, goiano, era somente dentro de um acordo prévio com o diretor e roteirista, e ainda assim com maneirismos muitas vezes beirando o ridículo.

Bom, hoje, quando ligamos a TV e encontramos Ivete Sangalo soltando o “baianês” ou um humorista abusando livremente do paulistano da Mooca ou Bixiga, poucos devem se recordar de que isso seria heresia na telinha – simplesmente não podia. E o choque, quando outro canal de TV, a Rede Manchete, trouxe a novela O Pantanal? Quando outros sotaques apareceram, com outras paisagens e reviraram o meio novelístico, incomodando os índices da TV Globo como nunca antes visto, o abalo foi tal que mesmo décadas depois ainda O Pantanal repercute.

Pois as transmissões de novelas e telejornais massivos estão com seus dias contados, tal como a carioquização falseada, e inclusive o futebol como esporte único da nação, ao menos na televisão aberta. A fragmentação e produção do acesso ao conteúdo conseguiram descentralizar os discursos e as produções, e trouxeram não somente outros sotaques, mas embaralharam também outras línguas com outros falares, a exemplo de gírias, dialetos, idioletos e principalmente a língua inglesa, que, por enquanto, é avassaladora em todas as instâncias da vida cotidiana.

Dia desses, vi uma boa discussão sobre os sotaques regionais serem dialetos e se deveríamos nos utilizar das gírias ao escrever. O assunto que é antigo e quase acadêmico agora estava ali, aberto, recheado de opiniões e sugestões, e até sugestões bibliográficas. Portanto, acabou não só a cidmoreirização da comunicação brasileira, mas também qualquer espaço para platitudes e obviedades quando se escreve e se publica. Enfim, não dá para pular no mar das ideias sem técnicas de sobrevivência, o autor se afogará com certeza, e não será na glamorosa Copacabana da Globo.

Paulo Tedesco é escritor, editor e consultor em projetos editoriais. Desenvolveu o primeiro curso em EAD de Processos Editorais na PUCRS. Coordena o www.consultoreditorial.com.br (livraria, editora e cursos). É autor, entre outros, do Livros Um Guia para Autores pelo Consultor Editorial, prêmio AGES2015, categoria especial. Pode ser acompanhado pelo Facebook, Twitter, Instagram e LinkedIn.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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