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Dar cabo das Tormentas e virar a Boa Esperança
PublishNews, Julio Silveira, 30/04/2021
Portugal reabre livrarias e editoras brasileiras já podem participar da retomada

Fachada da Livraria da Travessa de Lisboa: filas de pessoas aguardavam a reabertura depois do fechamento imposto pelas autoridades sanitárias no país | © Divulgação
Fachada da Livraria da Travessa de Lisboa: filas de pessoas aguardavam a reabertura depois do fechamento imposto pelas autoridades sanitárias no país | © Divulgação
Ser um colunista bissexto (ou, vá lá: relapso) me dá certa perspectiva. Ao reler o que publiquei aqui, com distância de seis meses entre um relato e outro, vejo como foram abruptas e instáveis as mudanças, tanto na situação quanto nas expectativas.

Faz um ano que publiquei aqui um relato sobre o livro e a vida em Portugal. O tom era quase lacrimoso, como o dos derradeiros fados da madrugada. “Vamos todos ficar bem”, é o que se lia nas janelas (quando nem se podia sair de casa), mas nada indicava que isso iria acontecer. Especialmente quanto ao livro, o que se achava é que todos ficariam bem… mal. Naquele mês computou-se uma queda de 83% frente ao ano anterior na venda de livros e, com livrarias fechadas por decreto, a perspectiva era — para empregar a estranha palavra que o vírus consagrou — que tudo “colapsasse”.

A coluna tentava oferecer um pouco de “resiliência” (outra palavra infecciosa da época), falando de terremotos e marqueses, e sinalizando, como um vaga-lume ao fim do túnel, que a Feira do Livro de Lisboa fora confirmada para o agosto seguinte.

E, meses depois, esta coluna voltava ao PublishNews para dar conta de nossa luminosa participação na Feira do Livro de Lisboa, e seu título — "o livro vence o vírus" era eufórico… e precipitado. O ano virou especialmente cruel em Portugal, que de repente era o país mais infeccioso da Europa (agora é o mais saudável). As livrarias logo foram obrigadas a uma penosa hibernação. No meu quarteirão lisboeta há três livrarias (pois é), duas pet shops e uma head shop (loja de produtos feitos a partir da maconha). Até o mês passado, eu poderia comprar uma coleira ou algumas gramas de sativa, mas estava proibido de adquirir livros. Livrarias não vendiam “produtos essenciais” e assim tinham que permanecer encerradas. A situação ficou ainda mais kafkiana para os livreiros quando se permitiu vender livros, tão somente, em hipermercados (que já comiam 40% do varejo do livro).

Mas enfim o comércio livreiro desabrochou. Havia gente (socialmente distanciada) à porta da Travessa de Lisboa esperando para entrar no primeiro dia de liberação e as filas se repetiam em outras livrarias, mesmo quando já não havia o limite de cinco fregueses por vez.

Estamos em outro abril e há promessas de agosto. A Feira do Livro de Lisboa voltou a ser confirmada e, desta vez, reservei dois estandes (com vontade de reservar mais dois). Isso indica como o clima está positivo. Mas, como se diz aqui, “vamos a ver”.

Se não se cumpriram as previsões catastróficas — os números até que vão bem, obrigado — a epidemia incutiu no mercado algumas mudanças, infeccionado alguns segmentos e fortalecendo a imunidade de outros.

Livraria Barata powerd by Fnac: a gigante de origem francesa viu a importância de pontos de venda na rua, fora dos shoppings | © Facebook da varejista
Livraria Barata powerd by Fnac: a gigante de origem francesa viu a importância de pontos de venda na rua, fora dos shoppings | © Facebook da varejista
Vejam-se as livrarias, onde as consequências foram desiguais. Quem estava mais alto, teve a maior queda. As redes Bertrand e Fnac, que detêm outro naco gigante do mercado livreiro, sofreram com o fechamento dos shoppings, onde estão quase todas suas unidades. E tome-se o caso da Ler Devagar: há dois anos seu imenso espaço vivia coalhado de gente e a livraria era a principal atração da hipster-chic LX Factory. Seu público foi dizimado pela proibição da entrada de turistas e pelo confinamento dos lisboetas. A discreta e histórica Livraria Barata já conta outra história. Ela, que antes contemplava a falência, saiu revigorada. Conseguiu manter-se aberta (por conta de uma tecnalidade) durante o lockdown e atraiu leitores órfãos. A Barata também contou com uma parceria da Fnac, que nessa situação viu a importância de pontos de venda na rua, fora dos shoppings. Aliás, e pelo mesmo motivo, a Bertrand, concorrente direta da Fnac, reformou e reinaugurou uma loja, na mesma calçada da Barata.

Se a epidemia acabou por revigorar as livrarias de bairro, também fortaleceu o segmento oposto, o das lojas on-line. Se em 2020 o mercado duvidava da capacidade do e-commerce, sempre marginal e incipiente em Portugal, pode-se dizer que os clicks fizeram a diferença fundamental. As editoras, como ocorre no Brasil, passaram a vender diretamente. (Para expiar certa culpa corporativista, algumas, como a Antígona e Orfeu Negro, ofereciam “comissões” para livrarias físicas em livros que vendiam a leitores, sem intermediação). Os marketplaces, como a Dott e o onipresente OLX, expandiram, aproveitando a ótima infraestrutura logística local.

Da nossa parte, sentimos os efeitos imediatos da reabertura das livrarias. Por um lado, o on-line, nossa loja, nossa loja, que vinha bastante animada, sentiu um declínio abrupto nas visitações. Pelo outro, passamos a receber mais pedidos e consultas de livrarias físicas. A lição é clara: o e-commerce complementa o amor português pelos livros, mas o coração luso está nas livrarias.

Enfim, é outro abril e é outra a sensação. Já não preciso inventar alentos nem esperar que “todos ficarão bem”. No Brasil, ainda não há luz no fim do poço, mas aqui em Portugal, ouso dizer que troquei as (fracas) esperanças pelas (boas) expectativas. Nossos negócios por aqui apanharam, junto com toda a economia, mas ganharam imunidade e (desculpem o termo) “resiliência”.

Enquanto encontrávamos e formávamos nosso público, fomos aperfeiçoando um sistema mais robusto e poderoso, integrando gráficas, logísticas, canais de venda e promoção. Esse sistema, uma plataforma para editores brasileiros operarem o mercado europeu (e Angola) a partir de Portugal, começa hoje a aceitar editoras brasileiras, que podem saber mais e se candidatarem aqui.

E, enquanto escrevo esta coluna, recebo o convite para a Feira do Livro de Belém, realizada por iniciativa do presidente (ex-editor e semeador de bibliotecas), nos jardins do Palácio da República (alguém imagina uma feira do livro nos jardins do Palácio da Alvorada?). Será em junho, quando os portugueses, pessimistas por “default”, acham que estarão imunes e livres. Tudo indica que daqui a seis meses, quando este preguiçoso articulista enviar sua próxima coluna quinzenal, não haverá mais uma reversão de expectativas. Esperemos… ou melhor: trabalhemos!

Julio Silveira é editor, escritor e curador. Fundou a Casa da Palavra em 1996, dirigiu a Nova Fronteira/Agir e hoje dedica-se à Ímã Editorial, que investiga a publicação digital e transmídia. Dirige o projeto “NossaLíngua.Doc” que documenta e estimula as conversas mundiais em português, em mídia social, livros e filme. É promotor de festivais de literatura e atual curador do LER, Salão Carioca do Livro.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

Tags: portugal
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