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Crise dos livros, festa das leituras
PublishNews, Henrique Rodrigues, 07/12/2018
Em sua coluna, Henrique Rodrigues analisa outros lados da cadeia produtiva da literatura

Certa vez, esbarrei com o saudoso Bartolomeu Campos de Queirós no aeroporto, poucas semanas antes de ele nos deixar. O escritor já estava bem cansado, mas não deixava de frequentar eventos para promover a leitura. Começamos a jogar conversa fora e, como estivesse diante de um mestre, pedi alguns conselhos sobre ler, escrever e publicar. Depois fiquei com aquele verso do Bandeira na cabeça: “todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir”.

Do nosso papo, o querido Bartô deu um grande ensinamento de que nunca me esqueci: “Tirando algumas exceções, como aqueles autores que ganham muito em contratos de exclusividade, não vale a pena publicar só por uma editora. Pequenas, grandes, médias, todas vão ter alguma lacuna. Uma não paga direitos autorais, outra não distribui nem divulga, outra não atende o autor etc. Mas o problema de uma não existe na outra e, no geral, ficam elas por elas”. Depois desses anos, e tendo publicado por diferentes editoras, confirmo que é por aí mesmo. E tentamos ser felizes com o que há de positivo. Mesmo porque a justificativa que circula é sempre aquela: a crise.

Caramba, desde que me entendo por gente escuto que estamos em crise, e em todos os setores. Mesmo levando em conta que ela é mais acirrada em alguns momentos, como parece ser agora, sempre fiquei com a sensação de que se trata de algo relativo, não absoluto. E de fato, parando para olhar com calma, realmente a situação não é de terra arrasada. Observando apenas alguns fatos e notícias das últimas semanas, durante uns pulos aqui e ali, vi o seguinte quadro:

- Saraiva pede recuperação judicial, devendo milhões para grandes editoras. Não sou especialista nessa área, mas essas megastores até vendem livros no meio de tanta coisa. A literatura brasileira ficava bem escondida, só com uma estantezinha, onde muitas vezes os destaques eram os best-sellers da hora. Nesses casos, lamento mais pelos funcionários que venham a ficar sem trabalho.

- Livraria da Travessa abre loja em São Paulo e Lisboa. Nós, leitores e autores cariocas, amamos esse espaço onde o clima é voltado para a leitura, o diálogo, os livros em si na sua diversidade. E com funcionários que entendem do assunto. Só falta ser como a parisiense Shakespeare and Company e ter um cafofo pra gente pernoitar. 

- Aliás, livraria e bar combinam pacas. A turma chegada aos livros também gosta de beber. Em São Paulo tem a Patuscada, livraria que é um bar. E a Mercearia, mais ou menos o contrário. Escrevo aqui de Vitória, onde a pequena editora Cousa, sustentada no tripé livros-café-cerveja, se tornou um ponto de encontro obrigatório para quem mora ou passa por aqui. E está expandindo os negócios, para a nooossa alegria.

- Editoras grandes estão publicando menos literatura brasileira, especialmente a “não comercial”. Ora, e quando foi muito diferente? Não precisa ser expert no assunto para saber que, na prática, existe um tipo bizarro de divisão entre “livros para vender” e “livros para prêmio”. Esses últimos, onde estão categorizados os livros que supostamente exigem um leitor mais especializado e em extinção, são aqueles que vendem mil exemplares e soltamos fogos.  E nem quando ganham prêmios a situação muda. Publiquei aqui um artigo sobre isso. Uma exceção muito bem-vinda foi a pesada e eficaz campanha de marketing que a Companhia das Letras fez com O sol na cabeça, do conterrâneo Geovani Martins, mostrando que é possível ter retorno com o autor brasileiro, e não o tratar como um cotista do mercado.

- Eventos literários continuam acontecendo. Sim, desde que o modelo de feiras foi se moldando para o conceito de festa, a questão das vendas de livros deixou de ser uma causa e passou a ser consequência. Desse modo, é muito comum que os autores circulem levando na mala os próprios livros e vendam para quem se interessar após debates ou apresentações. Isso tem sido muito comum, especialmente na rede Sesc (se você é de São Paulo ou outra capital, talvez encontre outro tipo de situação), por conta da ausência de livreiros locais. Fizemos em Arcoverde (PE) o Farpa – Festival Arte da Palavra, encerrando o circuito nacional de mesmo nome, e a energia de ver autores de todos os tipos de editoras, cordelistas, rappers, slammers, contadores de  histórias nos mostrou como a literatura brasileira está rica, diversa e pulsante.

- Amazon lança antologias digitais negociadas diretamente com agentes literárias. Um baita projeto de marketing (os caras são especialistas nisso, pois pagaram até a ida de jornalistas para cobrir o lançamento) faz com que 30 ótimos autores possam ser lidos por uma mixaria. As possibilidades de leitura efetiva são grandes, especialmente por ser um projeto totalmente online, e espero que façam uma boa mediação nesse sentido, para não ficar só no cacarejo e sim fazer eclodir o ovo. 

Poderia continuar citando várias evidências paradoxais dessa crise da semana, do mês, do semestre. Mas circulando por aí, me parece que os problemas de um setor não existem ou não afetam tanto outros. E se por um lado o setor de comércio tradicional de livros está passando por uma situação difícil que prejudica sobretudo seus ricos proprietários, por outro a sede e fome de escrita e leitura está cada vez mais viva. E como um rio, ou um verso na garganta, ela sempre vai dar um jeito de desembocar. 

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa Oi Kabum!. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 13 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance O próximo da fila (Record), publicado também na França. Site do autor: www.henriquerodrigues.net   

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