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Literatura, amizade e a síndrome das tretas
PublishNews, Henrique Rodrigues, 24/08/2018
Em sua coluna, Henrique Rodrigues avalia os limites das relações profissionais e humanas no turbilhão da vida editorial brasileira

Durante a recente Bienal do Livro, ouvi do escritor e ativista ambiental João Meirelles Filho algo que me acompanhou por um bom tempo, ressoando até agora quando teclo estas linhas: “São Paulo é como um buraco negro, que consome tudo ao redor sem saber o que está comendo, e a qualquer hora vai ter uma dor de barriga daquelas”.

A imagem, de tão realista, adquiriu ao longo dessas semanas outros matizes, além daqueles sobre recursos naturais e financeiros, aos quais o autor se referia enquanto conversava com o público. Penso que, por diversos fatores, recentemente acabou se formando um bizarro centro gravitacional que atrai com avidez todos os assuntos e ideias, que mal se formam e já são absorvidos numa espiral, como um ralo gigante e invisível. Claro que, tendo cruzado a esquina da metáfora, não falo mais da capital paulista, e sim das redes sociais e sua fome incessante de conteúdos e conflitos.

Nas últimas semanas, parece que um vento de urucubaca varreu o pensamento e o diálogo entre diversos setores da área, tendo como arena, além de páginas e telas de jornais, o Facebook e seus campos de comentários. De curadores de eventos discutindo para ver quem foi mais inovador a resenhistas afirmando que autores morrem de medo de avaliações negativas; de acusações ressentidas de que toda a vida literária brasileira não passa de uma rede sinistra de apadrinhamentos espúrios a reclamação de consagrado sobre ter gente demais escrevendo; de acadêmicos defendendo aos brados sua profundidade de trabalho em detrimento do mundo superficial do mercado ao choque por valores cobrados por booktubers para fazer divulgação de livros. Tudo amplamente assistido com as democráticas possibilidades de interação, no conforto da distância que, hoje, só as redes sociais permitem. E tome treta!

Logo após a Bienal, estive na segunda edição da Flipelô – Festa Literária do Pelourinho. Aliás, foi bem interessante a sequência de eventos, iniciada com a Flip. Cada um desses projetos possui uma cara diferente, públicos distintos em volume, faixas etárias e estratos sociais – mas todos com um aspecto muito positivo em comum: gente interessada em ler, ouvir e falar sobre livros e ideias. Num tempo de vacas macérrimas, com torneiras fechando de todos os lados, reunir pessoas em torno de uma prática que parece tão dispensável segundo a nossa tradição é, de fato, um milagre cultural.

No evento soteropolitano, me incumbiram de mediar a mesa chamada A amizade é o sal da vida, que tratava justamente da relação entre Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro. Entre as muitas histórias lembradas por Geraldo Carneiro e Paloma Jorge Amado, teve destaque o episódio em que o autor de Viva o povo brasileiro ligou de madrugada para a casa do amigo, que já estava debilitado e sem vontade sequer de abrir os olhos, apenas para contar uma piada, sabendo que iria cair na secretária eletrônica e seria ouvida sem intermediários. Esse cuidado, marcado por uma ligação quase de pai e filho, pode parecer algo bem distante hoje em dia.

Se as relações entre escritores, editores e jornalistas se assemelham a uma pequena feira de trocas de favores salpicada por puxa-saquismos contumazes, não tardará quem diga que relações de afetos literários bastante conhecidas sejam revisitadas como broderagem galopante.

Talvez o maior exemplo seja da amizade entre Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, que não hesitavam entre realizar a auto e interpromoção, especialmente por meio de cartas. Este último, aliás, se lembrou de como se dedicou a cavar espaço para outra escritora amiga, Clarice Lispector, conforme relata no seu livro O tabuleiro de damas: “Tornei-me uma espécie de agente literário de Clarice no Brasil. Andava às voltas com editoras para os seus livros e encaminhando seus contos para revistas”. Mais tarde iria encaixá-la da editora Sabiá, aquela panelinha formada com Rubem Braga. E o que não dizer das costas quentes que Mário de Alencar teve com Machado de Assis, cujo protecionismo poderia esconder que o fundador da Academia Brasileira de Letras na verdade era seu verdadeiro pai, e não José de Alencar. É faderagem!

(Ainda na triste e atual esperança de que a leitora tenha percebido a ironia do parágrafo anterior, porque infelizmente é preciso demarcá-la de forma explícita, na falta de um sinal ortográfico próprio, como já disse o Millôr Fernandes, continuo.)

Desde que me entendo por gente ouço que estamos vivendo uma crise. E talvez a do momento seja da grande dificuldade de entender o que se passa além do grupo do qual cada um faz parte. Creio que esse termo da moda, “bolha”, seja até insuficiente para dar conta do problema, porque designa uma esfera líquida que estoura fácil, e então as redomas desapareceriam. No caso dos envolvidos nessas tretas, parece haver uma necessidade de autoafirmação do próprio trabalho pelo dedo apontado a outros setores, cujas existências possuem outras regras de funcionamento. Talvez ainda precisemos de um tempo para descobrir que a malha editorial é cerzida com linhas diferentes, com segmentos que geram mais uma colcha de retalhos que um tecido monocromático. Cada pedaço de pano tem, ou deveria ter, o seu espaço e sua relevância no país-Emília.

Obviamente, a discussão e o debate são fundamentais sempre, mas se trata de outra coisa que não apenas a saudável e normal discordância. De combater o impulso do ódio impregnado nas certezas, de alimentar os algoritmos que parecem construir aquele buraco negro que consome as opiniões, os comentários, as ideias. Senão vamos acabar como aquele indivíduo que, ao visitar a exposição de arte, caiu num fosso pensando se tratar de uma pintura.

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa Oi Kabum!. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 13 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance O próximo da fila (Record), publicado também na França. Site do autor: www.henriquerodrigues.net

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