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Temas transversais – Todo mundo está entendendo?
PublishNews, 12/09/2012
Temas transversais – Todo mundo está entendendo?

Para quem não conhece, de forma simplíssima, temas transversais são temáticas sobre valores sociais, que devem permear livros educativos, para uso dos professores em sala de aula. Praticamente todos os livros adotados pelos programas do governo devem estar alinhados com estes temas. Os valores são ética, orientação sexual, pluralidade, entre outros. A ideia é que todos os professores apliquem esses conceitos durante suas aulas, seja de História, Matemática ou Geografia. Mas, na prática, isso é eficiente? O que pude observar na minha experiência em salas de aulas e com colegas professores é que os valores transmitidos são, muitas vezes, derivados de crenças pessoais, sem relação com um conceito mestre, em especial, de aplicação.

Nos livros, assim como nos filmes em que se destacam componentes educativos, esses temas transversais aparecem, como o próprio nome indica, de forma indireta, não como tema central. Mas há duas perguntas que me faço há alguns anos: será que a criança entende a segunda mensagem? E, mais importante, será que sabe por que está recebendo aquela orientação?

Como meu tema são os filmes, trago aqui três exemplos em que temas transversais aparecem, e nas comunicações que se fazem sobre eles são amplamente destacados na imprensa:



“V de Vingança” - Uma história sobre um homem que se revolta contra o sistema que, por conta de uma experiência perversa, o deixou desfigurado. Ele se recupera e cria um plano para se vingar. Como? Abrindo os olhos das pessoas contra a manipulação dos poderosos. Na história há vários fatos relevantes, sobre a indústria que cria a doença, o doente e a cura a preços excessivos; sobre a busca da liberdade e segurança, pelas quais acabamos por oferecer parte de nosso direito de escolher; e até sobre como observar a mentira por trás das notícias, ensinando os expectadores a analisar linguagens diversas, além da mensagem falada etc. Em fóruns de discussão não especializados vi gente comentando que a principal proposta era sobre anarquia e apenas se divertindo com a transgressão apresentada no filme. No entanto, esse filme é baseado num livro que pode ser considerado arte. Há política, cultura geral, história e psicologia do poder espalhadas em sua trama, abordadas de forma mais ou menos direta. Referencias à 2ª guerra, ao nazismo, ao capitalismo, ao diário de Anne Frank, enfim, mas raramente vejo isso ser observado pelo público em geral.

“Happy Feet” – Em algum lugar na Antártica, pinguins vivem numa sociedade em que são valorizados pelo canto. Ali, um pinguim nasce sem ter essa habilidade, mas sabe sapatear como nenhum outro. Ele é rejeitado, tornado motivo de vergonha e excluído, até que decide partir. No caminho, é apanhado por um navio que o leva até o continente, acaba sendo colocado num aquário e os humanos percebem, ao descobrir suas habilidades, que ele quer mostrar algo. Colocam nele um rastreador para tentar entender o que estaria acontecendo com seu habitat e que trauma teria ocorrido para que ele aprendesse a sapatear? Bem, os humanos então decidem seguir o pinguim até a baía de sujeira e destruição que, produzida nos continentes, chegou aos pólos frios e começou reduzir o alimento da espécie. O pinguim dançarino volta como herói, e todos os outros aprendem a dançar. Os temas inseridos aqui são “lidar com a diferença” e “ecologia”, mas, para a maioria, é apenas um grande musical.

“X-men” – Na Terra, algumas pessoas passam a nascer com poderes especiais, dos mais variados tipos. Logo, parte da população inicia uma caçada, com receio de não ter meios para controlar essa população diferente. Acuados, os mutantes começam a se organizar, a fim de lutar pela própria vida e liberdade. Instaura-se então a guerra. Tratado como entretenimento, mensagens sobre respeito, política, direitos humanos são o que não faltam, mas quem observa isso?

Trouxe esses três filmes para discutir aqui um assunto que me inquieta há um bom tempo: a mensagem transversal é realmente compreendida? Nosso índice de compreensão cai cada vez mais, em termos percentuais. Aí estão os índices assustadores de analfabetos funcionais, de pessoas que leêm mas não entendem, 38% entre universitários, e calcula-se 75% entre a população em geral. Pergunto: isso seria diferente nos filmes? Ok, claro, vamos deixar esses filmes de lado, eles não foram criados para educar, mas então, seria diferente nos livros? Algo colocado de forma indireta é suficiente para educar?

Acho que não. E temo que essa idéia da transversalidade tenha surgido como forma de incluir fragmentos de vida social na educação escolar de forma mais sutil - não sei se para evitar que se transformasse num tema chato, se foi para evitar que os pais reclamassem que o Estado estava interferindo na educação de seus filhos com valores diferentes dos seus, ou para driblar alguns entraves de legislação -, mas acredito que vale a pena estudar, diante de tantos sinais de baixa capacidade de cognição geral e se há indicação de que não alcançamos bons resultados, talvez tenhamos de ser mais diretos. Penso que, num mundo ideal, ao invés de criar matérias sobre Pluralidade, Desenvolvimento Sustentátel, etc, bastaria uma máteria chamada A Arte de Observar. Ensinar às crianças a ler subtextos, a entender tramas tantos dos poemas quanto da vida, da política, do julgamento dos 40 ladrões, da filosofia por trás da criação de uma política afirmativa, enfim, questões cujo sentido não revelados na superfície dariam conta de atender ao desenvolvimento geral, e preparar as crianças ainda mais para a vida, além das matérias escolares. Mas aprendi que nessas questões, devemos dar um passo de cada vez. Seria uma utopia agora.

Penso que esses temas transversais, que hoje a maioria compreende como importantes e pertencem a esfera da Educação para uma sociedade que busca evoluir, deveriam ser matéria mesmo, não tema paralelo, onde não se sabe se foi, na sala de aula, efetivamente discutido ou se por gente preparada igualmente de forma indireta.

Não atuo diretamente no campo da educação escolar (e talvez por isso perceba tanto essa dificuldade na compreensão do tema), mas penso que é válido discutir se os efeitos da transversalidade são sentidos, se algo realmente sólido fica na formação do caráter das crianças, pois o que lemos a cada dia é sobre capacidade de absorção dos leitores adultos é que os temas comuns chegam a ficar complexos para boa parte da população adulta. E porque seria diferente com as crianças?

Minha questão é que, se há uma crença de que esse método é eficiente, mas ele possa não ser, nada mais será feito. Enquanto pais e professores entregam às crianças livros e filmes e esperam que eles entendam esses temas, podem incorrer no risco de que o problema, a Educação, está resolvida. Mas e se não estiver? Basta ver pesquisas ligadas à qualquer pluralidade para perceber que nada mudou e, na maioria dos casos, pais e professores aplicam os seus conceitos pessoais nestes temas. Quando tudo fica transversal o compromisso também o é.

Até a próxima coluna. Se quiserem fazer comentários mandem para o meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com.

Pedro Almeida é jornalista e professor de literatura, com curso de Marketing pela Universidade de Berkeley. Autor de diversos livros, dentre eles alguns ligados aos animais, uma de suas paixões, trabalha no mercado editorial há 20 anos. Foi publisher em editoras como Ediouro, Novo Conceito, LeYa e Lafonte. Atualmente inicia uma nova etapa de sua carreira, lançando a própria editora: Faro Editorial.

Sua coluna traz exemplos recolhidos do cinema que ajudam a entender como funciona o mercado editorial na prática. Como é o trabalho de um ghost writer? O que está em jogo na hora de contratar um original? Como transformar um autor em um best-seller? Muitas dessas questões tão corriqueiras para um editor são o pano de fundo de alguns filmes que já passaram pelas nossas vidas. Quem quer trabalhar no mercado editorial encontrará nesses filmes algumas lições importantes. Quem já trabalha terá com quem “dividir o isolamento”, um dos estigmas dos editores de livros. Pedro Almeida coleciona alguns exemplos e vai comentá-los uma vez por mês.

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