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A arte na não ficção
PublishNews, 30/05/2012
A arte na não ficção

Como sou um editor com maior experiência em livros de não ficção, sempre observei a existência de uma noção comum de que a arte, a qualidade artística em livros, é atributo exclusivo dos livros de ficção. Que a verdadeira arte era resultado de um processo longo e de criatividade ficcional, de forjar cada estrofe ou parágrafo e palavras, como na criação de uma pequena joia. Não havia me dado conta de quantas coisas essa ideia exclui, e hoje trago exemplos para mostrar que, em muitos casos, a não ficção – o que inclui um universo imenso de assuntos, dentre eles os livros de caráter utilitário, os maltratados autoajuda (como se quase todo livro não o fosse) –, não raro é mais complexa e dá muito mais trabalho para ser escrita.

Não sei de onde surgiu essa ideia, e meu propósito aqui não é desvendar essa origem, mas falar das questões práticas que ela acarreta. Recordo, em minha experiência na universidade, que o poema de Fernando Pessoa (“O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente”) era tomado como se toda poesia fosse ficção e toda ficção fosse arte. Sei que essa era uma forma de reduzir o verso de Pessoa, mas foi um marco na minha experiência e algo que depois eu veria ser constantemente afirmado no universo editorial. Onde e como? Nas escolhas pelos críticos dos livros que devem ser resenhados; nas entrevistas dos programas de literatura; no tipo de retrato que se faz do escritor, quase sempre onde o personagem vive rodeado por estantes, se possível de livros raros. Ou ainda naquela imagem do escritor que vive contemplando a vida, como uma espécie de dandi. Existe lugar mais comum? Essa idéia sobre arte exclui a arte dos demais gêneros que não a ficção, como reportagem, política, economia, autoajuda, textos espirituais etc.

O filme que trouxe para ilustrar esse tema é “O show de Truman: o show da vida”, lançado em 1998, tendo Jim Carrey em seu principal papel dramático até então. O filme foi o primeiro a tratar do fenômeno que iria inundar as TVs, os reality shows. Mas a história se torna forte pelos aspectos éticos e pela discussão que provocou. Truman foi um bebê adotado por uma corporação para ser personagem de um programa de TV. Sua vida é filmada 24 horas por dia. Uma minicidade é criada para abrigar essa ficção da vida real. Todos os outros personagens são atores: pai, noiva, chefe, colegas de trabalho, enfim. Ele é o único que acha que aquela vida é real e os telespectadores vibram com cada atitude sua. Mas então algo foge do controle, Truman começa a desconfiar daquele mundo e decide sair em busca de respostas. Tudo é feito para contê-lo e dissuadi-lo, de uma ameaça de acidente nuclear a um maremoto, mas o público passa a torcer por sua liberdade. Pede que Truman seja libertado do “reality”, então há o desfecho. O filme recebeu indicações para o Oscar, ganhou inúmeros prêmios e revelou a versatilidade de Carrey, até então associado apenas a comédias. Criaram-se teses de todo tipo, desde comparações bíblicas a interpretações psicanalíticas, e é possível enxergar um pouco de cada coisa no filme.

Mas, sob o tema que trago, aponto aqui um detalhe: a força gigantesca da não ficção. Esse é um filme que mostra como a vida real transformada em ficção tem enorme poder. Helen Garner, escritora australiana que por vezes esteve cotada para o Man Booker Prize, é uma das principais vozes que defendem que toda ficção é baseada na vida real. Um de seus livros, The spare room (Um quarto para ela) é uma obra de ficção criada sobre a experiencia real de hospedar em sua casa em Melbourne uma amiga que estava numa fase terminal de câncer. Um dos grandes aspectos desse livro são os diálogos, absolutamente profundos, e os confrontos entre as duas personalidades, com uma carga que só a vida real poderia oferecer.


No entanto, como é possível encontrar arte na não fição?


A ideia deste texto me veio quando eu estava analisando o novo original de uma autora, que faz sucesso em todo o mundo e que já alcançou no Brasil o mesmo reconhecimento. Nesse livro, que na ocasião ainda não havia sido publicado nos EUA, o propósito era estimular e confortar pessoas na hora de tomar grandes decisões. A obra tinha um título forte, mas algo não me convenceu. O texto era bom, as ideias bastante válidas, mas havia um problema. Um leitor um pouco mais atento logo percebia uma falha no discurso. A autora falava numa voz pouco clara sobre a experiência de um câncer que acabara de enfrentar, e sem dar detalhes dessa luta. Parecia, na verdade, alguém que estava na fase final de tratamento, e preferia não falar daquilo. Pensei: se vai confortar alguém, como pode estar tão inseguro? Se vai falar de coragem, como pode ser covarde? Talvez o livro tenha sido escrito antes de a autora estar realmente pronta para escrevê-lo. Ela estava claramente num processo de negação da doença, e eu não vi motivos para ela tentar falar de algo de que não poderia, nem para lançar um livro assim. Ainda tive a dúvida se, mesmo com esse problema, o livro poderia vender, mas fiz a minha escolha de não publicar. Meses depois, conversando com os agentes, contei essa impressão. Eles contaram que o editor internacional dela confidenciou a mesma coisa.


O livro pode vender? Pode, mas me pareceu um livro com poucas chances de ser indicado no boca-a-boca. Falta verdade nele. E mesmo os leitores menos críticos perceberão a falta de alma no livro, a falta de encantamento. O que o torna frio.


Um livro de não ficção precisa de uma experiência amadurecida, uma especialização numa determinada área e, muitas vezes, um processo psicanalítico bem resolvido com o tema para poder ser escrito.


Vejamos: um livro escrito por um economista, voltado para a economia das famílias, sobre comportamentos que nos levam a cair em dívidas, não é fruto de uma mente criativa, mas da larga experiencia na área. Conheço dois autores que, para escrever seus livros, utilizam experiencias de 15, 20 anos em suas consultorias. Reuniram histórias reais para ilustrar cada exemplo dado. Isso tem valor. Valor de arte, de escolher como numa sinfonia a nota para cada momento. De construir, na cabeça do leitor, um processo de desenvolvimento do tema, de modo que ele possa compreender o passo que levará ao seguinte e que fará sentido. Um estímulo que amplia a compreensão e o aprendizado, sem o qual a obra se perde como uma mera coleção de informações, sem conexão umas com as outras ou com a vida real. E considero que esse valor possui características tão complexas que equivale ao valor das boas obras de ficção.


A boa não ficção não é fruto apenas de uma capacidade inventiva, mas de um processo e de experiências, somados ao talento para transmiti-las em texto (que é a habilidade exigida dos ficcionistas). As experiências, ao serem contadas, não poderão ser utilizadas novamente ou recontadas de outra forma, sob pena de parecerem velhas ou falsas. Sem entrar no mérito do valor da grande ficção, para mim está claro que obras verdadeiras de não ficção são muito trabalhosas e necessitam de uma reflexão maior sobre a propria experiência que as de ficção.

Vejo arte e sensibilidade nos livros de culinária, como tem mostrado aqui no PublishNews a jornalista e editora Gabriela Erbeta, em sua coluna. Uma coisa é a gastronomia, outra é fazer um livro a respeito. Há diferença entre aqueles livros que têm alma e os que são apenas objetos de desejo, produtos gráficos para concorrer a prêmios de arte ou que objetivam o marketing pessoal. É possível perceber aquele autor que entrega sua alma quando oferece uma receita, anota detalhes do clima e da viagem, que nos permite viajar nas mesmas sensações e acreditar que podemos chegar ao mesmo resultado.

Se a arte está na ficção...é pra lá que eu vou.


Essa confusão sobre arte literária já me mostrou casos curiosos. Vi autores de ficção considerados artistas serem incensados pela crítica literária por um estilo desencontrado. Vi alguns terem seus “estilos” destacados e serem respeitados por vários anos mas, ao travar maior contato com eles, não duvidei de que aquilo chamado estilo era na verdade oriundo de problemas graves que deveriam ser tratados em consultórios de terapia ou psiquiatria. Antes disso, me achava burro. Não entendia porque todo mundo falava de seus textos como uma experiência transcendental e eu não via sentido naqueles personagens que desapareciam, nas falas que mudavam de voz sem aviso ao leitor, e em que parte da arte era descobrir onde o personagem que tinha a voz mudava.


Um dia perguntei para um amigo que, descobri, estava escrevendo sua tese de mestrado baseada num desses autores. Sem medo de parecer idiota, perguntei: “Você acha que a forma dele é um estilo pensado e desenvolvido artisticamente, ou poderia ser fruto de uma personalidade doentia?”. Depois de alguma conversa, quando se sentiu seguro e de modo quase como uma confissão ao pé do ouvido, ele me revelou dados que só apimentaram minha certeza.


Na outra ponta talvez vocês possam se lembrar de casos em que grandes jornalistas, que tinham um texto excelente enquanto repórteres, ao se lancarem como escritores optaram por escrever ficção, mesmo quando tratavam de uma história originalmente real. Durante um grande evento cultural em que eu ciceroneava um desses mestres do jornalismo investigativo, tentei sondar os motivos de sua escolha pela ficção. Em meio às respostas, senti que o formato havia sido buscado por ser um gênero de pares, onde havia mais respeito. No entanto, aquele gênero era totalmente novo para o autor. O fato de ele ser um grande jornalista não o havia preparado para o campo da ficção.


Esse autor, como ficcionista, adotava um estilo barroco, ultraromântico, nada a ver com a reportagem vigorosa, imperativa, carregada de tintas vibrantes, enérgicas e contundentes, que geralmente inquietava seus leitores com a força de um grande thriller de suspense. Destaques que colocaram o jornalista sempre em evidência. Com efeito, o resultado de suas investidas foi sempre uma ficção perdida em seu tempo, uma versão disfórica de texto pela escolha de outro gênero literário que não o seu, e que, por isso, foi criticada publicamente em todos os seus defeitos. Era a cena clássica de boa história ofuscada tanto pelo estilo quanto pela forma.


É uma armadilha do senso comum, assim como ótimos professores de português não são automaticamente grandes revisores. Não é um erro raro. Em livros utilitários vejo grandes palestrantes, geniais até, que se mostram incapazes de expor em texto aquela brilhante explanação que fazem ao vivo. A saída, com dignidade, é encontrar quem ajude na escrita, pois escrever é uma habilidade que se aprende com o exercício, não é um talento natural de todos os falantes. Uma forma de comunicação não conduz a outra sem muito trabalho.


Para mim, casos como os que relatei são tristes: tomar como arte o incompreensível, o exótico, o estranho, ou abandonar a forma que se sabe fazer de modo genial para adotar a ficção, porque é nela que se encontra o respeito social. O primeiro ainda encontrava eco em parte da crítica. Hoje, com a interatividade total dos leitores, a crítica perde cada vez mais a sua influência, quando não revela algo que faz sentido para as pessoas. O segundo caso gera o que a nova geração chama de “vergonha alheia”.

Uma diferença clara sob o prisma do aspecto de arte que trago aqui é que o autor de ficção pode criar quantas histórias sua mente o permitir. Um autor de não ficção tem de partir de sua experiência real, de algo concreto: por exemplo o trabalho de décadas, como o do neurocientista Miguel Nicolelis, ou a experiência de um pai de um menino com Síndrome de Down, que é relatada por Cristovão Tezza. São histórias que eles não poderiam inventar e que escreveram somente depois de refletir bastante sobre essa vivência. E, para executar bem, precisaram de qualificações para a arte da escrita. Caso contrário, necessitariam de boa assistência. Um trabalho e tanto. Não dá para continuar considerando isso um trabalho menor.

Até a próxima coluna. Se quiserem fazer comentários mandem para o meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com

Pedro Almeida é jornalista e professor de literatura, com curso de Marketing pela Universidade de Berkeley. Autor de diversos livros, dentre eles alguns ligados aos animais, uma de suas paixões, trabalha no mercado editorial há 20 anos. Foi publisher em editoras como Ediouro, Novo Conceito, LeYa e Lafonte. Atualmente inicia uma nova etapa de sua carreira, lançando a própria editora: Faro Editorial.

Sua coluna traz exemplos recolhidos do cinema que ajudam a entender como funciona o mercado editorial na prática. Como é o trabalho de um ghost writer? O que está em jogo na hora de contratar um original? Como transformar um autor em um best-seller? Muitas dessas questões tão corriqueiras para um editor são o pano de fundo de alguns filmes que já passaram pelas nossas vidas. Quem quer trabalhar no mercado editorial encontrará nesses filmes algumas lições importantes. Quem já trabalha terá com quem “dividir o isolamento”, um dos estigmas dos editores de livros. Pedro Almeida coleciona alguns exemplos e vai comentá-los uma vez por mês.

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