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A publicação no formato digital não é uma opção, é uma questão de sobrevivência
Publishnews, Carlo Carrenho, 06/01/2011
Aviso aos editores: a revolução digital chegou e seu catálogo estará disponível em breve em formato digital. Quer vocês queiram ou não.

No ano passado, publiquei o post Por que eu não acredito em Papai Noel, Saci Pererê e DRM. Alguns dias depois, recebi um telefonema de alguém ligado ao mercado brasileiro de e-books. A pessoa estava bastante frustrada com meu texto, pois achava que ele serviria como desincentivo para que editores entrassem no mundo digital e publicassem seus livros em formato eletrônico. Embora não tenha concordado com a crítica como um todo, percebi que eu não havia deixado claro minha posição sobre a publicação ou não de e-books, mas apenas mostrara que o DRM é absolutamente ineficaz. O resultado é este post que escrevo agora.

Aviso aos editores: a revolução digital chegou e seu catálogo estará disponível em breve em formato digital. Quer vocês queiram ou não.

É isto mesmo. Em 2010, o faturamento de e-books correspondeu a 9% do faturamento das grandes editoras americanas. Em 2008, foi 1% e em 2009, 3%. O crescimento tem sido exponencial. Em alguns poucos anos, haverá uma grande demanda por livros no formato digital, e onde há demanda, há oferta. Se os editores não fornecerem seus livros em formato eletrônico, alguém vai. Por mais que se combata a pirataria, será impossível evitar que algum adolescente na Lapônia ou em São José do Rio Preto digitalize um livro indisponível e o torne acessível na internet.

Os editores que, para evitar a pirataria, optem em não publicar no formato digital estarão apenas incentivando a pirataria. Parece paradoxal, mas é fácil explicar. Qualquer leitor honesto que busque a versão digital de um livro em uma e-bookstore se sentirá legitimado a procurar uma cópia pirata caso não encontre a edição oficial disponível. “Eu até compraria o original, mas não encontrei”, dirão eles. É claro que não basta que o livro esteja disponível. Ele terá de ter um preço justo e o processo de compra e download tem de ser absolutamente simples. Por isso que o próprio DRM pode, além de não evitar a pirataria, incentivá-la.

Do lado do pirata, seja ele motivado por ganância financeira ou por um sentimento de Robin Hood, com certeza ele se sentirá mais inclinado a copiar e disponibilizar obras que não podem ser compradas ou que sejam vendidas a um preço inadequado do que livros facilmente encontráveis em e-bookstores. Afinal, haverá mais demanda para os “livros difíceis”. Mas, de maneira geral, pirata ou leitor honesto se sentirão moralmente justificados em copiar um livro não disponível.

“Mas se eu não digitalizar meu livro, será muito mais difícil copiá-lo”, dirão alguns editores. Verdade. Mas não será difícil o suficiente. Pesquisadores da Universidade de Tóquio já desenvolveram um protótipo de scanner que permite digitalizar 200 páginas por minuto apenas passando rapidamente as folhas de um livro. Em um futuro não muito longínquo, teremos celulares capazes de fazer isto e livreiros preocupados não apenas com ladrões de livros, mas ladrões de conteúdo em suas lojas.

Concluindo, a pirataria é de fato uma ameaça. DRM é uma solução no mínimo ingênua para o problema. O desafio está em como minimizar o efeito da pirataria e usá-la para monetizar o conteúdo. E quem não entrar no mercado de livros digitais já perdeu a priori a luta contra a pirataria e por um lugar ao sol no futuro digital da indústria editorial.

Carlo Carrenho, editor colaborador do Publishing Perspectives, é consultor editorial brasileiro radicado na Suécia e membro da consultoria Alpine Global Collective.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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