Documentário 'Não sei viver sem palavras' revisita trajetória de Ignácio de Loyola Brandão
PublishNews, Beatriz Sardinha, 03/08/2026
Produção foi dirigida pelo filho do escritor, o fotógrafo e cineasta André Brandão

Ignácio de Loyola Brandão | © Divulgação Bretz Filmes
Ignácio de Loyola Brandão | © Divulgação Bretz Filmes

Não sei viver sem palavras apresenta um olhar íntimo e poético sobre a trajetória de Ignácio de Loyola Brandão, escritor, jornalista e imortal da Academia Brasileira de Letras. A obra é um tributo à vida e à visão criativa de Ignácio. Ao combinar imagens de arquivo pessoais com cenas contemporâneas de sua cidade natal, Araraquara, o filme captura tanto a visão de mundo quanto o senso de humor do escritor “pago para apenas sete minutos”, como brinca em sua primeira aparição no filme O documentário dirigido por André Brandão — filho do autor e estrela da produção—, estreou em 30 de julho de 2026, um dia antes do aniversário de 90 anos de Ignácio (31), depois de passagens pelo Festival do Rio de Janeiro e pela Mostra de Cinema de São Paulo.

A narrativa se baseia fortemente na própria voz e nos textos do autor para guiar o público por sua história familiar íntima e por sua identidade inicial como alguém à margem da sociedade. Ao longo da obra, os espectadores compreendem como ele utilizou a arte como refúgio desde muito jovem.

Fugindo da estrutura totalmente convencional e calejada de uma cinebiografia, o filme foi matutado durante a pandemia, período em que André voltou a morar com o pai, e tem como principal trunfo o vasto acervo pessoal e profissional acumulado ao longo de décadas que alimenta o documentário. Essa coleção inclui fotografias, cartas, recortes de jornais e dezenas de rolos de filme Super-8 registrados pelo próprio autor nos anos 70.

Ignácio em Araraquara | © Divulgação Bretz Filmes
Ignácio em Araraquara | © Divulgação Bretz Filmes

Para além de sua posição como imortal da ABL, o documentário revela o sonho de infância de ser diretor de cinema, definindo-se como "aquele que quer fazer um filme", apesar de nunca ter dirigido um.

Araraquara é quase uma personagem do filme. Nos seus 80 minutos, ele utiliza imagens de trilhos de trem e da estação amarela da cidade como metáforas para sua caminhada. A narrativa recorda ainda sua origem como "magrinho esquisito", que encontrou na escrita seu lugar no mundo: filho de um ferroviário e sua juventude no interior e um jovem com medo de ficar estagnado na cidade do impulsionou sua partida para São Paulo, parecido com alguns de seus relatos n'A Feira do Livro do ano passado.

A obra brinca com a articulação entre passado e futuro ao colocar na câmera as reflexões já conhecidas de Ignácio sobre sua angústia com o futuro do planeta e com a desorientação gerada pelas redes sociais. Além disso, propõe uma contemplação sobre o significado da passagem do tempo questionando "em que momento se diz que o passado passa a ser passado, e em que momento o futuro começa a ser futuro". E oferece, em seu fechamento, uma fala de Ignácio que dá nome ao documentário, selando um retrato cinematográfico de um homem que, aos 90 anos, ainda se encontra muito com aquilo que vale a pena viver.

[03/08/2026 10:44:19]