
O filme Odisseia, dirigido por Christopher Nolan, estreou nos cinemas brasileiros na quinta-feira (16), coberto de expectativas de ser o "épico dos épicos". Mas, para além da tela, a produção do audiolivro brasileiro da obra de Homero marca um movimento estratégico: a Companhia das Letras acelerou o lançamento justamente para coincidir com o filme, invertendo o plano original de lançar a Ilíada primeiro.
O audiolivro, lançado em junho, transporta os mais de 12 mil versos traduzidos por Frederico Lourenço para uma experiência auditiva de 18 horas de duração, na voz do ator Gustavo Falcão. Segundo Antonio Hermida, gerente de produção de áudio e e-books da Companhia das Letras desde 2025, a escolha do narrador foi evidente: Falcão dispõe de uma "versatilidade de voz que às vezes consegue ser bem acre, bem seca, mas também consegue ser muito doce, muito maleável", explica ao PublishNews.

Para ele, a obra se destaca como um dos maiores textos de aventura do mundo, apresentando uma sofisticação narrativa que antecipa o romance moderno. A história utiliza recursos como a quebra da quarta parede e a telemaquia — a estrutura não linear que faz o tempo da narrativa ir e voltar nos primeiros quatro cantos. O valor literário reside justamente em ser um "mito fundador" que permanece orgânico através dos séculos, transformado pela oralidade e pelo tempo.
A opção pelo audiolivro funciona como ferramenta de acesso à obra, facilitando o engajamento com clássicos que muitos leitores considerariam difíceis. "Esses poemas não são simples. É difícil entender a complexidade linguística, por conta da própria estrutura da língua grega clássica, da quantidade de possibilidades de rimas", comenta Hermida.
Um processo de recriação oral

Hermida revela uma estratégia eficaz utilizada após o término das gravações de todos os cantos: regravar o início dos textos para garantir uma estrutura de unidade no resultado final. "Assim o início do audiolivro fica na mesma temperatura e ritmo do final", explica.
A composição sonora do audiolivro também não é mero acompanhamento. Embora o resultado final dure "apenas" sete minutos, a trilha sonora original, composta por vinhetas e aberturas criadas por Roberto Bürgel, resulta de um intenso trabalho de análise e arqueologia musical. As trilhas e escalas musicais baseiam-se nos períodos homérico e micênico.
A produção também se permitiu liberdades artísticas em pontos específicos da narrativa. Buscou inspiração até em trilhas de videogames, como a do jogo Hades 2, utilizando elementos de guitarra em overdrive para caracterizar a personalidade tempestiva de Poseidon no Canto IV. "Poseidon tem o pior gênio do Olimpo, todos os filhos deram pra bandidagem, ele traz muito essa personalidade do mar, de temperamento do mar", comenta Hermida sobre essa escolha criativa.
Ao todo, foram utilizados 60 gigabytes de amostras de instrumentos de mais de dois mil anos para criar as vinhetas entre os cantos — um trabalho de pesquisa e produção que honra a profundidade da obra de Homero.
Sobre a obra
Creditada ao poeta Homero entre os séculos VII e VIII, Odisseia é uma obra composta por um único poema de 12.109 versos hexâmetros. Somente em 1488 a obra ganhou sua primeira versão impressa, em Florença. O filme de Nolan reúne um elenco estelar, com Matt Damon no papel de Ulisses, Anne Hathaway (Penélope), Tom Holland (Telêmaco), Zendaya (Atena), Charlize Theron (Calipso), Robert Pattinson (Antínoo), Lupita Nyong'o (Helena de Troia), Samanta Morton (Circe) e John Bernthal (Menelau). Com duração de 2h50, o filme tem sido bem recebido pela crítica.






