
Dados apresentados pela Associação de Editores e Livreiros Alemães (Börsenverein des Deutschen Buchhandels) em seu estudo Buchmarkt kompakt 2025/2026 acenderam um alerta sobre a trajetória de uma possível mudança na cultura de leitura no país europeu. O setor de livros fechou o ano fiscal de 2025 com um faturamento total de € 9,619 bilhões. Embora o montante pareça expressivo, representa uma queda de 2,7% em comparação com o ano anterior (com faturamento de € 9,882 bilhões). As informações constam no Digital Publishing Report.
Esses resultados se apresentam em meio um cenário de economia estagnada e de uma incerteza geral dos consumidores, e podem ser indicativos de uma declínio estrutural no hábito de leitura. No geral, o número de compradores de livros caiu 4,9% em 2025. Desde 2013, o mercado editorial alemão perdeu cerca de 10 milhões de compradores — uma perda de quase 30% de seus leitores.
O resultado da pesquisa demonstra que não parece haver uma luz no fim do túnel tão próxima. Uma análise dos números do primeiro semestre de 2026 mostra que o declínio está se acelerando. Nos primeiros seis meses do ano corrente, o faturamento caiu 4,1% em comparação com o mesmo período do ano anterior, enquanto o volume de vendas (a quantidade real de livros vendidos) despencou 4,5%. Pequenos ajustes de preço (+0,4%) não foram suficientes para conter essa tendência de queda.
Jovens alemães estão deixando de comprar livros
O setor foi atingido de forma dolorosa na geração mais jovem. Entre a faixa etária dos jovens de 10 a 15 anos, o número de compradores de livros despencou 30,6%. Esse declínio se reflete diretamente na receita, com os gastos nessa faixa etária caindo 23,8%.
A faixa demográfica de 20 a 29 anos também sofreu uma queda massiva, registrando uma diminuição de 17,8% no número de compradores e uma redução de 8,5% nos gastos. Apenas os adolescentes entre 16 e 19 anos estão atualmente contrariando a tendência: nessa faixa, o número de compradores subiu 7,7% e os gastos aumentaram 6,3%.
A Associação de Editores e Livreiros Alemães emitiu um alerta sobre as possíveis consequências de longo prazo da evolução desses resultados. A organização adverte que, se a geração mais jovem perder o hábito da leitura — ou se nunca chegar a adquiri-lo —, o mercado perderá sua própria base de sustentação pelas próximas décadas.
Aspectos positivos: o boom do áudio e o sucesso do young adult
Segundo o dpr, o mercado deve a mitigação de perdas ainda mais acentuadas a duas grandes tendências: um avanço imparável do formato de áudio e a literatura de nicho movida por fortes emoções.
- O boom dos audiolivros: Com um aumento de 13,2% no faturamento, o segmento de audiolivros é o vencedor claro do ano. Esse crescimento é impulsionado inteiramente pelos formatos digitais: enquanto os CDs tradicionais enfrentam um declínio dramático (-18,6%), as assinaturas de streaming dispararam 23,1% e os downloads cresceram 9,2%. O streaming (47,2% de participação de mercado) e os downloads (47,4%) agora dividem o mercado de áudio quase igualmente.
- Gêneros em tendência salvam a ficção: A categoria de ficção permaneceu estável, com um leve aumento de 1,2%, representando a maior fatia do mercado geral (38,1%). Esse sucesso foi impulsionado em grande parte pelo fenômeno em torno dos gêneros New Adult (+9,6% nas vendas) e Young Adult (+4,8% nas vendas). O número de compradores neste segmento subiu 8,8% em comparação com o ano anterior — embora isso não tenha sido suficiente para compensar a perda geral de compradores do mercado.
Canais de distribuição: lojas físicas perdem espaço, vendas online se estabilizam
Com 40,8 % das vendas (€ 3,93 bilhões), as livrarias físicas tradicionais continuam sendo o canal de distribuição com maior presença, mas sofreram um impacto, registrando uma perda de 3,7% no faturamento. O varejo online (incluindo as operações de e-commerce das próprias lojas físicas) permaneceu praticamente inalterado em € 2,51 bilhões (-0,1%), garantindo uma participação de mercado de 26,1%.
As lojas de departamento, que já estavam sob imensa pressão, foram atingidas de forma muito mais severa, com suas vendas de livros despencando 25,2%. Enquanto isso, o mercado de e-books continua estagnado: sua fatia no mercado de consumo subiu apenas marginalmente, de 6,1% para 6,3%.
Editoras na defensiva: uma aversão ao risco e menos licenças
O clima econômico instável está forçando as editoras a agir com cautela. A produção de novos títulos caiu drasticamente, 9,8%, totalizando 52.644 primeiras edições (contra 58.346 em 2024). Com as editoras evitando assumir novos riscos, o setor está migrando cada vez mais para um "mercado retrô": o fundo de catálogo representou 57% de todas as vendas em 2025.
Os negócios internacionais também esfriaram: o número de traduções para o alemão caiu 3,3%, totalizando 8.465 títulos. No entanto, a participação delas no total de novas edições subiu para 16,1%. As vendas de licenças de livros alemães para o exterior caíram 8,0% (6.137 licenças vendidas), sendo os principais compradores dos direitos autorais alemães a China, a Rússia e a Espanha.






