O que estou lendo: Diana Passy
PublishNews, Guilherme Sobota, 15/07/2026
Scout literária e uma das convidadas da Casa PublishNews na Flip 2026 indica 'Aranha movediça' (Moinhos), de Moacir Fio

"Pouco mais de um ano atrás eu decidi que ia mudar meus hábitos e ignorar a maioria dos livros traduzidos para ter tempo de explorar a literatura brasileira contemporânea. Se ler todos os livros que eu quero é impossível, decidi que queria priorizar quem está escrevendo o Brasil hoje.

Tem sido um exercício muito prazeroso, que me enche de otimismo sobre nosso mercado. Estou quase terminando Cerejas do inferno, da Thaís Boito (Editora Naci, 2025), uma fantasia sáfica com personagens cativantes e um worldbuilding muito bem feito. O amor na sala escura, de Clarisse Escorel (Bazar do Tempo, 2026), me fisgou tanto com sua investigação sentimental que só não li numa tacada só porque a bateria do meu tablet acabou no meio da leitura. E de Meridiana (Companhia das Letras, 2025) eu já sabia que ia gostar porque gosto muito do trabalho da Eliana Alves Cruz, mas não esperava encontrar tantos paralelos entre a história dessa família negra que sai da periferia do Rio de Janeiro para o centro da cidade, e a realidade de minha própria família ao vir de outro continente procurando uma vida melhor.

Mas um que eu gostaria de destacar é Aranha movediça, do Moacir Fio (Editora Moinhos). Muito tem se falado do horror latino-americano, e tenho visto muitos bons exemplos de autores brasileiros fazendo uso do desconforto causado pelo gênero para explorar as feridas de nosso país. A narrativa de Aranha movediça começa como um podcast de true crime, com uma jornalista investigando a morte misteriosa de uma figura importante do punk cearense algumas décadas atrás. Mas logo mudamos para o ponto de vista de Carlos Eduardo, um personagem que abandonou Fortaleza e construiu uma vida em outro estado, mas não sabemos como está ligado ao caso. E, no meio de tudo isso, somos transportados para o realismo mágico de um vilarejo que hoje não existe mais, mas que carrega histórias de violência e um passado colonial.

Moacir consegue equilibrar todas essas narrativas, que têm estilos muito diferentes, de um jeito que de fato forma uma teia. Mas quando você acha que está conectando as pontas, descobre que recebeu uma pista falsa e a realidade se dissolve sob seus pés novamente. É um livro muito bem feito pra te prender no desconforto e mesmo assim você não querer largar. Recomendo para qualquer um que queira conhecer essa nova literatura brasileira de horror."


*Diana Passy Yip é scout literária e consultora editorial com 18 anos de experiência no mercado. Trabalhou no Grupo Companhia das Letras por 11 anos, foi criadora da FLIPOP e curadora em três edições da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Ganhadora do Prêmio Jovens Talentos Publishnews em 2018, pelo seu trabalho com comunidades literárias, Diana mantém uma conexão próxima com leitores e fãs, interpretando as demandas do público para localizar oportunidades e criar ações estratégicas para o mercado editorial.

Diana é uma das convidadas da Casa PublishNews na Flip 2026. Ela vai participar da mesa "O que vamos ler no futuro? Novos gêneros para novos leitores", na quinta-feira (23), às 13h, ao lado de Antonio Castro, editor de aquisições na Intrínseca, Rita Mattar, diretora da Fósforo, Virginie Leite, diretora editorial da Sextante, e Beatriz Sardinha, repórter do PublishNews.

[15/07/2026 13:03:23]