O que estou lendo: Carlos Eduardo Pereira
PublishNews, Monica Ramalho, 17/06/2026
"Considero cada conto desse livro uma surpresa, mesmo após algumas releituras. Acho que porque o Sant’Anna traz diversos gêneros para o papo", diz o carioca

"Acabo de reler O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (Companhia das Letras, 2014), do Sérgio Sant’Anna, essa maravilha. O cara é um gênio, e nesse livro ele faz o diabo. É uma coletânea de contos escrita nos anos 80, mas parece que foi feita ontem, e tenho certeza de que vai continuar parecendo amanhã. São 12 joias ficcionais que falam, entre muitas outras coisas, do ato de escrever.

Na quarta capa da edição que tenho, o Caio Fernando Abreu diz o seguinte: 'Sérgio Sant’Anna, inteligente demais para produzir historinhas, prefere mergulhar nas infinitas possibilidades da palavra escrita em busca de um mínimo de verdade. E com raro talento'.

O conjunto dos textos apresenta alguma espécie de metalinguagem, a gente acompanha a construção da obra, os titubeios narrativos, os processos. Eu gosto de escrever, por isso é sempre bom ter à mão os conselhos de um mestre, é meio assim que eu vejo esse trabalho.

Considero cada conto desse livro uma surpresa, mesmo após algumas releituras. Acho que porque o Sant’Anna traz diversos gêneros para o papo, o formato mais tradicional de conto é frequentemente desafiado quando surgem elementos geralmente mais associados à crônica, ou à poesia, ou ao ensaio, enfim, são surpresas que o tempo todo trazem um frescor de novidade para o jeito de contar histórias.

Todos os anos eu leio um Machado de Assis, geralmente o Dom Casmurro. E é para copiar o estilo, e para descobrir coisas novas no texto (coisas que eu ainda não tinha maturidade para enxergar na leitura anterior), e para lembrar porque que a gente insiste em tentar produzir essa literatura que a gente produz por aqui.

Com o Sérgio Sant’Anna é a mesma coisa. E com outras e outros tantos. Eu não seria capaz de escrever uma frase não fossem as frases do Sérgio. O meu texto não existe sem o texto da Elvira Vigna. Meu trabalho nunca será nada se longe do trabalho da Carolina Maria de Jesus. A gente precisa apostar no diálogo, na vida e na literatura".


Carlos Eduardo Pereira é autor dos romances Enquanto os dentes (Todavia, 2017), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e Agora agora (Todavia, 2022). Professor de História por 15 anos e formado em Letras pela PUC-Rio, o escritor carioca trabalha no momento em novas histórias.

[17/06/2026 12:28:45]