
"O que me fascina em Candeia é a sofisticação de seu universo musical e político: era uma espécie de pan-africanista cultural e tropicalista em seu fazer artístico, isto é, alguém que dialogava com a negritude e as artes afro-brasileiras através da música". A frase do pesquisador norte-americano Stephen Bocskay resume o impulso que deu origem ao livro Candeia, o samba, o quilombo e o ativismo negro (Malê), publicado após quinze anos de pesquisa. A obra mergulha na vida e no pensamento de um dos grandes nomes do samba carioca — Antônio Candeia Filho (1935–1978) — e revisita a experiência do Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, fundado por ele em 1975 como espaço de afirmação cultural negra e crítica aos rumos do Carnaval do Rio.
Resultado de uma extensa pesquisa, o livro reúne depoimentos de nomes como Martinho da Vila, Leci Brandão e Dom Filó, além das saudosas Dona Ivone Lara (1921-2018) e Beth Carvalho (1946-2019), para iluminar as múltiplas dimensões do ativismo negro de Candeia nos anos 1970. "Levei muito mais tempo pesquisando as fontes deste livro do que mergulhando na escrita, que levou um pouco mais de um ano", conta Stephen. Em conversa com o PublishNews, o autor rebobina a própria ligação com o Brasil e explica porque o legado de Candeia ainda ecoa no debate racial brasileiro, quase meio século depois da sua partida. Leia a entrevista completa:
PUBLISHNEWS — Candeia ainda é lembrado apenas como compositor e sambista. O seu livro mostra um personagem mais complexo: ele era um ativista negro, à frente do Quilombo. O que mais surpreendeu você em quinze anos de pesquisa? Houve alguma descoberta que mudou radicalmente o seu próprio entendimento sobre quem foi Candeia?
STEPHEN BOCSKAY — Meu livro versa sobre o samba e os sentidos de ativismo na década de 1970. Resolvi escrevê-lo ao me incomodar com certo automatismo em chamar os sambistas de ativistas sem qualificar a constituição desse ou qualquer outro tipo de ativismo. Vejo essa disposição de rotular como problema e consequência, em parte, das políticas identitárias dos dias atuais. Vivemos em tempos de rótulos, mas o problema aí é que funcionam muitas vezes como um atalho para não se dar o trabalho de chegar a uma compreensão mais aprofundada sobre a nossa realidade como indivíduos e coletivo, que é bem complexa. Candeia exibiu características de um ativismo intelectual sui generis por suas formulações sobre a luta do negro brasileiro e a realidade multirracial dos quilombos, sua compreensão da riqueza das artes afro-brasileiras e do papel do capitalismo no processo de exclusão do negro brasileiro, e pela sua dedicação à conscientização das pessoas das classes trabalhadora e média baixa.
Não há nada em particular que tenha me surpreendido nas minhas pesquisas, pois fui acumulando conhecimento com muita dedicação ao longo do tempo. Se houver uma exceção, talvez seja o BRAFRO, projeto de artes afro-brasileiras em que Candeia colaborou com Dom Filó, em 1977. O que me fascina em Candeia é a sofisticação de seu universo musical e político: era uma espécie de pan-africanista cultural e tropicalista em seu fazer artístico, isto é, alguém que dialogava com a negritude e as artes afro-brasileiras através da música. Entretanto, Candeia não era uma pessoa calcada no academicismo como outros ativistas e intelectuais da época das classes média e média alta que abraçavam os imaginários políticos de países como os EUA, consideravam o racismo brasileiro tão nocivo quanto o de outros países e que problematizam a hiperssexualização da mulher negra, particularmente na figura da "mulata". Nesse aspecto, Candeia não era um antirracista no sentido mais pleno da palavra como Lélia Gonzalez (1935-1994) e Abdias do Nascimento (1914-2011).
PN — Lendo o seu texto muito informativo e sério, lembrei de pesquisadores musicais como Jota Efegê (1902-1987), Ary Vasconcelos (1926-2003) e José Ramos Tinhorão (1928-2021). Muniz Sodré elogia o seu trabalho de pesquisa no prefácio, a orelha é do Luiz Antônio Simas e você fez toda essa pesquisa ao lado de Mariana Filgueiras. Como foi se cercando de tantos especialistas sobre o samba? Deu mais trabalho a pesquisa ou a escrita do livro em si?
STEPHEN — Cheguei ao Brasil pela primeira vez em 2002 e, a partir daquele ano até hoje, tenho estabelecido um forte vínculo com o país. Daqui a pouco serei residente — na verdade, já era para ser. Mas veja, me identifiquei com a língua portuguesa desde a primeira vez que a ouvi, porque entendia quase tudo. Foi bizarro. Contudo, falo e escrevo bem em cinco línguas. Fui professor de estudos latino-americanos durante três anos na Universidade Federal de Pernambuco. Portanto, minha experiência no Brasil atravessa muitos estados e culturas, não somente o Rio de Janeiro. Por isso, me refiro aos "Brasis" em vez do Brasil.
Desde cedo, comecei a travar amizades com muitas pessoas do mundo das artes. Em 2012, defendi a minha tese de doutorado na Universidade Brown (EUA) intitulada Voices of samba: Music and the brazilian racial imaginary - 1955-1988. Este livro Candeia, o samba, o quilombo e o ativismo negro surgiu de um capítulo que eu havia escrito sobre Candeia. Desde 2009, tenho feito um quase sem-número de entrevistas com artistas brasileiros, desde carnavalescos como Fernando Pamplona (1926-2013) e sambistas como Beth Carvalho (1946-2019) até atores como Antônio Pitanga e atrizes como Zezé Motta. Realizei minhas pesquisas com muitas pessoas, de muitas áreas.
A pesquisa e a escrita me deram trabalho. Primeiro porque, para escrever um livro bem fundamentado, é preciso fazer muita pesquisa, e algumas fontes são de difícil acesso. Mas não é só isso. Trata-se de um livro denso intelectualmente e não sabia se conseguiria as fontes necessárias para chegar ao horizonte que queria. Afinal, deu certo. Escrever do jeito que a gente quer nunca é fácil. Mas, claro, levei muito mais tempo pesquisando as fontes deste livro do que mergulhando na escrita, que levou um pouco mais de um ano.
PN — O seu livro chega aos leitores quando completam 90 anos do nascimento do baluarte portelense. Se ele estivesse aqui hoje, compondo novos sambas, atuante no Carnaval e uma voz ouvida no debate racial, como você imaginaria essa versão 2026 do mestre Candeia? E diga, por favor, em uma frase: Por que vale a pena ler o seu livro?
STEPHEN — Acho que Candeia implicaria com certas vertentes de políticas identitárias que imperam hoje no Brasil. Ele estava em sintonia com as perspectivas de pessoas como Beatriz Nascimento (1942-1995), que também integrou o Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo. Segundo Beatriz, territórios originados de quilombos, como o Catumbi, os morros de São Carlos, Santa Marta e outras favelas, não eram em suas origens um reduto apenas de negros — embora lhes representassem a maioria da sua população —, mas também de indígenas e mulheres brancas pobres. Daí a formulação de Candeia: "Quando eu disser 'negro' subentendam que poderá ser substituído por 'pessoas menos favorecidas dentro do processo econômico', e que realmente são a maioria dentro do sistema". Por esse entre outros motivos, Candeia se alinhava mais a uma política identitária insurgente, enraizada em luta coletiva baseada na solidariedade multirracial e de classe, capaz de confrontar as estruturas de poder. Afinal, Candeia visava a oportunidades de vida digna e decente para toda a sociedade brasileira, e não só para as classes dirigentes.
Além disso, Candeia entendia perfeitamente que a representatividade, no que diz respeito à questão racial, possui limites em determinados aspectos sem diminuir a importância da luta dos grupos oprimidos. Em relação ao Quilombo, o baluarte disse o seguinte: "Outra razão para que não haja segregação racial é porque há negros que quando alcançam certa posição social e econômica se esquecem do problema que envolve os negros, e ao contrário, existem brancos que se identificam com a cultura afro". Logo após a morte de Candeia, Pedro Carmo dos Santos, da diretoria do Quilombo, completou: "Sou um branco de alma negra. E isso é muito bom, porque põe por terra algumas críticas que recebemos nos chamando de racistas".
Em uma frase? Meu livro reúne mais de quinze anos de pesquisa, com uma variedade impressionante de fontes e materiais inéditos, sendo as entrevistas com sambistas e ativistas negros que vivenciaram os anos setenta um dos seus aspectos mais preciosos.







