Três perguntas do PN para Toinho Castro
PublishNewws, Monica Ramalho, 10/07/2026
Escritor pernambucano vai lançar o seu segundo romance independente, 'Rubber Vall', na programação gratuita da Praça Aberta, durante a Flip 2026

Muitos escritores partem de um lugar específico para falar do mundo. O pernambucano Toinho Castro faz o caminho inverso: visita galáxias, máquinas do tempo e teorias científicas para reencontrar a sua Recife. Depois de transformar o bairro da Imbiribeira em um território de memória e invenção no livro homônimo, de 2021, de questionar se o tempo é um fato concreto ou apenas uma ilusão da percepção humana em Nada existe, de 2025, e de e de cuidar praticamente sozinho da revista cultural Kuruma'tá desde 2019, o autor retorna à ficção com Rubber Vall, o seu segundo livro independente.

A ser lançado na sexta-feira, 24 de julho, das 18h às 19h, na Praça Aberta da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o romance combina física, música, cartas, quintais e lembranças de infância numa narrativa que aposta na curiosidade mais do que nas certezas — afinal, quem as tem?. "Vivemos num mundo que nega, ao mesmo tempo, a ciência e o sonho. Eu quero os dois", diz o autor, radicado no Rio de Janeiro há três décadas. Toinho fala ao PublishNews sobre a cidade que continua habitando os seus escritos, a convergência entre exatas e humanas e por que acredita que a literatura existe mais para inventar do que para explicar. Leia esses dois dedinhos de prosa:

PUBLISHNEWS —⁠ Embora a viagem de Rubber Vall atravesse galáxias, máquinas do tempo e planetas imaginários, Recife continua sendo o centro gravitacional dos seus livros, como se deu em Imbiribeira (independente, 2021). Depois de tantos anos vivendo no Rio, o que a distância fez com a sua Recife?

TOINHO CASTRO — São quase 30 anos de distância, no tempo e no espaço. Em algum momento, isso me fez querer trazer Recife para perto de mim. E a minha conexão com a cidade sempre foi por meio da poesia, da literatura. Então escrevê-la, a cidade, foi o caminho de reencontrá-la. De animá-la, no sentido de Anima, alma. A música tem um papel muito forte também nesse processo de reencontro. Pelas ruas que andei, cantou Alceu Valença. Sua musicalidade sempre me foi uma ponte até lá. Meus livros não são sobre Recife, mas a cidade os habita. Ela se expande com as histórias que eu conto. E com isso eu me reinvento. Somos como dois fantasmas que se visitam à noite, contando histórias um para o outro.

PN — E neste novo livro, máquinas do tempo, mapas estelares e teorias científicas convivem naturalmente com cartas, canções, quintais e memórias de infância. Como você fez para esses mundos coexistirem?

TOINHO — Vivemos num mundo que nega, ao mesmo tempo, a ciência e o sonho. Eu quero os dois. Quero a convergência de matemáticas e afetos, cálculos e cartas. A ciência é uma grande carta da humanidade, para si mesma e para o que virá. Quero que a poesia comporte a invenção do mundo. Por isso, nos meus livros, vou misturar as coisas. Essa é a minha licença para dizer que a ciência é um fazer poético. Poesia com os átomos, com os entrelaçamentos quânticos. E ciência com versos! É do encontro que nascem os futuros. Não do desencontro. Tem uma música de Peter Gabriel, que ele dedica à poeta Anne Sexton, em que ele canta: "Todos esses edifícios, todos esses carros, foram, um dia, um sonho na cabeça de alguém".

PN —⁠⁠ ⁠Hermano Vianna escreve que sua literatura talvez não busque "compreender", mas "enveredar". Em Rubber Vall, o que significa, para você, seguir adiante por essas veredas?

TOINHO — Minha literatura não é de respostas, ou entendimento. É de perguntas, de busca. É uma literatura de curiosidade. Às vezes, perguntar traz mais surpresas que responder. E toda essa busca começa na rua, no caminhar pelo labirinto da cidade, do mundo. Você vai ver que minhas personagens adoram a rua, porque a cada esquina algo novo pode surgir. Há nisso uma procura pelo encantamento do inexplicável. Todos os meus livros começam, na minha cabeça, com perguntas: E se? Será que? E a partir disso, não saio atrás das respostas, mas das invenções, das adivinhações, do susto. Clarice Lispector escreveu numa crônica: "Sinto que sou mais completa quando não entendo". Isso fala muito do que escrevo.

[10/07/2026 08:54:07]