
O papo com a reportagem do PublishNews ocorreu na área de convidados, uma hora e meia após a sessão de autógrafos do lançamento da edição em inglês do livro Yi Jing: The illustrated Book of Changes (Princeton Press), em um dos auditórios do Centro de Convenções de Pequim. Tsai é uma presença magnética e instigava a curiosidade de jovens e outros nem tão jovens leitores com piadas, truques de mágica, desafios de lógica e anedotas que misturavam a sua trajetória com conceitos filosóficos.
Na sala, junto de uma tradutora, Tsai detalhou seu raciocínio criativo, frisando a importância de se dedicar ao ócio e a despender tempo e energia no hábito de pensar. O autor também relembrou a influência de sua infância na formação de sua visão de mundo, destacando tanto a educação católica quanto o contato precoce com a arte sacra.
Antes de nos despedirmos, ele me entregou três cartas de um baralho que tinha em mãos. Em seguida, pediu que eu separasse o bolo restante em três pilhas distintas. Mudei a sequência de empilhamento, na tentativa de dificultar o truque, mas ao virar as cartas, eram as mesmas que tinha em mãos.
Tsai me presenteou com um marcador de página com caligrafia contendo uma citação do antigo filósofo chinês Laozi, que dizia: "Todas as coisas sob o céu nascem do ser; o ser nasce do não ser". Ele explicou que a frase expressa uma ideia central da filosofia chinesa: a de que toda criação surge do vazio e da possibilidade. Essa parece ser uma ideia que permaneceu com o autor ao longo dos anos de sua carreira.

Seu livro Yi Jing, traduzido para o português como Livro das mudanças ou Livro das mutações (do inglês Book of Change), tem como objetivo refletir sobre as limitações da capacidade humana de compreender plenamente o mundo ao seu redor. O texto traz 64 hexagramas criados por Fu Xi, cada um deles tem um nome e descreve uma situação mais ou menos concreta. Em Yi Jing: The illustrated book of changes, cada um dos hexagramas recebe um capítulo ilustrado destrinchando suas particularidades.
Leia a entrevista completa:
PublishNews — Além dos livros e do desenho, do que o senhor mais gosta de fazer?
Tsai Chih-chung — Pensar... Se há algo de que gosto mais, além de criar livros, é pensar. Pensar é meu maior hobby. Na prática, isso muitas vezes significa jogar bridge. Jogo quase todos os dias pela internet. Gosto do jogo pelo desafio da estratégia e do raciocínio que é necessário.
PublishNews — Como descreveria seu processo criativo? O senhor é um criador mais imaginativo ou mais prático?
Tsai Chih-chung — Na verdade, me considero uma pessoa muito prática. Quando crio quadrinhos, primeiro desenvolvo os elementos visuais de forma sistemática. É provável que desenhe centenas de poses diferentes para um personagem antes mesmo de começar a criar os cenários. Como trabalhei na produção de televisão, aprendi a pensar em componentes: árvores, montanhas, rios, casas, nuvens. Cada elemento é criado separadamente e, depois, reunido para formar uma cena completa. As pessoas costumam pensar que a criatividade depende apenas da inspiração, mas, para mim, ela é um processo de construção e organização.

PublishNews — Por que o senhor continua contando histórias?
Tsai Chih-chung — Porque tudo tem uma história. Consigo olhar para qualquer objeto e imaginar suas emoções, seus pensamentos e sua perspectiva. A tarefa de um contador de histórias é dar voz àquilo que normalmente não pode falar. As histórias estão em toda parte. O próprio mundo é repleto de histórias esperando para serem contadas.
PublishNews — Como a filosofia influenciou sua vida e sua obra?
Tsai Chih-chung — Amo filosofia desde a infância. Quando criança, frequentava aulas de catecismo católico e fiquei fascinado pelas perguntas levantadas sobre a vida, a moral e a existência humana. Admirava figuras como Moisés, Noé e Jesus, não apenas como personagens religiosos, mas como pessoas que dedicaram suas vidas a um propósito. Por volta dos três ou quatro anos de idade, comecei a me perguntar o que queria fazer da minha vida. Quando meu pai me deu um pequeno quadro negro e me ensinou a desenhar e escrever, descobri minha paixão pela arte. A partir daquele momento, soube que o desenho seria o caminho da minha vida. Desde então, nunca deixei de pensar.
PublishNews — Sua formação católica influenciou seu desenvolvimento artístico?
Tsai Chih-chung — Muito. As igrejas que eu frequentava eram repletas de belíssimos vitrais e pinturas religiosas. Muitas dessas obras haviam sido criadas por artistas europeus e me marcaram profundamente ainda muito jovem. A arte entrou na minha vida por meio dessas experiências visuais, muito antes de eu compreender qualquer teoria artística.
PublishNews — Sua obra combina quadrinhos e filosofia. Algumas pessoas consideram os quadrinhos menos sérios do que a literatura tradicional. Por que acredita que eles são um meio eficaz para transmitir ideias filosóficas?
Tsai Chih-chung — As pessoas costumam me perguntar: "O que pode ser transformado em quadrinhos?" Minha pergunta é exatamente o contrário: "O que não pode ser transformado em quadrinhos?" A filosofia pode ser desenhada. A religião pode ser desenhada. A matemática, a física, a ciência e a história também podem ser desenhadas. A linguagem dos quadrinhos não tem limites. O mais importante é compreender profundamente o assunto. Quando realmente entendemos alguma coisa, os quadrinhos se tornam uma forma elegante e acessível de comunicá-la. Na verdade, como os quadrinhos utilizam muito poucas palavras, eles exigem ainda mais precisão.

PublishNews — Como contador de histórias, de que forma enxerga a fronteira entre realidade e imaginação?
Tsai Chih-chung — A realidade é o ponto de partida, mas a imaginação nos permite enxergar além das aparências. Passei a vida inteira refletindo sobre ideias, observando o mundo e transformando essas observações em histórias e imagens. Criatividade não significa escapar da realidade; significa descobrir significados mais profundos dentro dela.
PublishNews — O que o senhor considera mais importante para a humanidade nos dias de hoje?
Tsai Chih-chung — Não me vejo como alguém capaz de mudar o rumo da história. O mundo se move de acordo com forças muito maiores do que qualquer indivíduo. O que posso fazer é me concentrar nas minhas próprias responsabilidades e nas minhas contribuições. Se eu pudesse deixar uma mensagem, talvez até gravada em minha lápide, seria: "Faça o que estiver ao seu alcance e encontre alegria naquilo que faz." Isso basta.
*A jornalista viajou a convite da Corporação de Importação e Exportação de Publicações Nacional da China (CNPIEC).







