
O romance acompanha a vida de um convento feminino na Inglaterra do século XIV, desde sua fundação, e vai mostrando como aquela comunidade atravessa os anos. Passam pela história diferentes mulheres que assumem a liderança do convento, chegam epidemias, surgem conflitos com a Igreja, problemas de administração e até um falso padre. Não existe uma protagonista nem uma trama cheia de reviravoltas.
Cheguei até ele por causa de Lolly willowes (sem tradução no Brasil), primeiro romance da autora, publicado em 1926 e muito controverso para a época. Foi ali que descobri a inglesa Sylvia Townsend Warner e me encantei pela delicadeza quase invisível de sua escrita. Ela nunca parece afim de grandes gestos, sabe? Seu talento está justamente em revelar como as estruturas mais profundas da vida se manifestam no cotidiano, nos silêncios, nas convenções e nas pequenas escolhas.
Em O mundo que as confinava, essa capacidade aparece de forma ainda mais madura. Warner escreve sobre mulheres, mas sem reduzi-las a um discurso. O “confinamento” do título se manifesta bem mais nas brechas e nas expectativas, nas regras não escritas, nos papéis sociais que moldam uma vida inteira. É de uma inteligência e de uma sutileza impressionantes e é o que me conquista na escrita dela.
Como editora, esse é exatamente o tipo de literatura que mais me interessa defender: Livros que atravessam décadas sem perder a força e que voltam a circular porque continuam dizendo algo essencial sobre o presente. Impulsionado pela inclusão na lista da New York Review of Books, o livro, com tradução de Fábio Bonillo, foi finalmente publicado pela primeira vez no Brasil.
Talvez seja esse o maior trabalho de uma editora: criar novos encontros entre leitores e livros que, por muito tempo, permaneceram fora do radar.
Recomendo O mundo que as confinava porque alguns romances não precisam de grandes acontecimentos para transformar quem lê. Bastam um olhar preciso, personagens inesquecíveis e uma autora que entende que a literatura fala ainda mais alto quando ela parece sussurrar."
Camila Perlingeiro é escritora, editora, especialista em artes visuais e mestre em Artes pelo Fashion Institute of Technology, em Nova York. Atua há mais de 25 anos no mercado editorial e cultural. É diretora criativa da Pinakotheke, cofundadora e diretora da Mapa Lab. Ao longo da carreira, publicou textos e ensaios sobre artes visuais e história da moda. É autora da plaquete Fragmentos sobre o fim do amor (Mapa Lab, 2023), do ensaio O que a arte escreve (Mapa Lab, 2025) e do conto O menino tá com você (Oficina Raquel, 2025).







