
Escritor, vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE) e jurado de prêmios literários, o paulistano Ricardo Assumpção Fernandes acompanha de perto a produção contemporânea brasileira. Em seu novo romance, Lua do dia (Patuá), o autor se joga em uma narrativa em que memória, velhice, desejo e fantasia conversam ao pé do ouvido, conduzindo o leitor por uma São Paulo subterrânea povoada por pescadoras, cães e outros personagens que respiram entre o concreto e o imaginário.
"Ao escrever o romance, procurei construir ambientes por meio dos quais as pessoas pudessem, na leitura, também descobrir universos alternativos. Como numa viagem ao alcance dos dedos, ao transitar entre a realidade cotidiana e a das páginas, a leitora e o leitor de ficção podem encontrar maneiras para viver no mundo atual, por vezes estranho, mas cheio de lirismo", resume o autor. Ao PublishNews, Ricardo falou sobre a origem da história, a convivência entre realidade e invenção e a metáfora que dá título ao livro. Leia a prosa!
PUBLISHNEWS — Em Lua do dia, a busca de Pedro por Flor parece caminhar lado a lado com uma tentativa de reconstruir a própria memória. Durante a escrita, o que veio primeiro: a história de amor, a reflexão sobre a velhice ou o quê?
RICARDO ASSUMPÇÃO FERNANDES — A primeira coisa que veio foi o título. Era de manhã, olhei para o céu e vi a lua minguante. Intuí que a partir dessa imagem seria possível trabalhar muitos contrastes e então comecei a escrever. Tinha acabado de voltar de uma viagem ao litoral e a paisagem estava fresca na memória. Ao descrever o caminho da casa onde me hospedei até o mar, a paisagem no entorno, a Rio-Santos e a praia, foi se formando a história de Flor e Pedro, ainda sem muita clareza. Procurei contar a evolução de Flor numa sequência em que o tempo avança de maneira linear. Em Pedro, a princípio, trabalhei o resgate – da força física, da memória; depois, ele avança à sua maneira. Esse contraste de tempos narrativos me deu a liberdade de combinar aventura e reflexões sobre a infância, a vida adulta e a velhice. As lembranças, misturadas com o desejo, forjam a invenção e a intervenção das personagens no percurso do livro.
PN — Você é vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE), jurado de prêmios literários e acompanha de perto a produção contemporânea brasileira. O que te levou a escrever justamente um romance tão lírico, povoado por pescadoras, cães (uma pitada de vida real, já que você também se dedica a escolinha para cachorros), memórias fragmentadas e personagens que parecem caminhar entre o concreto e a fantasia, num momento em que boa parte da ficção aposta no realismo mais direto?
RICARDO — Uma das características mais destacadas da cena atual é a quantidade de ótimos autores e autoras que escrevem sobre os mais diversos temas. A partir da sua realidade direta, apresentam particularidades em um país de dimensão continental. Os livros brasileiros mostram essa grandeza e diversidade de assuntos.
Ao escrever o romance com realidades tangíveis e imaginadas, procurei construir ambientes por meio dos quais as pessoas pudessem, na leitura, também descobrir universos alternativos. Como numa viagem ao alcance dos dedos, ao transitar entre a realidade cotidiana e a das páginas, a leitora e o leitor de ficção podem encontrar maneiras para viver no mundo atual, por vezes estranho, mas cheio de lirismo. Ademais, quando vemos hoje em dia gente bebendo detergente direto da embalagem por conta própria – uma assepsia no mais alto grau, que flerta com o envenenamento – afastar-se momentaneamente do cotidiano pode, no mínimo, contribuir com a sanidade mental.
No livro, os cães, por exemplo: trabalho com animais e os observo. Então atribuo algumas de suas reações e comportamentos a outros animais e pessoas. Alguns cachorros, inclusive, têm participação importante na história. Quanto à pescadora, quem nada no mar e vai a uma praia desconhecida, procura sempre uma pessoa local para entender o movimento das águas. Muitas vezes, quem conhece o ambiente dá dicas importantes de sobrevivência. São exemplos de vivência que procurei trazer à esta ficção. Acho bacana partir dessas situações e temperar o texto com cenários imaginados.
PN — Há algo de muito poético na imagem que dá título ao livro: procurar a lua durante o dia, quando ela é mais difícil de enxergar. O que representa essa "lua do dia" para você? E, para fechar, por que vale a pena acompanhar Pedro e Linda Flor nessa travessia?
RICARDO — É uma travessia de percurso incerto, na penumbra, de resgate e procura. Na orelha do livro, lê-se que buscar “a lua do dia é, na fonte de luz, procurar pela sombra”. Os caminhos se apresentam à medida que a história avança. Com obstáculos, é verdade, pois andar no escuro exige atenção. A luz e a sobra estão sempre aí, é só olhar para o céu e ver uma nuvem chegando. A sombra esconde a luz, mas também alivia o calor excessivo.
Além desse caminho, o livro apresenta uma cidade desconhecida, subterrânea, estranha, ora acolhedora, ora aberta a todo tipo de gente. A lua do dia é também essa aventura incerta, difícil de enxergar, como você disse na pergunta, muitas vezes encontrada nos nossos próprios subterrâneos em que a fantasia e o concreto se fundem.







