
"Desde o início eu sabia que não queria escrever uma biografia de Charles Darwin, nem produzir um relato histórico da sua expedição." A frase de Marcio Pimenta resume bem Encontrando Darwin (Solisluna). Depois de percorrer mais de 11 mil quilômetros pela Patagônia e pela Terra do Fogo, refazendo parte da rota do HMS Beagle com apoio da National Geographic Society, o explorador brasileiro propõe menos uma investigação sobre o naturalista inglês do que sobre o processo que moldou seu pensamento.
Ao revisitar essa travessia quase dois séculos depois, Pimenta sugere que explorar um território nunca significa apenas percorrê-lo. Em Encontrando Darwin, a viagem funciona como uma investigação sobre a forma como paisagens, encontros e experiências moldam ideias, tanto as do jovem Darwin quanto as de quem decide refazer seus passos.
O resultado é um livro que cruza relato de viagem, história da ciência e reflexão contemporânea para acompanhar um Darwin ainda distante da figura consagrada, "um jovem cheio de dúvidas, mas bastante curioso e aberto para novas ideias". Ao PublishNews, Pimenta fala sobre a travessia, a experiência de explorar um mundo já cartografado e o que mudou na sua própria leitura de Darwin. Leia a entrevista!
PUBLISHNEWS — Encontrando Darwin poderia ser um livro sobre Charles Darwin (1809-1882), mas me pareceu ser mais um livro sobre você. Quando ficou claro que seguir os passos do naturalista inglês exigiria se colocar mais no processo, expondo as suas próprias dúvidas e transformações, e não apenas reconstituir uma viagem histórica?
MARCIO PIMENTA — Acho que toda narrativa de viagem acaba revelando tanto quem observa quanto aquilo que é observado. Isso não acontece por escolha, mas porque o olhar nunca é neutro. E esse olhar traz consigo experiências vividas.
Desde o início eu sabia que não queria escrever uma biografia de Charles Darwin, nem produzir um relato histórico da sua expedição. Meu interesse era compreender como aquele tempo e território participaram da formação do seu pensamento. O Darwin que chega ali é um jovem cheio de dúvidas, mas bastante curioso e aberto para novas ideias.
Ao longo da viagem, percebi que esse processo exigia honestidade também comigo mesmo. Em vários momentos, encontrei uma Patagônia que contrariava as imagens que eu havia construído antes de partir. Registrar essas mudanças não significava colocar a minha história acima da de Darwin, mas mostrar ao leitor que explorar é justamente permitir que a realidade desmonte nossas certezas.
Se o livro revela minhas dúvidas, é porque elas fazem parte da própria experiência de conhecer. Isso é exploração.
PN — Durante muito tempo, a figura do explorador esteve associada à conquista. No seu livro, ela está mais ligada à escuta, à observação e até à vulnerabilidade. O que significa ser um explorador num mundo em que quase todos os territórios já foram mapeados?

MARCIO — Excelente pergunta. Durante séculos, explorar significava preencher espaços em branco nos mapas. Hoje, quase não existem esses espaços. Mas continuam existindo territórios complexos, que exigem interpretação. O papel do explorador mudou. Ele deixou de ser alguém que chega para conquistar e passou a ser alguém que chega para compreender.
Isso exige uma postura diferente. Significa ouvir mais do que falar, observar antes de concluir e aceitar que, muitas vezes, a realidade é mais interessante do que as hipóteses que levamos para o campo.
A vulnerabilidade faz parte desse processo porque explorar não é confirmar aquilo em que já acreditamos. É estar disposto a abandonar uma ideia quando o território apresenta uma explicação melhor. Essa é a forma contemporânea de exploração.
PN — Você escreve que a Patagônia foi decisiva para Darwin muito antes das Ilhas Galápagos ocuparem esse lugar no imaginário popular. O que essa viagem mudou na sua própria leitura de Darwin?
MARCIO — Antes da expedição, eu também carregava a imagem mais difundida de Darwin: a das Ilhas Galápagos como o grande ponto de inflexão de sua trajetória. Ao percorrer mais de 11 mil quilômetros pela Patagônia, seguindo seus rastros quase duzentos anos depois, percebi que essa história começa muito antes.
Foi na Patagônia que Darwin encontrou fósseis de mamíferos gigantes, passou a conectar geologia, fauna e tempo profundo e começou a desconfiar de explicações que até então pareciam incontestáveis. Mais do que um lugar por onde ele passou, a Patagônia foi um laboratório onde seu modo de observar o mundo começou a se transformar. As Galápagos continuam sendo fundamentais, mas elas representam uma etapa de um processo intelectual iniciado no extremo sul da América.
Essa viagem também mudou minha maneira de ler Darwin. Passei a vê-lo menos como o homem que teve uma grande ideia e mais como alguém que aprendeu a fazer perguntas cada vez melhores.
Talvez seja essa a principal proposta deste livro: não revisitar apenas a rota de uma expedição, mas acompanhar o nascimento de um modo de pensar que ainda influencia a ciência e a forma como observamos o mundo.






