
O jornalista e escritor argentino Juan Carlos Kreimer está lançando Zen-ciclismo: a bicicleta como caminho (Gryphus Editora). Nesta entrevista ao PublishNews, ele revela que continua encontrando na bicicleta algo que muitos associam à infância: a sensação de liberdade. "Ela desperta, aos meus 81 anos, aquele menino e aquele adolescente que fui", afirma.
No livro com prefácio de Fernando Gabeira, o autor reflete sobre memória, corpo, atenção e mobilidade urbana, defendendo o ato de pedalar como uma experiência capaz de produzir uma relação mais direta com o mundo, distante dos algoritmos e mais próxima daquilo que ele chama de "felicidade íntima". Leia o papo completo:
PUBLISHNEWS — Juan, no seu livro Zen ciclismo, a bicicleta aparece como uma espécie de tecnologia íntima, capaz de reorganizar percepção, atenção e até estados emocionais. Como você percebeu que pedalar poderia ser mais do que se transportar, produzindo uma consciência que nem combina com a vida acelerada que levamos nas cidades? Por que essa experiência ganha força num mundo de hiperconexão?
JUAN CARLOS KREIMER — A cena do primeiro capítulo, em que conto que atravessei a cidade e fui até a margem do rio e, ao chegar, não me lembrava do que havia estado pensando durante o trajeto, é muito parecida com o que acontece na minha mente quando medito. Além disso, muitas das premissas da “prática” do Zen permitem estabelecer correlações entre o que acontece do lado de fora e o que acontece na mente.
A hiperconexão é um fenômeno irreversível. Há ciclistas que pedalam falando ao celular. O ciclismo não é o oposto disso; é outro fenômeno. Está mais relacionado à experiência vivida. Deslocar-se de um lugar a outro não precisa ser apenas uma transferência física: pode ser uma vivência corporal, emocional e mental. Um exercício de independência. Um prazer individual que não é regido por algoritmos. Além disso, em lugares com muito trânsito, chegar ao destino pode ser mais rápido. Sem falar que é mais econômico. Se eu tivesse que responder com uma única palavra, seria liberdade. A liberdade que ela proporciona.

PUBLISHNEWS — Você escreve sobre temas como ecologia, mobilidade urbana, consumismo e saúde mental, escapando do tom panfletário. E me parece mais interessado em sugerir pequenas transformações cotidianas, quase silenciosas. A bicicleta seria uma forma de resistência hoje? O que existe de herança da contracultura dos anos 1970 e 1980 na atual cultura da bicicleta?
KREIMER — Exatamente. A bicicleta seria uma forma de resistência holística, que não se contrapõe ao uso de transportes motorizados nem à caminhada. Pelo contrário, ela os complementa. Eu não ando de bicicleta como quem carrega uma bandeira. É algo mais natural. E, mais do que uma militância, o ciclismo expressa um desejo de conexão direta com o movimento, sem a mediação de um motor. Por isso sustento que a bicicleta se transformou em uma extensão do nosso corpo...
As décadas de 1970 e 1980 introduziram novos paradigmas de vida e trouxeram a cultura do corpo para um mundo que se apoiava, basicamente, no intelectual. O corpo deixou de ser visto apenas como suporte da mente e passou a ser compreendido como algo integrado a ela.
Correr e pedalar, assim como alimentar-se melhor, explorar a consciência, experimentar novas terapias expressivas e vivenciais, desenvolver uma consciência ecológica e aceitar as identidades de gênero autopercebidas, enfim, toda essa cultura que se convencionou chamar de alternativa, tornou-se um complemento importante do bem-estar material. Todos esses caminhos passaram a ser compreendidos de outra forma e foram revalorizados.
PUBLISHNEWS — “A vivência é intransferível”, você assinala no livro, ao falar da relação entre corpo, bicicleta e cidade. Nele também aparece a ideia de que pedalar desperta algo quase infantil, ligado à descoberta. Os adultos teriam desaprendido certas formas de se mover no mundo? E por que a bicicleta parece recuperar essa dimensão mais sensorial da experiência humana?
KREIMER — Intransferível porque cada pessoa estabelece um vínculo próprio, individual e único com a bicicleta, ou melhor, com o ato de pedalar. Não existe um modelo de relação: ela oferece a liberdade de criar esse vínculo à sua medida.
Para aqueles que guardam lembranças da bicicleta da infância, é inevitável que as emoções se misturem e que, toda vez que voltamos a pedalar, revivamos essa sensação. Pessoalmente, acredito que continuo andando de bicicleta porque ela desperta, aos meus 81 anos, aquele menino e aquele adolescente que fui. E, por que não dizer, uma certa felicidade íntima.







