Três perguntas do PN para Adriana Lisboa
PublishNews, Monica Ramalho, 30/04/2026
A nova edição de 'Caligrafias' marca o retorno de um dos livros mais singulares de Adriana Lisboa. Publicada pela Rocco em 2004, a obra chega agora em edição revista e ampliada pela Maralto Edições

A nova edição de Caligrafias marca o retorno de um dos livros mais singulares de Adriana Lisboa. Publicada originalmente pela Rocco em 2004, a obra chega agora em edição revista e ampliada pela Maralto Edições, recolocando em circulação um livro que desafiou classificações, ao transitar com desenvoltura entre conto, poema em prosa e fragmento.

Escritos entre 1996 e 2004, os textos foram revistos pela autora carioca, que propôs cortes, ajustes e incorporou inéditos, trazendo o livro para o presente, sem descaracterizá-lo. Caligrafias mantém o poético diálogo com as ilustrações do artista plástico Gianguido Bonfanti, que também fez algumas atualizações. Quem continua igual em 20 anos?

"Essas 'caligrafias', por seu caráter 'entre-gêneros', fazem ainda mais sentido hoje em dia para mim do que há 20 anos. Naquela época eu as considerava mais uma espécie de exercício, de algo que eu compunha nas brechas dos textos mais longos. Hoje, esse tipo de trabalho mais fragmentário e indefinido se tornou central", conta Adriana, que vem rodado cidades para divulgar o relançamento.

De certa forma, o livro amadureceu junto com os autores. E volta a circular em um momento em que leitores são disputados pela rolagem das telas. Ao PublishNews, Adriana reflete sobre a permanência da forma híbrida, a mudança no seu processo de escrita e o que se transforma na leitura de Caligrafias hoje. Leia a conversa:

PUBLISHNEWS — Caligrafias sempre foi um livro difícil de enquadrar — entre conto, poema em prosa e fragmento. Passados mais de 20 anos da primeira edição, como você enxerga hoje essa forma híbrida? Ela ainda responde às mesmas inquietações ou ganhou novos sentidos com o tempo?

ADRIANA LISBOA — Tenho gostado cada vez mais da forma híbrida. Acho que essas 'caligrafias', por seu caráter 'entre-gêneros', fazem ainda mais sentido hoje em dia para mim do que há 20 anos. Naquela época eu as considerava mais uma espécie de exercício, de algo que eu compunha nas brechas dos textos mais longos. Hoje, esse tipo de trabalho mais fragmentário e indefinido se tornou central.

PN — ⁠A reedição pela Maralto recoloca o livro em circulação para novos leitores. O que você imagina que muda na leitura de ‘Caligrafias’ hoje, em um contexto de aceleração e excesso de linguagem?

ADRIANA — Existe um excesso de linguagem hoje mas também uma equivalente falta de profundidade, com o achatamento da nossa capacidade de concentração. Talvez nestes tempos os textos de Caligrafias possam se apresentar como uma espécie de breve pausa.

PN — ⁠Depois de uma trajetória consolidada, com obras traduzidas e premiadas, o que ainda falta fazer na literatura? Vem livro novo por aí, Adriana?

ADRIANA — Sempre fica faltando fazer alguma coisa, acho que a gente nunca é uma escritora pronta. Mas depois de quase 30 anos de carreira e aos 56 de idade, posso dizer que tenho uma sensação de completude, de ter descrito um arco para mim significativo, e estou muito mais solta com relação às minhas próprias expectativas. Tenho alguns trabalhos na agulha, um novo romance (que transita pelo tema do misticismo) e um novo ensaio, mas hoje tudo é muito mais tranquilo.

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