
"Estou relendo Ronda da noite, de Patrick Modiano, na edição brasileira da Rocco, de 2014. Volto a esse livro porque em maio terei a honra de mediar a discussão dele no clube Leituras Paralelas, em Fortaleza (CE). Publicado originalmente em 1969, é o segundo romance de Modiano e costuma ser situado na sua primeira trilogia da Ocupação. No centro da narrativa está um homem que serve ao mesmo tempo à Resistência e à Gestapo francesa, aprisionado numa zona moral em que a própria ideia de lealdade perde contorno.
Mais do que a trama, o que me fascina em Ronda da noite é a atmosfera. Poucos livros alcançam com tanta nitidez essa impressão de ruína iminente, de um mundo prestes a se apagar. Uma frase me acompanha desde a primeira leitura: 'Durante todo o dia, passeio nesta cidade que naufraga'. Nessa frase quase tudo se concentra. No livro, a Paris ocupada adquire a densidade de um estado de espírito: um espaço tomado pelo medo, pela duplicidade e pela dissolução.
Entre as muitas camadas do romance, me toca especialmente a desilusão sem heroísmo que o percorre. 'Filas de carros escoam em direção às portas de Paris, e eu me sento num banco. Gostaria de acompanhá-los na sua fuga, mas nada tenho a salvar'. É o tipo de verdade que comove: a de alguém que já não sustenta sequer a ilusão de resgatar alguma coisa intacta de si. Modiano escreve a catástrofe histórica, claro, mas escreve também uma falência interior que ultrapassa aquele tempo e alcança uma dimensão mais vasta.
O narrador circula entre chefes colaboracionistas e uma rede clandestina; muda de nome, de posição, de máscara, até já não saber de que lado está — ou se ainda existe um lado que possa realmente ser seu. A orelha da edição brasileira condensa esse impasse numa pergunta perfeita: 'Como se tornar traidor, como não ser?'. O romance conduz essa pergunta até uma zona quase alucinatória.
Talvez seja aí que essa obra dialogue mais profundamente com o meu trabalho. Interessa-me essa experiência de deslocamento contínuo, essa impossibilidade de pertencer de fato a algum lugar. Quando o narrador diz que 'o Kedhive e o tenente são uma só pessoa e eu não sou senão uma mariposa enlouquecida voando entre uma lâmpada e outra e queimando cada vez mais suas asas', ele dá forma a uma experiência que, embora surja ali num contexto histórico muito específico, reverbera em outras esferas da vida social e íntima. Nos meus livros, isso aparece de outra maneira: na inadequação do homem negro escolarizado que ascende socialmente, mas não encontra repouso, pertencimento nem felicidade. Em ambos os casos, há um sujeito empurrado para espaços que o acolhem mal, ou apenas sob condição.
Recomendo Ronda da noite porque é um desses romances breves que continuam a se expandir dentro do leitor. A prosa de Modiano é límpida, mas nunca inteiramente apaziguadora; há sempre nela um resquício de sombra, uma vibração de ameaça, uma instabilidade corrosiva. Ao fim, fica a impressão de atravessar uma cidade prestes a desaparecer — e, nessa travessia, encontrar algo muito vivo sobre o medo, o deslocamento e a precariedade de qualquer identidade".
Maurício Mendes é médico especialista em Medicina Nuclear e escritor. Autor do romance O homem não foi feito para ser feliz (Mondru), explora em sua obra temas como deslocamento, masculinidade, racismo estrutural e angústias existenciais contemporâneas. É colaborador do jornal O Odisseu e mediador e curador de clubes de leitura.






