Tárik de Souza: 'A bossa nova foi uma insurreição, não um consenso'
PublishNews, Monica Ramalho, 24/04/2026
'João nunca visou o lucro ou o poder, apenas a fruição estética no mais alto grau. Por isso assombrou o planeta, mesmo cantando em português', diz o jornalista e escritor. Leia a entrevista completa!

Em tempos instagramáveis, em que o senso crítico dá lugar a postar nas redes sociais o que engaja — e sim, muita gente têm fotografado livrinhos porque está na moda —, conversamos com um dos críticos musicais mais renomados do país. Com passagens por veículos fundamentais da imprensa brasileira, como O Pasquim, Carta Capital, Clique Music e Jornal do Brasil, no qual manteve por décadas a excelente coluna Supersônicas, o jornalista e escritor Tárik de Souza começou a escrever sobre cultura muito jovem, ainda no final dos anos 1960, quando a Música Popular Brasileira fixava a sigla MPB em disputas abertas de linguagem e posicionamento político.

Foi nesse contexto propício ao debate que Tárik assinou na Veja, na época uma revista de leitura semanal obrigatória, uma dura crítica a um show do baiano Caetano Veloso, que já era um nome de destaque na cena, mas estava batalhando forte para reconquistar e expandir o seu espaço no Brasil, pois havia acabado de voltar do exílio em Londres. Fato é que Caetano respondeu a crítica e esse bate-boca intelectual repercutiu. Daí em diante, Tárik ficou conhecido como um crítico seletivo e com personalidade, que dizia o que realmente pensava sobre artistas, movimentos, discos e shows, a partir de uma sólida base de conhecimentos e bom ouvido, é claro.

Mais de 20 anos e muitos livros depois, o jornalista nascido em 1946 em São Paulo, e morador do Rio de Janeiro há décadas, continua a dizer o que pensa, mesmo que isso signifique confrontar narrativas estabelecidas. No livro João Gilberto e a insurreição bossa nova: Outros lados da história, lançado no final de 2025 pela L&PM Editores, ele se sente em casa ao questionar a narrativa consagrada sobre o movimento, afastando de vez a ideia de harmonia pacificada e revelando uma trama de embates estéticos, invenção e disputa. No centro desse redemoinho está João Gilberto, outro baiano considerado a força organizadora de uma transformação sonora radical no país.

"João nunca visou o lucro ou o poder, apenas a fruição estética no mais alto grau. Por isso assombrou o planeta, mesmo cantando em português", afirma o escritor. Nesta entrevista ao PublishNews, Tárik de Souza fala sobre revisão histórica, escuta crítica e o que ainda estica o assunto bossa nova. Leia e compartilhe:

PUBLISHNEWS — Em João Gilberto e a insurreição bossa nova: Outros lados da história (L&PM Editores) você revisita o movimento não como um estilo pacificado, mas como uma ruptura estética que desconstrói mitos e preconceitos ainda muito presentes na narrativa consagrada sobre a bossa nova. Em que momento você percebeu que essa história precisava ser revista, iluminando também os seus bastidores?

TÁRIK DE SOUZA — Assim como tentei corrigir a injustiça da invisibilidade do movimento sambalanço, que abordei no livro e filme Sambalanço, a bossa que dança (com o cineasta Fabiano Maciel), desde sempre achei que a bossa nova padecia de uma visão deturpada, que parte da mídia incutia no público: Musiquinha de elevador, quase new age, coisa de velho, produto da juventude branca da Zona Sul carioca. Prego a demolição destes (pre)conceitos logo no título, onde inseri propositalmente a palavra "insurreição", já que documento no livro que sua implantação não foi nada plácida. Enfrentou muita oposição e fogo cerrado de quem viu ameaçado seu lugar no status quo, com a introdução de experimentos de vanguarda na MPB. Embora alguns precursores viessem experimentando dissonâncias, acordes alterados e outras assimetrias, foi a bossa quem sistematizou tais procedimentos e abriu uma avenida para inovações sistemáticas, inclusive o improviso, sempre associado apenas ao jazz.

João Gilberto, Caetano Veloso e Gal Costa nos anos 60
João Gilberto, Caetano Veloso e Gal Costa nos anos 60

PN — João Gilberto aparece no livro não apenas como protagonista, mas como uma espécie de força organizadora, quase um princípio estético. Depois de décadas de escuta, entrevistas e observação crítica, o que em João ainda permanece indecifrável para você? E por que esse mistério continua sendo produtivo?

TÁRIK — Como digo no livro, João foi a mais poderosa mente que conheci. Sua abordagem musical era altamente elaborada, somada a uma persistência maníaca na procura do acorde perfeito. Mas seu segredo é que tudo isso deveria soar casual, fluente, como se fosse muito fácil de ser feito. Tinha obsessão pela fidelidade aos versos dos compositores e sua pronúncia nítida. Isso tudo, enquanto o violão balançava furiosamente e a voz parecia atravessar os acordes, mas sem nunca perder o prumo. Você compreendeu tudo: ele foi a força organizadora, a centrífuga da bossa, e encarnou seus princípios estéticos com rara sagacidade. O mistério da esfinge continua produtivo e de uma fertilidade inesgotável, porque balizado por inegociável idealismo. João nunca visou o lucro ou o poder, apenas a fruição estética no mais alto grau. Por isso assombrou o planeta, mesmo cantando em português.

PN — A sua escrita crítica tem como fontes jornais, revistas, rádio, televisão, livros e décadas de convivência com a música brasileira. Como o tempo altera o trabalho do crítico musical? O que só se deixa compreender quando a escuta não é imediata, mas costurada por anos, silêncios e reaparições?

TÁRIK — Considero a crítica uma forma de arte, e como tal, afeita a passagem do tempo e absorção de conhecimentos. Não é simples driblar a sedução do modismo de ocasião, as tentações da adesão incondicional, ou o pertencimento gratuito. A adversidade das escolhas, o contraplano das marés, a divergência solitária e o tempo de espera da sedimentação, são fundamentais para o exercício da boa crítica. A que vem acompanhada de reflexão e amadurecimento.

PN — Ao longo da carreira, você nunca tratou a crítica musical como mero juízo de gosto, mas como intervenção no debate cultural. Em que medida escrever sobre música sempre foi, para você, também escrever sobre poder, mercado, política e memória — e sobre quem a história da música brasileira costuma deixar à margem?

TÁRIK — Bem elencado: poder, mercado, política e memória também são argamassas da arte. Cabe ao crítico juntar todas essas pontas, aparentemente, soltas. E ao artista conscientizar-se. Ou pagará de inocente útil. Ou inútil. E dois faróis paradoxais devem iluminar sempre a trajetória do crítico: as raízes e a vanguarda; ambas fora do mainstream e suscetíveis de serem descartadas pela massificação.

PN — Num momento em que a crítica cultural parece cada vez mais rarefeita ou substituída por comentários rápidos e rankings, que papel você acredita que livros como este podem cumprir hoje? O que ainda vale a pena ensinar às novas gerações sobre escutar música com atenção, rigor e imaginação?

TÁRIK — O livro é exatamente uma tentativa de chamar atenção para os outros lados da história oficial, que raramente são contados. Vale sempre a pena atrair as novas gerações para o inesgotável prazer da descoberta desta arte mais densa e menos reativa, que brota da atividade de músicos devotados a seu ofício sem caretice, mas com paixão.

[24/04/2026 09:22:47]