Três Perguntas do PN para Ricardo Costa
PublishNews, Monica Ramalho, 17/04/2026
"O dado do livro deixou de ser responsabilidade isolada de cadastro e passou a envolver múltiplas áreas, sinal de amadurecimento do mercado, ainda com diferentes velocidades", diz o CEO da MVB

Em um mercado editorial cada vez mais orientado por dados, a forma como um livro é descrito, classificado e distribuído digitalmente ganha protagonismo e rende até premiações do setor. É o caso do Prêmio Metabooks, uma das categorias do Prêmio PublishNews, que terá os seus vencedores revelados no dia 6 de maio, em cerimônia no Theatro São Pedro, em São Paulo, com foco em reconhecer a qualidade dos metadados cadastrados pelas editoras brasileiras. Clique aqui para conhecer os finalistas deste ano. CEO da MVB América Latina, empresa responsável pela plataforma Metabooks no Brasil, Ricardo Costa acompanha de perto essa transformação e atua justamente na articulação entre editoras, livrarias e distribuidoras a fim de qualificar o uso de dados no país.

“Uma editora que domina seus dados e que mantém seu catálogo completo e atualizado na Metabooks tem mais controle sobre como seus livros são apresentados em qualquer canal. Depende menos da interpretação de terceiros e ganha autonomia sobre a própria presença no mercado. No ambiente digital, isso é decisivo”, crava Ricardo por WhatsApp, direto da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha.

Responsável por estruturar e distribuir informações sobre livros ao longo da cadeia, a MVB tem apostado em iniciativas como o prêmio para dar visibilidade a um trabalho historicamente desconhecido por boa parte do próprio mercado editorial. Para o executivo, esse movimento já reposiciona o papel dos metadados no setor e tende a ganhar ainda mais holofotes. “A tendência é que, nos próximos anos, o reconhecimento de metadados qualificados, consistentes e bem gerenciados deixe de ser um diferencial e passe a ser um requisito básico de competitividade no mercado editorial”. Interessou? Leia a entrevista completa:

PUBLISHNEWS — Nos últimos anos, os metadados saíram dos bastidores para influenciar a descoberta e a venda de livros. Que mudanças concretas você já observa no mercado brasileiro a partir da profissionalização desse uso?

RICARDO COSTA — A principal mudança é que metadados estão deixando de ser uma etapa operacional e burocrática para se tornarem um fator direto de performance comercial. Hoje, não estamos mais falando apenas de organizar catálogo, estamos falando de influenciar descoberta, relevância e, no fim, venda.

Na prática, isso se traduz em movimentos muito concretos. Editoras mais estruturadas passaram a investir em descrições mais completas, categorização temática mais precisa e uso consistente de palavras-chave que dialogam com os mecanismos de busca dos canais digitais. Quando um título chega ao mercado com sinopse bem construída, biografia de autor atualizada, classificação correta de assunto e demais metadados qualificados, o impacto é imediato: ele aparece mais, aparece no contexto certo e converte melhor. Em um ambiente cada vez mais orientado por busca, isso deixa de ser detalhe e passa a ser determinante.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que esse avanço ainda é desigual. Existe um grupo de editoras que já incorporou essa lógica ao fluxo de trabalho, algumas inclusive estruturando áreas dedicadas à gestão de metadados. Mas uma parte relevante do mercado ainda opera com cadastros incompletos, informações desatualizadas e pouca governança sobre o próprio catálogo. Isso gera um efeito sistêmico: livros que não aparecem quando deveriam, retrabalho na cadeia e perda de vendas que muitas vezes nem é percebida. É uma ineficiência silenciosa.

O ponto mais relevante, no entanto, é a mudança de mentalidade. Quando iniciamos nossa atuação no Brasil, metadados dificilmente entravam na conversa estratégica de uma editora. Ao longo desse período, houve um trabalho consistente de desenvolvimento e amadurecimento do mercado, do qual a Metabooks tem orgulho de ter participado ativamente, contribuindo para a evolução dessa agenda no país.

Hoje, nas operações mais maduras, os metadados já fazem parte da lógica comercial e de marketing. O dado do livro deixou de ser responsabilidade isolada de cadastro e passou a envolver múltiplas áreas. Esse movimento de integração é o sinal mais claro de amadurecimento do mercado, ainda com diferentes velocidades, mas já em uma trajetória irreversível.

PN — O Prêmio Metabooks se baseia em critérios objetivos de qualidade de metadados — algo historicamente invisível para o público. Ao premiar esse bastidor, a MVB está, na prática, propondo um novo parâmetro de excelência no mercado editorial? Até que ponto isso reposiciona o papel das editoras?

RICARDO — O que o Prêmio Metabooks faz, na essência, é transformar qualidade de dados em algo visível, comparável e, sobretudo, mensurável. O mercado editorial já sabe que informação bem estruturada importa, mas essa percepção era difusa, pois não havia uma referência clara que permitisse distinguir quem apenas cumpre o básico de quem realmente opera com excelência.

Ao estabelecer critérios objetivos, com níveis progressivos de maturidade, o prêmio cria uma régua. E réguas, quando estabelecidas, tendem a mudar o comportamento do mercado. Ela organiza expectativas, orienta decisões e, principalmente, torna evidente onde estão as lacunas.

Nesse sentido, sim. Há um novo parâmetro de excelência sendo construído. Mas não como uma imposição externa. O que o status de qualidade, como é reconhecido o sistema de medalhas da Metabooks, faz é dar visibilidade a um trabalho que já existe dentro das editoras e que, historicamente, não apareciam. Quando a qualidade dos metadados passa a ser avaliada, comparada e reconhecida, a conversa interna tende a mudar. Times responsáveis por dados ganham relevância, investimentos em gestão de catálogo passam a fazer mais sentido e a liderança começa a enxergar metadados não como custo operacional, mas como ativo estratégico.

O efeito disso no posicionamento do mercado é direto. Uma editora que domina seus dados e que mantém seu catálogo completo e atualizado na Metabooks tem mais controle sobre como seus livros são apresentados em qualquer canal. Depende menos da interpretação de terceiros e ganha autonomia sobre a própria presença no mercado. No ambiente digital, isso é decisivo. O algoritmo não reconhece reputação editorial a primeira vista, ele reconhece dados. E, nesse contexto, excelência em metadados deixa de ser uma competência técnica isolada para se tornar uma vantagem competitiva concreta.

PN — Você sentiu alguma mudança concreta na visibilidade e no reconhecimento das empresas premiadas ou o mercado brasileiro ainda não chegou nesse nível de maturidade?

RICARDO — Já existem sinais claros de mudança, mas seria precipitado dizer que o mercado brasileiro, como um todo, já atingiu um nível pleno de maturidade nesse reconhecimento. O que se observa é um avanço em camadas, com impactos diferentes dependendo do nível de proximidade com a operação de dados.

Dentro das empresas que participam e se destacam, o efeito é imediato e bastante concreto. Há mobilização de equipes, revisão de processos e, principalmente, uma validação interna que fortalece a cultura de gestão de dados. Esse reconhecimento tem um papel importante porque legitima um trabalho que, muitas vezes, acontece nos bastidores e disputa espaço com outras prioridades operacionais. É nesse nível que começam as mudanças estruturais mais consistentes.

No mercado mais amplo, a percepção ainda evolui de forma desigual. Profissionais ligados à distribuição, operação comercial e plataformas digitais já entendem com clareza o impacto direto da qualidade dos metadados na eficiência da cadeia. São esses profissionais que lidam diariamente com os efeitos de dados incompletos: livros que não aparecem nas buscas, inconsistências entre canais e retrabalho constante. Para esse público, a relação entre qualidade de dados e resultado é evidente.

O desafio maior ainda está na camada estratégica de decisão. Parte do mercado executivo ainda enxerga metadados como um tema excessivamente técnico, distante das decisões de negócio. É exatamente aí que o prêmio cumpre um papel relevante: ele traduz um tema operacional em um indicador de excelência que a liderança consegue compreender e comparar. Cada edição amplia essa percepção.

Não se trata de uma mudança abrupta, mas de um processo cumulativo, impulsionado por uma agenda que a Metabooks vem desenvolvendo no mercado brasileiro desde 2017. À medida que a qualidade de dados passa a diferenciar a performance entre players, essa agenda deixa de ser opcional. A tendência é que, nos próximos anos, o reconhecimento de metadados qualificados, consistentes e bem gerenciados deixe de ser um diferencial e passe a ser um requisito básico de competitividade no mercado editorial. Na Alemanha, onde a plataforma VLB opera há mais tempo com essa lógica de qualidade, a gestão profissional de metadados já é um pré-requisito para visibilidade nos principais canais. O mercado brasileiro caminha nessa mesma direção.

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