Milton Hatoum toma posse na ABL e se torna o primeiro acadêmico amazonense
PublishNews, Monica Ramalho, 28/04/2026
Autor do apaixonante 'Dois irmãos' assume a cadeira número 6, que foi ocupada por Cicero Sandroni; Em discurso, Hatoum valoriza leitores e professores que leem e trabalham com os seus livros

Reprodução do Instagram de Milton Hatoum
Reprodução do Instagram de Milton Hatoum
O escritor Milton Hatoum tomou posse na sexta, dia 24 de abril, como novo integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, tornando-se o primeiro autor nascido no Amazonas a ocupar uma cadeira na instituição: a de número 6, que pertenceu ao jornalista e escritor Cícero Sandroni (1935-2025).

"Fico muito grato a todos da academia que me elegeram. Mas é uma homenagem sobretudo aos leitores, às minhas leitoras, aos professores e professoras não só da Amazônia, mas de todo o Brasil; são pessoas que trabalharam e trabalham com os meus livros", disse o escritor à imprensa reunida.

Com uma obra marcada pela memória, pelos conflitos familiares e pela construção simbólica da Amazônia, o autor de Dois irmãos já era apontado como um dos nomes centrais da literatura brasileira contemporânea. O ingresso de Hatoum na instituição reforça a presença de vozes ligadas a diferentes territórios e tradições literárias no quadro de imortais.

"A chegada do Hatoum à casa engrandece e honra a ABL. Autor de uma ficção que potencializa a identidade brasileira e a língua do país, Hatoum nunca se deixou levar por modismos de última hora. Manteve-se sóbrio, priorizando a arte literária entendida como produção calcada na ambiguidade e na indissociabilidade entre fundo e forma. De Santa Catarina ao Amazonas, a ABL cada vez mais se mostra como uma das mais importantes instituições culturais do país", afirmou o escritor e acadêmico Godofredo de Oliveira Neto ao PublishNews.

Para a escritora Luize Valente, esse momento "não só consagra um dos mais brilhantes romancistas contemporâneos brasileiros, mas também sua prosa robusta e visceral, que trata a memória com rigor e dá à Amazônia um lugar de destaque na literatura brasileira”, atesta.

Já o escritor e professor Marcelino Freire pensa que a eleição representa um alargamento de horizontes dentro da Academia. "As presenças de Milton Hatoum, de Ana Maria Gonçalves, de Ailton Krenak abrem as portas da ABL para a literatura que nos interessa e nos representa. É ocupação legítima e necessária. Desejo sucesso sempre ao Hatoum que leva, com ele, a natureza imortal de sua escrita manauara", escreveu Marcelino, que prepara novos autores ao mercado editorial.

Marcelo Moutinho, Marcelino Freire, Rogério Athayde, Godofredo de Oliveira, Airton Souza, Luize Valente
Marcelo Moutinho, Marcelino Freire, Rogério Athayde, Godofredo de Oliveira, Airton Souza, Luize Valente

Marcelo Moutinho estava presente e publicou diversas fotos com autores como Socorro Acioli, Eliana Alves Cruz e Antônio Torres, outro imortal, além de Hatoum. "Foi umas posses mais bonitas que testemunhei na Academia Brasileira de Letras. Tanto pela fala contundente e amorosa de Ana Maria Machado, dando boas-vindas a Hatoum, quanto pelo discurso do empossado. Ele mesclou, com leveza, precisão e bom humor, suas referências intelectuais à memória pessoal. De Graciliano Ramos passamos a uma pequena banca de livros na cidade de Manaus; de Euclides da Cunha, aos primeiros professores; de Antonio Candido, ao sabor tão próprio do tambaqui. Com a chegada de Hatoum, ganha a Academia e ganhamos nós, os leitores de sua extraordinária obra", enumerou ele.

Adriana Lisboa diz estar alegre de um modo bem especial: "Não são muitos os escritores brasileiros que conseguiram transformar memória, perda e deslocamento em arquitetura narrativa tão depurada. A cadeira na Academia só confirma o lugar que sua obra já tinha conquistado em meio aos seus leitores e à crítica", escreveu ela.

Sobrinho-neto de Austregésilo de Athayde (1898-1993), presidente da ABL de 1959 até a sua partida, o escritor e professor Rogério Athayde comentou sobre a posse: "Cada leitor lê e reinventa o autor como pode, como quer ou como sonha. De onde estou, faço o mesmo. Por essa razão devo dizer que aquilo que me atrai nos livros do Hatoum é uma tristeza constante pelo que foi perdido, a vontade contrariada de recuperar o que já não se encontra, a decadência da cidade, das famílias tradicionais, os irmãos que deixaram de ser, um mundo substituído por outro, menos bonito, mais difícil e tão, mas tão real, tão querido também. Milton escreve saudades como poucos foram capazes de fazer".

Para o escritor premiado Airton Souza, do Pará, o reconhecimento ao escritor manauara, aos 73 anos, vem carregada de simbolismo: "A posse de Milton Hatoum na ABL representa um marco na história das literaturas desse país, porque a obra construída por ele nasceu dentro de um território historicamente relegado à própria sorte, e em momento algum essa obra abdica dos imaginários e das realidades amazônicas. Milton Hatoum representa um Norte que fala de si mesmo para o mundo. Por isso, nesse momento as Amazônias celebram".

A jornalista Helena Aragão, que realizou entrevistas com o novo imortal da ABL, "Hatoum encerrou seu belo discurso com o que interessa: reverenciando professores que marcaram sua infância e a livraria de Manaus que foi fundamental para sua formação como leitor. Não posso imaginar nada mais decisivo para se plantar a semente do amor aos livros. Fica a esperança que sua chegada à ABL torne a instituição mais próxima, sobretudo, dos leitores em potencial".

Três edições do livro que virou série na TV
Três edições do livro que virou série na TV
Amazônia no eixo central de sua obra

Nascido em Manaus, em 1952, Milton Hatoum é jornalista e arquiteto de formação, além de ter atuado como professor universitário e tradutor. Filho de imigrantes libaneses, viveu em diferentes cidades e países, mas fez da Amazônia e de suas origens o eixo central de sua obra. A trajetória literária de Hatoum ganhou projeção nacional ainda na década de 1980, com Relato de um certo Oriente, romance que recebeu adaptação cinematográfica em 2024.

Ao longo da carreira, o autor venceu três vezes o Prêmio Jabuti e ultrapassa a marca de 500 mil exemplares vendidos no mundo. Entre os seus livros mais conhecidos está Dois irmãos, adaptado para a televisão em 2017, em minissérie exibida pela Globo. A obra ajudou a consolidar o escritor como um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. "O fato de ele ser amazonense acrescenta ainda mais a importância dele para a literatura. É uma literatura que busca explicar a sociedade brasileira", afirmou Merval Pereira, presidente da ABL, aos jornalistas que estavam na cerimônia.

[28/04/2026 11:45:08]