
"Fico muito grato a todos da academia que me elegeram. Mas é uma homenagem sobretudo aos leitores, às minhas leitoras, aos professores e professoras não só da Amazônia, mas de todo o Brasil; são pessoas que trabalharam e trabalham com os meus livros", disse o escritor à imprensa reunida.
Com uma obra marcada pela memória, pelos conflitos familiares e pela construção simbólica da Amazônia, o autor de Dois irmãos já era apontado como um dos nomes centrais da literatura brasileira contemporânea. O ingresso de Hatoum na instituição reforça a presença de vozes ligadas a diferentes territórios e tradições literárias no quadro de imortais.
"A chegada do Hatoum à casa engrandece e honra a ABL. Autor de uma ficção que potencializa a identidade brasileira e a língua do país, Hatoum nunca se deixou levar por modismos de última hora. Manteve-se sóbrio, priorizando a arte literária entendida como produção calcada na ambiguidade e na indissociabilidade entre fundo e forma. De Santa Catarina ao Amazonas, a ABL cada vez mais se mostra como uma das mais importantes instituições culturais do país", afirmou o escritor e acadêmico Godofredo de Oliveira Neto ao PublishNews.
Para a escritora Luize Valente, esse momento "não só consagra um dos mais brilhantes romancistas contemporâneos brasileiros, mas também sua prosa robusta e visceral, que trata a memória com rigor e dá à Amazônia um lugar de destaque na literatura brasileira”, atesta.
Já o escritor e professor Marcelino Freire pensa que a eleição representa um alargamento de horizontes dentro da Academia. "As presenças de Milton Hatoum, de Ana Maria Gonçalves, de Ailton Krenak abrem as portas da ABL para a literatura que nos interessa e nos representa. É ocupação legítima e necessária. Desejo sucesso sempre ao Hatoum que leva, com ele, a natureza imortal de sua escrita manauara", escreveu Marcelino, que prepara novos autores ao mercado editorial.

Marcelo Moutinho estava presente e publicou diversas fotos com autores como Socorro Acioli, Eliana Alves Cruz e Antônio Torres, outro imortal, além de Hatoum. "Foi umas posses mais bonitas que testemunhei na Academia Brasileira de Letras. Tanto pela fala contundente e amorosa de Ana Maria Machado, dando boas-vindas a Hatoum, quanto pelo discurso do empossado. Ele mesclou, com leveza, precisão e bom humor, suas referências intelectuais à memória pessoal. De Graciliano Ramos passamos a uma pequena banca de livros na cidade de Manaus; de Euclides da Cunha, aos primeiros professores; de Antonio Candido, ao sabor tão próprio do tambaqui. Com a chegada de Hatoum, ganha a Academia e ganhamos nós, os leitores de sua extraordinária obra", enumerou ele.
Adriana Lisboa diz estar alegre de um modo bem especial: "Não são muitos os escritores brasileiros que conseguiram transformar memória, perda e deslocamento em arquitetura narrativa tão depurada. A cadeira na Academia só confirma o lugar que sua obra já tinha conquistado em meio aos seus leitores e à crítica", escreveu ela.
Sobrinho-neto de Austregésilo de Athayde (1898-1993), presidente da ABL de 1959 até a sua partida, o escritor e professor Rogério Athayde comentou sobre a posse: "Cada leitor lê e reinventa o autor como pode, como quer ou como sonha. De onde estou, faço o mesmo. Por essa razão devo dizer que aquilo que me atrai nos livros do Hatoum é uma tristeza constante pelo que foi perdido, a vontade contrariada de recuperar o que já não se encontra, a decadência da cidade, das famílias tradicionais, os irmãos que deixaram de ser, um mundo substituído por outro, menos bonito, mais difícil e tão, mas tão real, tão querido também. Milton escreve saudades como poucos foram capazes de fazer".
Para o escritor premiado Airton Souza, do Pará, o reconhecimento ao escritor manauara, aos 73 anos, vem carregada de simbolismo: "A posse de Milton Hatoum na ABL representa um marco na história das literaturas desse país, porque a obra construída por ele nasceu dentro de um território historicamente relegado à própria sorte, e em momento algum essa obra abdica dos imaginários e das realidades amazônicas. Milton Hatoum representa um Norte que fala de si mesmo para o mundo. Por isso, nesse momento as Amazônias celebram".
A jornalista Helena Aragão, que realizou entrevistas com o novo imortal da ABL, "Hatoum encerrou seu belo discurso com o que interessa: reverenciando professores que marcaram sua infância e a livraria de Manaus que foi fundamental para sua formação como leitor. Não posso imaginar nada mais decisivo para se plantar a semente do amor aos livros. Fica a esperança que sua chegada à ABL torne a instituição mais próxima, sobretudo, dos leitores em potencial".

Nascido em Manaus, em 1952, Milton Hatoum é jornalista e arquiteto de formação, além de ter atuado como professor universitário e tradutor. Filho de imigrantes libaneses, viveu em diferentes cidades e países, mas fez da Amazônia e de suas origens o eixo central de sua obra. A trajetória literária de Hatoum ganhou projeção nacional ainda na década de 1980, com Relato de um certo Oriente, romance que recebeu adaptação cinematográfica em 2024.
Ao longo da carreira, o autor venceu três vezes o Prêmio Jabuti e ultrapassa a marca de 500 mil exemplares vendidos no mundo. Entre os seus livros mais conhecidos está Dois irmãos, adaptado para a televisão em 2017, em minissérie exibida pela Globo. A obra ajudou a consolidar o escritor como um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. "O fato de ele ser amazonense acrescenta ainda mais a importância dele para a literatura. É uma literatura que busca explicar a sociedade brasileira", afirmou Merval Pereira, presidente da ABL, aos jornalistas que estavam na cerimônia.






