Três perguntas do PN para Mirella Amorim
PublishNews, Monica Ramalho, 03/07/2026
Carioca radicada em São Paulo, escritora fala sobre 'Toca Maria Bethânia pra ela', romance que pode ser aberto por qualquer um dos lados, como um elepê, revelando duas histórias que se completam

Livros costumam ser lidos de forma linear, mas existem aqueles que convidam o leitor e a leitora a escolher por onde começar. Em Toca Maria Bethânia pra ela, a escritora Mirella Amorim faz do próprio objeto uma extensão da narrativa: o romance pode ser aberto por qualquer um dos lados, como um elepê, revelando duas histórias que se encontram e, mais do que isso, se completam. A estrutura ecoa a formação musical da autora carioca, radicada em São Paulo, que cresceu no subúrbio do Rio fascinada pelos encartes dos discos.

De um lado, Clara. Do outro, Tereza. Entre elas, a música brasileira, a força vocal e interpretativa da baiana Maria Bethânia, que completou 80 anos no dia de um dos lançamentos do livro. Ao falar sobre esse jogo narrativo, Mirella diz que "o desafio de conectar as narrativas foi adubo para uma certa obsessão que bate no momento da criação. Foi trabalhoso, mas uma delícia". Uma das cinco sócias da Editora Pitanga, ela também reflete sobre o desafio de fazer a literatura ultrapassar os grandes centros e alcançar leitores nos mais diferentes cantos deste país imenso. Leia a entrevista!

PUBLISHNEWS — Em Toca Maria Bethânia pra ela, você constrói duas histórias que se encontram como os lados A e B de um disco, inclusive podendo começar a ser lido dos dois lados, que se complementam. Como surgiu essa estrutura e qual foi o desafio de fazer essas narrativas conversarem?

MIRELLA AMORIM — A estrutura não foi uma ideia prévia, foi algo que foi se construindo. A história começou a ser escrita com a Clara como protagonista, e quando a Tereza apareceu, ela tomou de assalto o coração da Clara e, de certo modo, a própria condução da narrativa. Isso foi ficando evidente pra mim a partir da interlocução com meus colegas da pós-graduação de formação de escritores do Vera Cruz, onde o romance começou.

Minha formação estética e subjetiva é muito ancorada na música brasileira. Hoje percebo que sou diretamente influenciada pela forma narrativa de um álbum. Um álbum cria um percurso próprio e organiza canções que se iluminam mutuamente. Sempre fui fascinada pelos encartes dos LPs e tinha muito interesse em saber o que estava por trás das canções e em buscar sentido nas diferenças entre os lados. Mais ou menos no meio da escrita entendi que eu seguia esse mesmo arco narrativo e tive vontade de radicalizar a experiência.

O desafio de conectar as narrativas foi adubo para uma certa obsessão que bate no momento da criação. Foi trabalhoso, mas uma delícia.

PUBLISHNEWS — ⁠ O livro nasceu cercado por referências muito fortes da cultura brasileira, de Maria Bethânia a Sonia Braga, e ao Kléber Mendonça Filho, como diretor de Aquarius. Como tem sido a repercussão desde o lançamento?

MIRELLA — Estamos ao redor da obra de uma artista que dialoga profundamente com o Brasil. Eu não sou a única e nem a maior fã da Bethânia que existe por aí, mas sou uma daquelas que frequentemente recebe pelas redes sociais o recorte da cena de Aquarius que deu título ao livro. Ou seja, alguém assiste e lembra imediatamente de mim. Com quantos brasileiros isso acontece também? Muitos. Há uma universalidade com a qual nos identificamos de imediato, ao menos nós, os intensos, e é genial essa síntese que o Kléber traz na cena.

A coisa mais bonita que está acontecendo com o livro é o interesse que ele desperta em pessoas dos quatro cantos do país, inclusive em cidades que certamente não têm uma livraria. Isso tem tudo a ver com o fato de a Bethânia perfundir gerações e regiões. Ela toca em algo que é muito nosso e que reconhecemos sem esforço. A maior parte dos primeiros poetas que li me foi apresentada pela obra dela e fico muito emocionada ao pensar que, de algum modo, também participo dessa corrente que amplia o nosso jeito de sentir e imaginar o Brasil por meio da literatura.

PUBLISHNEWS — Além de escritora, você também está à frente da Editora Pitanga. O que mais tem despertado o seu entusiasmo como editora neste momento?

MIRELLA — Minha ousadia é querer chegar longe, no sentido direto da palavra. E, ao usá‑la, estou fazendo uma auto provocação. É muito bonita a comunidade literária que se forma em uma cidade como São Paulo. Há muito espaço para pensar, debater, estudar e produzir literatura. Isso, ao que parece, tem permitido inclusive que se possa “viver” de literatura, já que essa comunidade também cria um mercado que se retroalimenta. Vejo esse movimento de forma muito positiva e nós somos fruto dele, falamos a partir do Sudeste, mas não me interessa falar só para o Sudeste. É por isso que quero fazer livros que cheguem longe.

[03/07/2026 07:26:58]