
Em um momento de grande vitalidade das editoras independentes do país, desponta, em São Paulo, a Editora Pitanga, feita a dez mãos por cinco mulheres — três delas se conheceram na pós‑graduação em escrita de ficção do Instituto Vera Cruz. Elas contam que o fato de a maior parte do público leitor ser formada por mulheres deu aquela coragem propulsora para apostar no selo. Não partem da premissa de publicar apenas autoras, mas da convicção de que um olhar coletivo feminino alarga as possibilidades de dar mais espaço a obras que merecem ser publicadas e lidas.
A editora Flávia Leal, a diplomata Mariana Lobato e a multiartista Mirella Amorim se conheceram na pós. Flávia já sonhava em ter uma editora para chamar de sua; Mariana reunia cada vez mais interessados no perfil literário Livro Diverso; e Mirella há muito se dedicava à escrita. Depois vieram as irmãs Isabel e Luciana Botter, revisoras. Assim nasceu a Pitanga: do encontro de trajetórias e de um desejo compartilhado de transformar cuidado editorial em circulação de livros.
De acordo com as fundadoras, duas lacunas do mercado orientaram os primeiros passos da casa: a assimetria entre quem lê e quem decide, e a fragilidade do suporte editorial oferecido a muitos autores. Embora a maioria do público leitor brasileiro seja feminina, as decisões sobre seleção, curadoria e circulação ainda se concentram majoritariamente nas mãos de homens. Ao mesmo tempo, apontam em uníssono, há editoras que imprimem livros sem submeter os originais a etapas essenciais do processo editorial, como revisão, preparação de texto, estratégia de divulgação e acesso efetivo às livrarias.
Criada em maio de 2025, a Pitanga surge como resposta a esse cenário. A proposta é incidir na produção e na circulação de obras a partir de um olhar coletivo, reunindo formações em edição, escrita, arte, direito, psicanálise, história, diplomacia e serviço social.
“Nosso objetivo é publicar livros bem cuidados e capazes de chegar a leitores reais. É importante ressaltar que admiramos o trabalho das editoras que estão nesta caminhada há mais tempo, principalmente as independentes. Estamos chegando devagar, mas querendo fazer barulho”, diz, animada, Mirella Amorim, carioca radicada na capital paulista há quatro anos.

Neste primeiro ano, os originais selecionados vieram das comunidades de escrita que as editoras frequentam, mas a ideia não é se fechar. Pelo contrário: este foi apenas o ponto de partida.
“Todas as nossas escolhas são feitas em conjunto e guiadas pelo entendimento de que o compromisso social é prática diária e que a bibliodiversidade é essência", assegura Mariana Botter, diplomata que serviu na Palestina, em Boston, La Paz e Brasília e, no momento, cursa Letras na Universidade de São Paulo (USP).
As editoras independentes enfrentam hoje uma encruzilhada: muitas sobrevivem abrindo mão de etapas essenciais, como revisão e preparação de texto, e acabam funcionando como intermediárias entre autor e gráfica. Outras, para se manter, exigem aporte financeiro dos autores. Nenhuma das sócias tem a Pitanga como atividade principal, ao menos por enquanto.
“Nossa viabilidade hoje se apoia no capital humano que colocamos em cada etapa editorial. Cuidamos internamente da edição, da preparação de texto, da divulgação e da distribuição em livrarias, e contratamos fornecedores para outras etapas, como serviços administrativos, diagramação e impressão", diz Flávia Leal. Os autores não pagam pela publicação, e a editora aposta na venda dos exemplares para reaver o investimento.
Para 2026, a casa prevê o lançamento de três romances e um título de não ficção, além do infantojuvenil Turma do Vento e da coletânea Tutano da palavra: Escritos sobre escrita, já disponíveis nas livrarias. A prioridade é qualidade, não volume. Por essa razão, a meta é publicar até seis títulos por ano. “Mas temos muitos planos para o futuro, como a tradução de obras estrangeiras e a criação de outros selos", adianta Mariana. O planejamento para 2026 está fechado, mas 2027 vem aí.






