
Em 2024, foi a vez do Tá todo mundo tentando — Histórias para ler na cidade (Companhia Editora Nacional), uma coletânea de textos afiadíssimos que encontraram leitores na newsletter homônima e independente, produzida por ela há cinco anos. Gaía é aquela escritora que tem a palavra certa, sabe? Quando a gente lê, parece que está conversando com a autora. E o mesmo acontece quando se conversa. A gente jura que está lendo um de seus escritos.
Para quem atravessou os anos 2010 com os olhos e ouvidos vidrados na MTV Brasil, esse nome diferentão não é novidade. Gaía foi apresentadora da emissora entre 2010 e 2013, quando já saía na frente com as suas descobertas musicais, sempre trazendo, ao seu público cativo, videoclipes inéditos de muitas bandas anônimas que depois estourariam. Deslumbre é uma agarrada no fone empoeirado para quem está disposto a entrar no túnel do tempo e recordar — ou conhecer — o que tocava nas pistas, em alto e bom som, nas madrugadas incandescentes de outrora.
De Joy Division a Björk, de The Cure a Sonic Youth, de Prodigy a Bauhaus. Um repertório que atraía como ímã a escritora para o centro das pistas, virou a matéria-prima do seu trabalho e, depois, entrou num limbo em sua biografia. O livro funciona como reconciliação — não apenas com um repertório, mas com uma parte decisiva da própria caminhada profissional. “Ainda vou fazer 50 anos e já tenho três livros de memórias”, diverte-se, na entrevista por vídeo que durou mais de uma hora.
Ela foi uma seguidora ardorosa dos rastros de felicidade notívaga que a coluna da jornalista e escritora Erika Palomino apontava na Folha de S. Paulo, entre 1992 e 2005. Noite Ilustrada era um retrato da vida noturna paulistana, abastecida, às sextas-feiras, com beats e drinks nas páginas do jornal. Enquanto sujava os dedos com o papel cheirando a tinta, se inteirava da programação quente da cidade e já batia um fio para combinar tudo com os amigos.
Anos depois, Gaía atuaria no mesmo jornal como repórter. A leitora da Noite Ilustrada tornava-se colaboradora do jornal que havia moldado seus passos de dança. Erika Palomino — que segue atuando na comunicação, entre moda e cultura — reaparece agora em Deslumbre, como referência assumida. A turnê de lançamento do livro continua no dia 9 de março, em Santos, e no dia 19 do mesmo mês, no Bar Alto, em São Paulo.

O Rio de Janeiro deve entrar em breve na rota de autógrafos. Em Deslumbre, Gaía dá aquela sacada no retrovisor antes de partir para outros projetos literários. Um livro de ficção está nos seus planos. O prefácio é de Camilo Rocha, jornalista que ajudou a narrar a cena eletrônica no país, e as ilustrações de Tiago Lacerda, artista visual ligado à cultura pop.
E hoje é Gaía quem entrega o mapa da mina a quem quer se divertir em São Paulo: “Mesmo que eu não vá em tudo, e não vou, gosto muito de acompanhar o que está acontecendo na cidade. São Paulo é uma cidade dura, que te deixa exausto. E qual é o lado bom de morar aqui? Ter acesso a uma vida cultural espetacular", pondera essa paulistana nata que passou anos viajando pelo mundo a trabalho, mas sempre voltou para casa.
Criadora das newsletters Tá todo mundo tentando e Guia Paulicéia, com cerca de 22 mil assinantes, Gaía tem ministrado regularmente, nos últimos quatro anos, o curso online ABC da Newsletter feito sob medida para quem tem ou quer começar uma. Para ela, que viu os blogs nascerem e morrerem, a grande vantagem do boletim contemporâneo é a facilidade oferecida de baixar a lista de assinantes e ter a liberdade de se comunicar com os seus leitores a partir de qualquer plataforma.
A cada turma, maior é a demanda pelo curso. No entanto, as pessoas ainda esperam por um milagre. “Muitos chegam viciados nas ofertas de Instagram, querendo a todo custo uma solução rápida: ‘Como faço para alcançar mais leitores com a minha newsletter?'. Essa é a pergunta de um milhão de dólares!", explica, sorrindo. As suas duas newsletters nasceram em 2021, durante a famigerada pandemia.
“Quis recomeçar com a minha escrita. Escolhi o formato newsletter porque entendi que teria que me comprometer com a periodicidade e isso me faria bem àquela altura”. E fez. Esta repórter que vos escreve, por exemplo, é da MPB, do samba e do choro, mas assina os boletins da Gaía desde o início. “Talvez a gente esteja chegando num momento de aprender a usar melhor as redes sociais", contemporiza, enquanto recordamos as vantagens da existência off-line.
O formato de newsletter deixou de ser nicho e passou a integrar estratégias de artistas e escritores de diferentes áreas, do ator Lázaro Ramos à cantora Dua Lipa, criadora da Service95. Há uma tendência clara, e plataformas como o Substack vêm se aperfeiçoando, de olho na migração de jornalistas e criadores de conteúdo que querem depender menos de algoritmos.

Antes de se ocupar do próximo livro individual, Gaía poderá ser lida na coletânea Tutano da palavra — Escritos sobre escrita, que sai pela novata Editora Pitanga. Ela é uma das 13 autoras da obra, escrita pela turma de 2024 do Curso Livre de Preparação Editorial (Clipe), referência na formação de preparadores e revisores no país. O lançamento será neste sábado, 28 de fevereiro, das 10h30 às 12h30, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima (Rua Henrique Schaumann, 77— São Paulo / SP).
E os outros planos para o futuro próximo? “Escrever o Deslumbre resgatou a minha vontade de escrever sobre música. Estou fazendo uma série em homenagem ao David Bowie (1947-2016), para lembrar de sua obra na primeira década sem ele, e colocando mais músicas nas newsletters de um jeito muito natural. Ah, e quero muito produzir um audiolivro", adianta Gaía Passarelli aos leitores do PublishNews. "Tudo com alegria genuína", diz ela. E com trilha sonora, é claro.






