
O principal autor na minha salada literária atual é Édouard Louis, com Lutas e metamorfoses de uma mulher (Todavia, 2021). Édouard, especialmente (junto a seu amigo pessoal e autor Didier Eribon), traz a questão da homossexualidade reprimida em casa com violência; faz(em) isso de uma forma que sua escrita transforma o peso de sua história em literatura, para além de memórias.
Annie Ernaux tem, com Eribon e Louis, esse campo comum: da escrita como dispositivo de denúncia e de metamorfose. Ernaux corta com a faca mesmo; Eribon mostra como a sociedade sentencia e marca; Louis expõe a violência familiar e encena a luta pela mudança.
Édouard Louis radicaliza tudo isso em Lutas e metamorfoses de uma mulher, narrando a transformação da mãe, antes subjugada à violência doméstica, depois capaz de escapar e reinventar-se. A narrativa não busca reconciliar, mas expor a brutalidade sofrida e ao mesmo tempo reconhecer a potência de metamorfose. O íntimo torna-se político, ao evidenciar como as violências de gênero (e de classe) se reproduzem no interior das famílias.
Escrever para esclarecer o que aparentemente não tem explicação. Para matar o monstro. Escrever para derrotar o terror que mora em casa. Esta é a chave no meu momento de leitura atual.
Busco nesses livros explicações para coisas que não têm explicação. Se aos 17 anos eu não tivesse dito à mãe que eu estava determinada a ir embora de casa sozinha, ela nunca teria chamado a polícia para deter meu pai. Teríamos continuado lá, com aquele homem que estava sempre disposto a escalar ao próximo patamar de violência e abuso. Na minha opinião, agrava a questão de minha mãe nunca ter feito nada antes disso, o fato de que ela era chefe do serviço social de um hospital no rio de janeiro e, ao longo dos anos em que permitia o sofrimento em casa de uma menor de idade e o dela mesma, ajudou tantas mulheres a saírem de situações similares, ensinou-lhes o caminho das pedras para saírem vivas de seus infernos familiares. É por isso que estou lendo o que estou lendo."
Cecilia Giannetti é autora do romance Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi (Agir, 2007), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e ficcionista traduzida na Alemanha e Itália, foi publicada no Brasil pelas editoras Record, PubliFolha, Rocco, Mórula, Ediouro, Casa da Palavra e Faria & Silva. Editou o Portal Literal, sob a curadoria de Heloisa Teixeira, e coordenou os sites oficiais de Rubem Fonseca, Zuenir Ventura, Luis Fernando Veríssimo, Ligia Fagundes Telles e Ferreira Gullar. Colaborou com revistas e jornais renomados e participou de 15 antologias as mais variadas.







