O que estou lendo: Cecilia Giannetti
PublishNews, Monica Ramalho, 27/05/2026
"A narrativa não busca reconciliar, mas expor a brutalidade sofrida e ao mesmo tempo reconhecer a potência de metamorfose. O íntimo torna-se político", diz a autora carioca

"Tenho feito um malabarismo-revezamento entre diferentes obras no momento que, na minha própria 'auto sociobiografia', me fazem sentido como livros que dialogam entre si e articulam uma espécie de escrita como denúncia da violência e abusos domésticos: o terror, afinal, não está só em criaturas e espíritos malignos; pode estar em nossos pais, tios, avós, vizinhos e família estendida.

O principal autor na minha salada literária atual é Édouard Louis, com Lutas e metamorfoses de uma mulher (Todavia, 2021). Édouard, especialmente (junto a seu amigo pessoal e autor Didier Eribon), traz a questão da homossexualidade reprimida em casa com violência; faz(em) isso de uma forma que sua escrita transforma o peso de sua história em literatura, para além de memórias.

Annie Ernaux tem, com Eribon e Louis, esse campo comum: da escrita como dispositivo de denúncia e de metamorfose. Ernaux corta com a faca mesmo; Eribon mostra como a sociedade sentencia e marca; Louis expõe a violência familiar e encena a luta pela mudança.

Édouard Louis radicaliza tudo isso em Lutas e metamorfoses de uma mulher, narrando a transformação da mãe, antes subjugada à violência doméstica, depois capaz de escapar e reinventar-se. A narrativa não busca reconciliar, mas expor a brutalidade sofrida e ao mesmo tempo reconhecer a potência de metamorfose. O íntimo torna-se político, ao evidenciar como as violências de gênero (e de classe) se reproduzem no interior das famílias.

Escrever para esclarecer o que aparentemente não tem explicação. Para matar o monstro. Escrever para derrotar o terror que mora em casa. Esta é a chave no meu momento de leitura atual.

Busco nesses livros explicações para coisas que não têm explicação. Se aos 17 anos eu não tivesse dito à mãe que eu estava determinada a ir embora de casa sozinha, ela nunca teria chamado a polícia para deter meu pai. Teríamos continuado lá, com aquele homem que estava sempre disposto a escalar ao próximo patamar de violência e abuso. Na minha opinião, agrava a questão de minha mãe nunca ter feito nada antes disso, o fato de que ela era chefe do serviço social de um hospital no rio de janeiro e, ao longo dos anos em que permitia o sofrimento em casa de uma menor de idade e o dela mesma, ajudou tantas mulheres a saírem de situações similares, ensinou-lhes o caminho das pedras para saírem vivas de seus infernos familiares. É por isso que estou lendo o que estou lendo."


Cecilia Giannetti é autora do romance Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi (Agir, 2007), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e ficcionista traduzida na Alemanha e Itália, foi publicada no Brasil pelas editoras Record, PubliFolha, Rocco, Mórula, Ediouro, Casa da Palavra e Faria & Silva. Editou o Portal Literal, sob a curadoria de Heloisa Teixeira, e coordenou os sites oficiais de Rubem Fonseca, Zuenir Ventura, Luis Fernando Veríssimo, Ligia Fagundes Telles e Ferreira Gullar. Colaborou com revistas e jornais renomados e participou de 15 antologias as mais variadas.

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