
Um poema escrito para uma cerimônia religiosa acabou se transformando em livro. Em Você viu Oxum? (Oficinar, ilustrado por Luciana Nabuco), Rogério Athayde parte da divindade das águas doces para construir uma obra em que poesia, filosofia e tradição iorubá conversam muito bem. Babalawo, pesquisador, escritor e professor carioca, ele vem construindo uma obra dedicada ao universo dos orixás. Pesquisa, há quase 30 anos, as religiões de matrizes africanas e seus desdobramentos na vida prática.
Sobrinho-neto do jornalista e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) Austregésilo de Athayde (1898-1993), já publicou cinco livros — Exu e o mentiroso (2012), O filho querido de Olokun (2019), Orunmilá (2022), Oxalá é quem sabe (2023) e Ossaim (2025), do catálogo da Pallas Editora. Rogério também está à frente de um clube de leitura sobre orixás, ao lado do professor Alexandre Santos, na Janela Livraria de Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
"Falar de Oxum, e falar agora, é particularmente importante. Nessa época em que vivemos, de tanta violência contra as mulheres, falar de Oxum é mais um meio para dar combate à misoginia e discutir a potência dos muitos papéis que o feminino possui. A força que tem, seja para a geração de vida, para o trabalho, para o cuidado, para a liderança, para a disposição de criar coisas no mundo", disse ao PublishNews.
Na entrevista, papeamos sobre a escolha de Oxum como personagem central da obra, a relação entre criação literária e religiosidade e a defesa de que os orixás podem ser entendidos como mecanismos de pensamento, capazes de suscitar reflexões sobre ancestralidade, intolerância religiosa e os desafios impostos às mulheres na sociedade contemporânea, ainda tão machista. Leia:
PUBLISHNEWS — Por que escolher Oxum como personagem central de uma obra literária? ‘Você viu Oxum?’ está mais para devoção ou literatura?
ROGÉRIO ATHAYDE — Tem escolhas que a gente faz. Mas eu gosto de pensar que às vezes as escolhas escolhem a gente. Acho que foi o que aconteceu com esse livro pra Oxum. Escrevi esse poema há muito tempo pra uma cerimônia. Uma filha de santo da minha casa estava completando sua maturidade religiosa e me pediram pra escrever alguma coisinha pro “livro de ouro” dela. Aí eu sentei e escrevi.
Sobre o quanto existe de devoção e literatura preciso dizer que entendo esse encontro como minha “profissão de fé”. É profissão porque é meu ofício, como babalawo, como pesquisador e escritor; e é de fé porque acredito nos deuses e na literatura como mecanismos de conhecimento e como formas de buscar felicidade. Então pra mim não existe fronteira entre a literatura e a fé. E esse livro pra Oxum tem exatamente esse interesse: a devoção ao sagrado, seja como amor à divindade , seja como amor à literatura.

PN — Você pesquisa as religiões de matrizes africanas há muitos anos. Como encontrou o equilíbrio entre conhecimento religioso e a criação poética sem transformar a literatura em explicação?
ROGÉRIO — O que mais tem me interessado como pesquisador é entender os deuses como mecanismos de pensamento. Platão já havia sugerido isso quando tratava os deuses como ‘ideias’. Nietzsche (logo ele!) fez coisa parecida, dizendo que os deuses são ‘conceitos’. Wole Soyinka, para minha alegria, fala dos deuses iorubanos, os orixás, como recursos filosóficos. Gosto de tê-los como companhia para pensar o que os deuses representam para nós humanos e o que descobrimos a nosso respeito quando tentamos conhecer os deuses. Mas essa conversa é bem longa. Para responder sua pergunta, devo dizer que os deuses moram em suas histórias. Já escrevi sobre isso e agora mesmo estou preparando um novo livro retomando essa ideia. Então pra mim a criação poética, que se mostra com os mitos e sua reprodução literária ou oral e performática, acessa o conhecimento e estimula o pensamento de uma maneira única. Mas essa também é uma conversa bem longa.
PN — Em um momento de crescimento das narrativas sobre ancestralidade, qual é a responsabilidade de escrever sobre Oxum, tão cultuada? E o que a tradição dos orixás pode ensinar aos leitores que não têm nenhum ponto de contato com as religiões de matrizes africanas?
ROGÉRIO — Oxum... Sempre é um bom momento pra falar dos deuses. E sempre é um bom momento pra falar dos orixás. Para nós que vivemos uma cultura tão fortemente marcada pela diáspora das civilizações africanas, que foram trazidas à força pelo tráfico de pessoas, raptadas, violentadas, escravizadas, que passaram por um processo secular de segregação, preconceito, discriminação e apagamento epistêmico, falar dos orixás deve ser sempre fundamental. Então esse é o primeiro ponto. Também podemos usar a beleza, a complexidade e a sofisticação desse pensamento para dar combate à intolerância religiosa. E me refiro somente ao caso iorubá, que é meu interesse de trabalho há quase trinta anos. Outras etnias africanas que vieram forçadas para as Américas têm igualmente a mesma potência, a mesma capacidade de revelar como é ignorante, estúpido, brutal e triste o preconceito contra as religiões de matrizes africanas.
Mas falar de Oxum, e falar agora, é particularmente importante. Nessa época em que vivemos, de tanta violência contra as mulheres, falar de Oxum é mais um meio para dar combate à misoginia e discutir a potência dos muitos papéis que o feminino possui. A força que tem, seja para a geração de vida, para o trabalho, para o cuidado, para a liderança, para a disposição de criar coisas no mundo... Oxum, como divindade e mecanismo de pensamento, pode muito bem auxiliar na reflexão sobre o feminino, sobre as mulheres e os homens, sobre como é preciso ensinar aos homens uma nova maneira de estar no mundo com as mulheres, com delicadeza, respeito e companheirismo. Isso pode parecer muita coisa pra um livro tão pequeno. E talvez seja mesmo. Mas Oxum é grande demais e com ela podemos tornar nossa experiência humana mais amorosa, mais justa, mais inteligente e equilibrada.






