
"No início do ano, li o poema 'Cine Divinópolis', da Adélia Prado, em alguma página da internet e fiquei apaixonado. Ainda não conhecia muito da obra dela e fui atrás de O jardim das oliveiras, o livro em que 'Cine Divinópolis' havia sido publicado originalmente. Ele se tornou um dos meus livros de poesia favoritos, e me propus a ler toda a obra da Adélia. Até agora, além de O jardim das oliveiras, li Bagagem e Solte os cachorros e estou lendo Filandras. Por sorte minha, ela tem uma bibliografia bem grande e ainda falta um bocado pela frente.
Filandras é um livro de contos que, em determinadas histórias, dialoga com a forma do romance, onde Adélia retoma sua tríade mais característica – religião, amor/desejo e morte –, temas que amo encontrar na literatura. Adélia Prado não abandona a poesia nem escrevendo em prosa e trabalha como ninguém as coisas não ditas. Isso tem me ajudado muito no que ando escrevendo nos últimos meses. Outro ponto do livro que tem me interessado muito é o cenário interiorano. Os livros que mais tenho gostado se passam em cidades interioranas e, por consequência, tenho buscado cada vez mais narrativas com esse elemento.
Outro grande motivo pelo qual indico a leitura de Filandras é a capacidade da Adélia Prado de capturar o leitor nas primeiras linhas de cada conto e de organizar o encadeamento das ideias. O livro é uma aula de como começar uma narrativa e conduzir o fluxo de pensamento.
Como preciso conciliar minhas leituras com outras demandas do trabalho na área literária, acabo dedicando menos tempo ao livro do que gostaria. Dos quarenta e três contos, por enquanto, li um pouco mais da metade e é muito difícil indicar qual mais gostei até agora, mas destaco 'Luz em resistência', em que ela faz a linguagem ser uma personagem da história, e 'Alegrezas', sobre a preocupação de uma madrinha com o afilhado.
A Record está relançando a obra da Adélia e estou fazendo minha coleção. O próximo título que irei ler é O homem da mão seca."
Kaio Phelipe é escritor, editor, bibliotecário, colaborador da revista O Odisseu e autor dos livros Todos nós sonhávamos em ser Carmen Miranda (Impressões de Minas, 2025) com o qual foi semifinalista do Prêmio Oceanos, e O que entendemos da noite (Isto Edições, 2025). Na Casa PublishNews da Flip 2026, Kaio estará na mesa Identidade e protagonismo: Escrevendo nossas histórias, a ser realizada no sábado, dia 25, às 16h, com mediação desta editora-assistente do PN.






