
Já imaginou descobrir, em pleno voo, que a sua própria história talvez esbarre em uma das maiores tragédias da aviação mundial? Em Espaço aéreo (Fósforo), novo romance da escritora pernambucana Claudia Cavalcanti, a jornalista Suzana Molinos toma o seu lugar no avião para uma viagem de férias (e algum trabalho, como a maioria dos mortais ativos em 2026), curiosa para ler uma reportagem sobre a queda do voo AF447, da Air France, em 2009, e é levada a fazer conexões inesperadas entre o acidente e a morte do marido, um ornitólogo francês que julgava conhecer profundamente.
Na próxima semana, Claudia vai autografar os livros para os leitores cariocas. Será na sexta-feira, 18 de setembro, às 19h, na Janela Livraria (Rua Maria Angélica, 171 B, no Jardim Botânico), após uma conversa com o escritor, ensaísta e professor Felipe Charbel.
Viúva desde 2008, Suzana embarca em 2019 carregando uma versão aparentemente definitiva do seu casamento, que durou mais do que deveria. O amor morno, agora ela enxerga com clareza, talvez se arrastasse por mais alguns anos não fosse interrompido por outra tragédia. É a leitura da revista que começa a desarrumá-la. Entre pássaros, fotografias, desastres, literatura e jornalismo, Claudia vai deixando pistas e ligando os pontos de uma história curta, consistente e elegante, com uma arquitetura tão cinematográfica que é difícil não imaginá-la um dia nas telonas.
Mas talvez o efeito mais interessante de Espaço aéreo se dê justamente depois da última página, de número 86, alcançada em poucas horas por quem entrar de verdade na narrativa. Mal terminamos o romance e já nos sentimos propelidos a recomeçar a leitura, de olho nas pistas que agora podemos reconhecer e seguindo o fio puxado pela exímia e exigente jornalista. Muitíssimo bem escrito e preciso na sua brevidade, é um livro que termina e, de algum modo, começa outra vez. O espaço aéreo estaria fora ou dentro?
Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura com Avenida Beberibe (Fósforo, 2024), Claudia conversou com o PublishNews sobre as entrelinhas de Espaço aéreo, a sua literatura de síntese, o papel das fotografias (ela é uma fotógrafa de mão cheia) na sua ficção, os anos dedicados à tradução e os deslocamentos — usando também a palavra surrada da vez, Claudia! — de uma escrita que toma com liberdade o seu próprio rumo enquanto a autora contempla o mundo de dentro de casa. Leia a entrevista:
PUBLISHNEWS — Em Espaço aéreo, Suzana revê a história do seu casamento a partir de uma reportagem sobre o acidente do voo AF447. O que interessou a você nessa ideia de uma leitura capaz de alterar a memória que alguém tem da própria vida?
CLAUDIA CAVALCANTI — Bem, no caso de Suzana, achei que ela merecia a revisão da própria vida. Para quem não leu ainda, explico melhor: o livro tem dois planos narrativos, uma reportagem sobre os dez anos da queda do voo 447, da Air France, no Oceano Atlântico, em 2009; e o voo em que está a jornalista Suzana Molinos, durante o qual ela lê uma reportagem que vai mudar a forma como ela interpretava seu casamento, encerrado com a morte trágica de seu marido. Para quem já leu, acho que a gente não pode esquecer que o livro dá pistas de que Suzana não estava muito à vontade no casamento, só não sabia por quê. Chegou a imputar a si própria a manutenção daquela união que lhe parecia sem graça, acomodada. Como estava na faixa entre 40 e 50 anos, era natural que ela também analisasse outros entraves na sua vida, como a profissão que exercia ou mesmo as mudanças físicas pelas quais obrigatoriamente passava.

PN — Didier é ornitólogo, Suzana é jornalista e o romance passa por acidentes aéreos, pássaros, e chega em literatura e reportagem. Como você pesquisou universos tão diferentes para escrever um livro tão curto? Aliás, o romance curto parece ser a sua especialidade. É uma escolha ou “acontece”?
CLAUDIA — Talvez o que mais me seduza na artesania literária seja justamente a artesania. Juntar todos esses retalhos numa colcha e costurá-los de forma refinada – foi o que pretendi fazer. No entanto, se prestarmos atenção, alguns desses temas convergem para quedas, acidentais ou não, ou para uma iminente queda – isso porque escrevi tendo em mente a canção de Zé Miguel Wisnik: “Se meu mundo cair, eu que aprenda a levitar”. Não à toa, Alex Cerveny desenhou para a capa uma mulher prestes a cair – ou a levitar.
Quanto aos meus livros, que prezam pela brevidade, no começo foi por acaso. Apesar de admirar uma obra como a de Thomas Mann, formada por livros extensos, acho que minha escrita se caracteriza, inclusive, pela síntese. É como pretendo continuar escrevendo – até mudar de opinião.
PN — Tanto em A vida dos outros e a minha quanto em Avenida Beberibe há documentos ou fotografias interferindo na memória. Agora, em Espaço aéreo, é uma reportagem que desencadeia a história. Por que materiais que já existem no mundo acabam entrando com tanta força na sua literatura?
CLAUDIA — Acho que as fotografias nos livros citados por vezes confundem a memória, por vezes a complementam. Não nos esqueçamos de que há também fotografias descritas (inventadas ou não), sobretudo em Avenida Beberibe. E que também há uma fotografia fundamental, a meu ver, em Espaço aéreo, além de outras fotografias narradas, que existem no plano ficcional. E a reportagem do livro se baseia em fatos reais, mas também não deixa de ser ficção.
PN — Você passou décadas traduzindo poetas como Paul Celan, Ingeborg Bachmann e Trakl antes de publicar o seu primeiro romance, depois dos 60 anos. O que tantos anos escrevendo na voz dos outros fizeram com a descoberta da sua própria voz de ficcionista?
CLAUDIA — Já faz tempo que me tornei uma tradutora bissexta. E quando sim, então de poesia e literatura infantojuvenil. São gêneros que exigem muito, pedem criatividade. Gosto disso. Penso que ter me tornado romancista (pelo menos, por ora) quer dizer mais da vontade de experimentar do que qualquer outra coisa. De dizer coisas diferentes. E mais do que escrever na voz de outros, ler a voz de outros (sobretudo de outras) me encaminhou para onde estou agora.
PN — Você nasceu no Recife, viveu na Alemanha Oriental e mora em São Paulo há quase 40 anos. Em Avenida Beberibe, voltou literariamente à casa dos seus avós; em Espaço aéreo, coloca a personagem justamente em trânsito, entre um lugar e outro. A sua escrita também é um pouco nômade?
CLAUDIA — Ao contrário do que possa parecer, só morei em três cidades na vida e tive poucos endereços (no penúltimo, passei 29 anos). Talvez por isso, sempre penso em deslocamentos (para usar uma palavra da moda, mas já meio gasta) quando me ponho a escrever. Foi o que aconteceu em Espaço aéreo e provavelmente se verá no próximo livro. Sim, fico em casa, enquanto minha escrita toma seu rumo.






