
Depois de lançar o livro em Paraty e no Rio de Janeiro, a escritora e roteirista carioca Ana Victoria Almeida conta os dias para o evento em São Paulo. Será na quarta-feira, 23 de setembro, a partir das 19h, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509, na Bela Vista — São Paulo/SP), num bate-papo com Camila Appel, Cynthia Araújo e Jessica Moreira, colunistas da Folha de S.Paulo em Morte sem Tabu, projeto dedicado a ampliar as conversas sobre morte, luto e finitude.
No romance curto Me abrace antes da queda (Oficinar), a autora entrega a narração à doença que desorganiza a vida da família. Invasivo, debochado e por vezes cruel, o Parkinson ganha voz, observa as transformações que provoca e, aos poucos, também se deixa modelar pelo afeto dos personagens cuja rotina passou a incomodar.
A ideia nasceu da experiência de Vic com a realidade do seu avô há cerca de seis anos — principalmente, de como ele passou a conviver com a doença. Se antes reagia de maneira mais combativa aos sintomas, hoje ela percebe que uma espécie de intimidade se acomodou entre eles. Foi desse convívio que surgiu uma das imagens centrais do romance: quem derruba o Zé é também quem, no fim, deseja ampará-lo para que ele não caia completamente.
“Percebi que o ato de abraçar alguém em sua queda era a síntese do que queria contar. Me senti abraçada na minha própria queda ao escrever o livro”, diz ao PublishNews.
A narrativa também se constrói em torno daquilo que uma família escolhe guardar quando o tempo, o envelhecimento e a doença sacodem o que parecia permanente. Cartas, fotografias, objetos, livros e músicas atravessam a história de Mirtes e Zé, enquanto memória e esquecimento abandonam o duelo. “Para seguir adiante precisamos selecionar com muito cuidado o que devemos lembrar e o que devemos deixar ao longo do caminho”, afirma Vic nesta entrevista. Leia!
PUBLISHNEWS — Você faz uma escolha arriscada ao entregar a narração justamente ao Parkinson: ele é invasivo, debochado, cruel, mas também sente culpa, ciúme, afeto e acaba amando a família cuja vida modifica. Como foi perceber que a doença também é transformada pelas pessoas que invade?
ANA VICTORIA ALMEIDA — Uma doença não deixa de ser um corpo que se muda pra casa de quem a carrega. Uma presença sempre traz consigo uma história, uma origem, um ponto de partida. Imaginar a origem dessa doença me trouxe um certo acalanto. Pensei que ela ou ele deveria carregar um enorme peso ao ter que exercer seu ofício. Sempre pensei da seguinte maneira: se uma doença transforma tudo que toca, como que essa presença também não seria tocada com esse embate?. Imaginei o que a doença, um narrador observador, sentiria ao observar o afeto avassalador de uma família. Seria impossível não se comover com todas mudanças e as tentativas que cada família cria pra se adaptar e continuar se amando, apesar de tudo.
PN — Há uma obsessão pela permanência no livro: Mirtes escreve cartas, Maria guarda objetos, a família preserva fotografias, livros, músicas. Em determinado momento, o narrador percebe que “lembrar do que foi um dia também significava esquecer”. Como memória e esquecimento foram deixando de ser opostos e viraram complementares durante a escrita do romance?

VIC — Memória e esquecimento viraram complementares ao perceber que, pra seguir adiante, precisamos selecionar com muito cuidado o que devemos lembrar e o que devemos deixar ao longo do caminho. O livro não trata unicamente da invasão de uma doença, mas também da morte em vida com todas suas nuances: seja ela na forma de sintomas, envelhecimento ou até a dor repentina de um coração partido. Não podemos carregar conosco todas as dores, rancores, raivas. Reconhecer um momento trágico ou doloso, também envolve, com muito esforço, um dia, encontrar uma forma de ressignificá-lo. É isso que Dona Mirtes e Seu Zé buscam fazer no livro - encontrar novas formas de enxergar a doença e até de se relacionar com ela.
PN — Quem provoca as quedas de Zé é também quem, no final, deseja abraçá-lo para que não caia. Como você chegou a essa inversão? Percebeu que ela era a síntese do livro que estava escrevendo? E quem está pedindo o abraço, afinal?
VIC — Acredito que cheguei a essa inversão ao perceber a forma com que meu avô lidava com a doença. Muitas vezes parecia que ele estava em uma conversa íntima com essa presença, fechando os olhos, e se mantendo calado por alguns minutos. Antes ele era mais combativo em relação aos sintomas, hoje parece ter desenvolvido uma relação mais próxima com o que está acontecendo com ele. Escrevendo, me questionei: como essa doença deveria se sentir ao perceber a proximidade do meu avô? Um dos sintomas mais presentes era a sua queda. Ele tinha muita dificuldade de andar, como também de levantar e queria transformar esse sintoma no ato de um abraço. A doença tinha que inserir o sintoma da queda, mas acaba sentindo vontade de abraçá-ló. Percebi que o ato de abraçar alguém em sua queda era a síntese do que queria contar. Me senti abraçada na minha própria queda ao escrever o livro.






